Brasil é pior país da América Latina em presença de mulheres na política, indica ONU

 

Fonte:


Em 2026, as mulheres detêm apenas 64% dos direitos legais dos homens, o que as expõe a discriminações e a violências.

Os dados são de um relatório da ONU Mulheres e também trazem questões alarmantes de gênero na sociedade:

Mais da metade dos países do mundo não reconhecem estupro como crime.

Em quase três de cada quatro nações, uma menina pode ser obrigada a se casar pela legislação nacional.

A desigualdade também se destaca no mercado de trabalho: Em 44% dos países, a lei não determina remuneração igual entre homens e mulheres para a mesma função.

A desigualdade estrutural nos avanços voltados aos direitos das mulheres ainda são um grande problema no mundo, de acordo com Gallianne Palayret, representante de ONU Mulheres no Brasil:

“O problema é que ele ainda é desigual, lento e insuficiente diante da escala dos desafios. Não estamos falando de falhas pontuais, mas de sistemas de justiça que em muitos contextos continuam inacessíveis, caros ou precisam passar por um ciclo muito longo de tentativas até obter uma resposta ou proteção efetiva", afirma a representante.

"Isso amplia a impunidade e enfraquece o próprio Estado de Direito. A preocupação aumenta ainda mais quando olhamos para mulheres com deficiência, mulheres negras, indígenas, migrantes, refugiadas ou aquelas que vivem em conflito", explica Palayret.

A falta de mulheres no poder também se traduz na política, onde as decisões sociais mais importantes são tomadas.

Segundo a ONU, o Brasil é hoje um dos piores países do mundo em presença de mulheres na política; o pior da América Latina, ocupando a colocação 133.

Quando se tem menos mulheres nesses cargos, há menos pessoas pensando em problemas que este grupo atravessa, de acordo com Débora Thomé, professora do IDP, autora de Mulheres e Poder e Candidatas:

“A própria experiência, né? Permitindo com que você tenha a noção da existência daquele problema e, a partir disso, você começar a pensar soluções. É a ideia de criar um ambiente que seja mais benéfico às mulheres. Não é uma relação direta de ‘ah, vou ter mais mulheres na política, está tudo resolvido’. Mas existem algumas temáticas que não estão sendo sequer consideradas, Porque elas não tão conseguindo alcançar espaços de poder.”

Em 2025, apenas 25 países tinham mulheres ocupando os cargos mais altos da liderança nacional, seja como chefes de Estado ou Governo. Além disso, apenas nove países atingiram gabinetes com igualdade de gênero, com 50% ou mais mulheres ocupando cargos ministeriais.

Na avaliação de Hannah Maruci, doutora em Ciência Política pela USP, a nossa democracia não é completa se não refletir a composição social:

“A gente está aqui também relacionando com a sub-representação das mulheres na política. Parecem coisas diferentes e não conectadas, mas na verdade, elas não só são conectadas, como são consequência de uma mesma raiz, que é a desigualdade estrutural entre homens e mulheres na nossa sociedade.”

A porta-voz da ONU Mulheres reforça medidas necessárias para que o cenário seja cada vez mais favorável às mulheres:

“As soluções passam em primeiro lugar por reforma legal e institucional. Isso significa eliminar leis discriminatórias, fechar lacunas legais, garantir orçamento para implementar direitos e fortalecer sistemas de justiça sensíveis a gênero. O relatório enfatiza que movimentos feministas e organizações de mulheres são fatores decisivos para gerar mudança duradoura. Também são centrais a ampliação da assistência jurídica gratuita, o fortalecimento da justiça comunitária e financiamento.”

O relatório também mostra que nos últimos cinco anos houve avanços, apesar de poucos - 87% dos países aprovaram legislação sobre violência doméstica e mais de 40 países fortaleceram proteções constitucionais para mulheres e meninas na última década.