Brasil gasta três vezes mais com reconstrução do que na prevenção a desastres como as chuvas em PE e na PB
Nos últimos dias, as fortes chuvas que atingiram parte de Pernambuco e da Paraíba deixaram oito mortos e um rastro de destruição, que inclui deslizamentos, inundações, infraestruturas danificadas e quase 13 mil desajolados ou desabrigados. Reconstruir as regiões atingidas exigirá vastos recursos públicos, em um esforço que poderia ser minimizado se, diante dos eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, o país optasse por se antecipar com mais eficiência aos desastres naturais.
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Contudo, dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU) analisados pelo GLOBO mostram que a maior parte das verbas federais continua sendo destinada à resposta e reconstrução de áreas afetadas por esse tipo de evento. Entre 2012 e 2026, a União empenhou R$ 24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação, valor quase três vezes maior que os R$ 9,62 bilhões destinados à prevenção.
Do total empenhado em resposta e reconstrução, cerca de R$ 21,54 bilhões foram de fato pagos ou transferidos. Já nas ações preventivas, o valor pago foi de R$ 6,8 bilhões — ou seja, menos de um terço.
As despesas classificadas como resposta envolvem medidas emergenciais, como socorro e assistência às populações afetadas, incluindo distribuição de água, cestas básicas e itens de higiene, além do restabelecimento de serviços essenciais. Já as ações de recuperação dizem respeito à reconstrução de estruturas danificadas, como pontes, bueiros e pequenas obras de contenção.
Os investimentos em prevenção, por outro lado, passam por obras e empreendimentos de infraestrutura voltados a reduzir ou evitar a ocorrência de desastres. Estão nessa categoria intervenções como sistemas de drenagem, contenção de encostas e outras ações do gênero.
Comparação entre as verbas da União destinadas a ações de resposta e recuperação
Arte O Globo
Na avaliação do TCU, o predomínio desse tipo de gasto caracteriza uma estratégia “reativa” de gestão, considerada ineficaz para reduzir os impactos dos desastres. O tribunal aponta que a maior parte dos recursos é liberada após as tragédias, enquanto as ações de mitigação e preparação seguem subfinanciadas.
Além de pouco eficiente, o modelo também é mais caro. Com base em dados internacionais, a Corte de Contas destaca que cada US$ 1 investido em prevenção pode economizar até US$ 15 em reconstrução. Ainda assim, o país mantém uma lógica de gasto concentrada no pós-desastre.
A falta de coordenação entre União, estados e municípios contribui de modo decisivo para o cenário. Enquanto a prevenção depende de ações locais, a resposta tende a recair sobre o governo federal, reforçando o ciclo de reconstrução.
Além disso, dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostram que a estrutura municipal ainda é limitada: 68% da cidades não possuem mapeamento de áreas de risco, 57% não contam com sistemas de alerta, 44% não possuem setor ou pessoal responsável pelo monitoramento de eventos e 46% não têm sequer equipe capacitada no tema.
Situação de emergência
No sábado, o governo de Pernambuco decretou situação de emergência em 27 municípios afetados pelas inundações, com prazo de 180 dias. Segundo a gestão de Raquel Lyra (PSD), a medida é necessária justamente para acelerar a execução de ações emergenciais e solicitação de apoio e investimentos ao governo federal. O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, desembarcou ontem na região, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para auxiliar nos trabalhos.
— Agora, é o momento de reconstruir e refazer estruturas que eventualmente tenham sido perdidas. Avançamos na parceria com o governo federal para que a gente consiga mais recursos para investimento em obras que garantam às nossas cidades a possibilidade de serem mais resilientes — disse Lyra ontem após encontro com o ministro.
Levantamento da CNM aponta que os desastres naturais causaram mais de R$ 730 bilhões em prejuízos entre 2013 e 2024. Os recursos destinados à prevenção, enquanto isso, permanecem limitados. Para Paulo Ziulkoski, presidente da entidade, o modelo atual sobrecarrega os governos locais, que acabam sendo os primeiros a ter contato com a população afetada:
— É um padrão equivocado e insustentável. Precisamos superar a lógica de atuação baseada apenas em créditos extraordinários durante situação de emergência ou estado de calamidade pública e avançar para o fortalecimento da política pública estruturada, contínua e orientada à prevenção.
O TCU aponta que a dependência de créditos extraordinários, liberados após calamidades, dificulta o planejamento e impede que a real necessidade de recursos seja incorporada ao Orçamento anual. Além disso, o tribunal identificou que 37% das obras federais de prevenção contratadas de 2012 a 2024 estão paralisadas ou inacabadas, em um desperdício de recursos públicos.
Para o setor produtivo, os efeitos também são significativos. Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), destaca que os eventos climáticos já provocam perdas anuais de cerca de R$ 110 bilhões
— Esse cenário reforça a importância de avançar em uma abordagem mais equilibrada, movimento que não é exclusivo do Brasil. Historicamente, a agenda climática global concentrou mais esforços em mitigação do que em adaptação, mas isso vem sendo ajustado. A COP30 foi um marco ao consolidar 59 indicadores globais voluntários de adaptação, criando uma “bússola” sobre o que é prioritário para ações na área e quais devem ser as próximas movimentações.
Investir em adaptação é, sob essa ótica, não só uma condição necessária para proteger o ambiente de negócios do país, mas também para impedir que preços mais caros cheguem ao consumidor final.
— Ações de adaptação impedem que a transmissão elétrica seja interrompida após eventos climáticos extremos, que produtores rurais tenham suas safras arruinadas, que fornecedores não consigam transportar seus produtos e que cadeias de valor sejam interrompidas — elenca Grossi.
'Múltiplos riscos'
Especialistas apontam ainda fatores estruturais para o problema. Valdir Steinke, professor no departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), diz que a ocupação urbana sem planejamento ampliou a exposição a riscos:
— As cidades foram expandidas desconsiderando elementos fundamentais como o relevo, as bacias de drenagem e a dinâmica hidrológica. Áreas de várzea, encostas instáveis e zonas naturalmente suscetíveis à inundação foram ocupadas sem critérios técnicos, muitas vezes por populações vulneráveis. Esse descompasso cria um cenário estrutural de risco, no qual eventos climáticos relativamente comuns passam a gerar desastres recorrentes.
Em mais um elemento de alerta, a diversidade e a complexidade do território brasileiro implicam na “coexistência de múltiplos riscos”, frisa Steinke. Isso exige, avalia o professor, políticas públicas regionalizadas, que sejam capazes de reconhecer as especificidades ambientais, climáticas e socioeconômicas de cada lugar:
— Além de enchentes e deslizamentos associados a eventos de chuva, o país enfrenta secas prolongadas, queimas, escassez hídrica e processos de degradação ambiental em diferentes biomas. Não há uma solução única para um território tão diverso.
Uma análise ano a ano mostra que o padrão de priorização de gastos com resposta a desastres se manteve ao longo de diferentes governos. Em 2019, primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro (PL), foram empenhados R$ 763 milhões em ações de resposta e recuperação, ante R$ 305,8 milhões em prevenção. Naquele ano, os valores pagos chegaram a R$ 799,1 milhões e R$ 406,9 milhões, respectivamente.
No último ano do governo Bolsonaro, em 2022, a diferença persistiu. Foram empenhados R$ 1,33 bilhão para resposta e reconstrução, contra R$ 335,8 milhões para prevenção. A execução, no entanto, foi menor nas ações preventivas: R$ 101 milhões pagos, ante R$ 1,08 bilhão nas despesas emergenciais.
Já em 2023, início do terceiro mandato de Lula, os gastos cresceram de forma significativa em ambas as frentes, mas a predominância da resposta foi mantida. Foram R$ 5,5 bilhões empenhados para resposta e recuperação, frente a R$ 1,57 bilhão para prevenção. Os pagamentos somaram R$ 4,58 bilhões e R$ 1,03 bilhão, respectivamente.
Em 2025, a cifra recuou, mas o padrão se repetiu: R$ 1,74 bilhão empenhado para resposta, contra R$ 611,3 milhões na prevenção. Até março de 2026, os dados mais recentes indicam R$ 481,9 milhões empenhados em ações emergenciais, e R$ 117,6 milhões em medidas preventivas.
Papel do Congresso
Para Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, uma das principais dificuldades para avaliar o investimento em prevenção no Brasil é a ausência de uma classificação clara no orçamento público de muitas políticas.
Também há dificuldades com o remanejamento feito pelo congresso. De acordo com o estudo da entidade, durante a tramitação do Orçamento, parlamentares ampliaram significativamente verbas para a chamada “causa animal”, que teve aumento de 98 vezes em relação à proposta original do governo, enquanto áreas diretamente ligadas à adaptação climática — como sistemas de alerta de desastres, contenção de enchentes e construção de cisternas — sofreram cortes.
— Os parlamentares tiraram dinheiro do programa de alertas do Cemaden, que contribui muito para evitar mortes em desastres climáticos, enquanto uma área que recebeu mais emenda parlamentar é a tal da emenda Pet, para cuidados de cães e gatos — pontua Salomon.
"As verbas para a criação, implementação e gestão de unidades de conservação, por exemplo, caíram de R$ 249 milhões para R$ 238 milhões. No ano passado, contou com R$ 342 milhões de gastos autorizados", diz trecho o estudo.
A falta de investimento em prevenção tende a encarecer a conta pública no longo prazo. Dados do próprio governo apontam que a falta de investimentos em adaptação e mitigação climática pode gerar um impacto econômico de até R$ 17 trilhões no Brasil até 2050. A estimativa considera efeitos como queda na produção agrícola, danos à infraestrutura e interrupções em cadeias produtivas e aumento de gastos públicos com desastres naturais.
O exemplo mais recente foi o das enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. Foram empenhados R$ 111,6 bilhões para ações de recuperação da infraestrutura das cidades, estímulo à economia local e repasse às famílias e aquisição de moradias.
O Ministério das Cidades afirma que a predominância histórica de gastos em resposta está ligada à maior facilidade de execução de recursos emergenciais e a incentivos de curto prazo, que favorecem ações imediatas. Segundo a pasta, ampliar a prevenção é hoje uma prioridade do governo.
Entre as iniciativas, o ministério cita mais de R$ 26 bilhões previstos no Novo PAC para obras de prevenção de desastres, além de programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, que, ao reduzir a moradia precária, também contribuem para diminuir a exposição da população a riscos.
Apesar disso, o governo reconhece entraves para ampliar esse tipo de investimento, como a dificuldade de estados e municípios em elaborar projetos técnicos e a descontinuidade de políticas públicas.
