Brasil e EUA avançam em luta contra tráfico internacional de armas e drogas
O Brasil formalizou, em abril, uma parceria com os EUA para ampliar a troca de informações no combate ao tráfico internacional de armas e drogas. O anúncio chega após meses de pressões de Washington por uma resposta do governo brasileiro à crescente internacionalização de facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
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A iniciativa conecta a Receita Federal à Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos, e estrutura um fluxo contínuo de compartilhamento de informações em tempo real para identificar cargas suspeitas ainda na origem ou em trânsito. O Projeto MIT integra equipes dos dois países em operações coordenadas, enquanto o sistema Desarma consolida dados sobre armas, munições, peças e outros materiais sensíveis.
A decisão foi anunciada em um contexto de aumento das apreensões — mais de 1.100 armas provenientes dos EUA confiscadas em 12 meses, e 1,5 tonelada de drogas interceptada daquele país somente no primeiro trimestre de 2026 — e de avanço da atuação internacional das organizações. Em estados como Massachusetts, investigações conduzidas por autoridades brasileiras e americanas apontam a presença de integrantes do PCC no comércio local de drogas.
“Vamos intensificar o combate ao tráfico internacional de armas e drogas com ações concretas. A parceria prevê compartilhamento de dados em tempo real, rastreamento rigoroso de cargas e atuação conjunta para interceptar remessas ilícitas”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em post no X.
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Estratégia mais ampla
Do lado americano, o acordo foi tratado como parte de uma estratégia mais ampla. Em comunicado, a Embaixada dos EUA no Brasil afirmou que os países “ampliaram sua parceria para combater o crime transnacional”, acrescentando que a cooperação “vai aumentar nossa capacidade de compartilhar informações, coordenar operações e proteger nossos cidadãos”, dentro de um esforço mais amplo de integração operacional entre as agências de segurança dos países.
O anúncio ocorre após meses de debate em Washington sobre a possibilidade de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, medida que abriria caminho para sanções mais amplas e bloqueio internacional de ativos. O debate se insere em uma agenda de cooperação bilateral voltada ao enfrentamento do crime organizado transnacional.
Em abril, quatro dias após o anúncio do acordo, Lula voltou a criticar o governo americano pela pressão para incluir facções criminosas na lista.
— Essa é uma guerra que é nossa, não é dos Estados Unidos — disse o presidente, ao lembrar que o Brasil acabou de aprovar a chamada Lei Antifacção, que endurece o combate ao crime organizado.
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A ideia também é rechaçada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo e um dos principais nomes no combate ao PCC.
— Há uma falsa sensação de que, se os EUA realmente classificarem o PCC ou o Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, isso viria facilitar combatê-las dentro do Brasil. Os EUA, em que pese terem classificado dezenas de organizações criminosas da América Latina como organizações narcoterroristas, não conseguiram resolver o problema de tráfico dentro do próprio país envolvendo essas organizações.
O promotor Lincoln Gakiya, do MP São Paulo, é contra o acordo entre Brasil e EUA
Divulgação
As ressalvas do promotor aparecem associadas a efeitos financeiros e institucionais.
— [A inclusão das facções em lista de grupos terroristas] permite aos EUA aplicarem sanções de natureza bancária, econômica, financeira dentro e fora do país. Poderiam congelar bens, contas, não só de integrantes, mas de empresas ou pessoas que se relacionaram ou que se associaram com integrantes dessas organizações que são classificadas como terroristas.
O promotor também menciona a possibilidade de desdobramentos mais amplos, ao citar a previsão, na legislação americana, de realização de operações fora do território americano.
Apesar do reforço na cooperação, não há manifestação pública da Casa Branca indicando que o acordo seja suficiente. A iniciativa se soma a outros instrumentos utilizados por Washington no combate ao crime organizado transnacional.
