Muito antes de nomes consagrados do transformismo brasileiro ocuparem os palcos, um artista espanhol já fazia sucesso interpretando mulheres em cineteatros de diferentes regiões do país.
Conhecido artisticamente como Darwin, ele se apresentava com figurinos luxuosos, canções e imitações de diferentes tipos femininos e, em 1923, entrou para a história do cinema brasileiro ao interpretar a noiva do protagonista de "Augusto Annibal Quer Casar", dirigido por Luiz de Barros.
A participação fez de Darwin um dos primeiros artistas transformistas registrados no cinema nacional.
O curta-metragem, no entanto, é considerado uma película perdida, e a trajetória de seu protagonista acabou praticamente desaparecendo da memória cultural brasileira.
Sua atuação aconteceu em um período no qual performances de representação feminina já faziam parte da programação de teatros e cineteatros, entre sessões de filmes e outras atrações, muito antes de essa tradição ganhar os contornos e os nomes que hoje são mais conhecidos.
É justamente essa história esquecida que o pesquisador Sancler Ebert passou sete anos investigando.
O interesse surgiu em 2017, durante sua pesquisa de doutorado sobre personagens travestidos nos primeiros anos do cinema brasileiro.
Ao encontrar referências a Darwin, Ebert percebeu que havia material suficiente para reconstruir parte da trajetória do artista, que não apenas participou de um filme nacional, mas também construiu uma carreira nos palcos e alcançou público em diferentes partes do Brasil.
O pesquisador Sancler Ebert
Joyce Cury/Divulgação
A pesquisa resultou em uma tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF) e agora também chega ao público geral em "Darwin: O imitador do belo sexo", publicado pela O Sexo da Palavra.
Com 124 páginas, o livro reúne informações sobre a vida e a atuação do artista e busca devolver a Darwin um lugar na história do transformismo e das manifestações artísticas ligadas à performance de gênero no Brasil.
“Darwin teve uma grande relevância para a cena cultural brasileira.
Ele se apresentou em muitos lugares, teve público, participou de um filme e foi uma figura conhecida em sua época.
O que me incomoda é perceber que alguém com essa importância foi apagado da história”, afirma Ebert.
Para o pesquisador, recuperar a trajetória do artista também pode abrir caminho para que outros personagens esquecidos sejam descobertos.
Recorte de Darwin em publicação da época
Reprodução
Brasil já tinha uma estrela transformista no cinema em 1923: livro resgata a história de Darwin
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