Brasil precisa de mecanismo para equalizar competitividade das montadoras chinesas com indústria nacional, diz CEO da Stellantis
O CEO global da Stellantis, dona das marcas Fiat, Peugeot e Jeep, Antonio Filosa, defendeu que o governo brasileiro estude um mecanismo de equalização de competividade da indústria automobilística nacional com as fabricantes chinesas que estão chegando ao Brasil. Para ele, assim como Estados Unidos, que impôs tarifa de 100% aos veículos chineses, e Europa, que também estuda impor medidas, essa medida é fundamental para garantir a sustentabilidade do ecossistema de produção brasileiro, que tem centenas de fornecedores e gera milhares de empregos.
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— Assim como os Estados Unidos têm feito, assim como a Europa parece que está discutindo, existe um gap competitivo das marcas chinesas no mercado automobilístico com o resto do mundo. Considerando que a indústria automotiva brasileira tem as plantas, milhares de fornecedores e gera milhões de empregos diretos e indiretos, para cuidar da sustentabilidade dessa indústria, acho que um mecanismo de equalização para esse tipo de gap competitivo deve ser pensado e deve ser implementado. Se não, o que está em jogo é a sustentabilidade futura de tudo isso, de cadeias de valores que estão há décadas implantadas no Brasil — disse Filosa durante entrevista coletova em São Paulo.
O governo brasileiro retormou a cobrança de impostos sobre veículos elétricos importados, que deve chegar a 35% em janeiro de 2027. Filosa afirmou que não necessiariamente o Brasil precisa aumentar mais o imposto, mas sim chegar a algum mecanismo que equalize a competição com os carros chineses.
— Não estou pedindo tarifas. Estou pedindo só para o setor e o governo estudarem esse gap e transformá-lo em um mecanismo de equalização — afirmou.
A Stellantis confirmou que os primeiros modelos da Leapmotor, fabricante chinesa que firmou uma joint venture com a Stellantis, a Leapmotor International, começarão a ser produzidos no Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco. Filosa disse que os primeiros veículos devem começar a sair da linha de montagem no primeiro trimestre de 2027. Eles serão os SUVs B10 e C10. A produção local da marca Leapmotor pela Stellantis faz parte da estratégia do grupo de consolidar e ampliar o alcance da marca no Brasil e América do Sul.
Filosa afirmou que esse gap de competividade entre as marcas chinesas e outras fabricantes nasce de uma ociosidade industrial muito forte na China, que precisa de outros mercados para dar vazão a seus produtos. O Brasil, na América do Sul, tem sido o principal mercado para algumas dessas marcas.
— A segunda razão para esse gap, é que o governo chinês e as montadoras chinesas tiveram 20 anos de planejamento para desenhar e implementar um ecossistema de produção, que gera uma competitividade estrutural muito elevada — explicou.
Leapmotor fabricado em Pernambuco
Filosa lembrou que o mercado brasileiro tem características muito próprias e que a Stellantis vai introduzir uma tecnologia tipicamente Fiat na Leapmotor. Está sendo desenvolvida pela empresa a primeira tecnologia Reev Flex do mundo. A Stellantis chama o sistema de propulsão pela sigla em inglês Reev, e afirma que já começou o desenvolvimento local de versão flex capaz de funcionar também com etanol em qualquer mistura com gasolina. Para a produção local da marca Leapmotor, o Polo Automotivo de Goiana da Stellantis está passando por uma expansão. A empresa já produz veículos das marcas Jeep, Fiat e Ram na unidade.
— Vamos introduzir a tecnologia tipicamente da Fiat, entre aspas, dentro da Leapmotor — afirmou Filosa.
Ele afirmou que a guerra no Oriente Médio traz volatilidade geopolítica e que um dos efeitos disso é inflação.
— Um dos elementos que geralmente uma forte volatilidade geopolítica gera é a inflação. Então, acredito que a inflação seja um indicador macroeconômico que a gente precisa capturar nos nossos negócios e se preparar para para gerenciar nos próximos meses. Pode ser que tudo se resolva rapidamente, isso é o meu desejo — disse.
O grupo Stellantis anunciou, em fevereiro, um prejuízo líquido de € 22,3 bilhões (cerca de US$ 26,3 bilhões ou R$ 134 bilhões) em 2025, após uma baixa contábil bilionária para descontinuar modelos não lucrativos e reduzir sua capacidade de fabricação de baterias para veículos elétricos. Foi o primeiro prejuízo anual da história da empresa, segundo informado pelo portal da CNBC, e o segundo maior da história para uma montadora, depois do da General Motors, em 2007.
Filosa lembrou que a operação na América do Sul, entretanto, está indo muito bem já há algum tempo e não é um elemento de preocupação.
— O Brasil conseguiu melhorar o market share no último trimestre do ano passado — disse Filosa, lembrando que a marca encerrou o primeiro trimestre deste ano na liderança dos segmentos de automóveis e comerciais leves tanto no Brasil quanto na Argentina.
No Brasil a companhia emplacou 174 mil veículos no acumulado deste ano, alcançando 29,1% de participação no mercado, avanço de 0,3 ponto percentual em relação ao último trimestre de 2025.
