O revés republicano nas eleições de meio de mandato abre uma nova etapa. A história bilateral entre Brasília e Washington ajuda a enxergar as possibilidades
A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato enfraquece Donald Trump e oferece ao Brasil uma oportunidade de olhar para os Estados Unidos além da Casa Branca. A conquista democrata da Câmara e do Senado antecipa a disputa por influência na sucessão de 2028.
Trump continuará no governo, mas a relação entre os dois países já precisa ser pensada para o que virá depois. Essa relação tem outra escala de tempo.
Mais de dois séculos de diplomacia criaram compromissos, interesses econômicos e vínculos entre sociedades que nenhum mandato consegue resumir. Presidentes abrem caminhos, provocam rupturas e deixam consequências.
Encontram, porém, uma história em andamento, sustentada por instituições e pessoas que continuarão trabalhando quando eles deixarem o poder. Antes mesmo de o Brasil se tornar independente, essa história começava a tomar forma.
Em 1787, José Joaquim Maia procurou Thomas Jefferson na França em busca de apoio para a emancipação brasileira. Encontrou um interlocutor interessado, mas sem autorização para prometer ajuda e atento ao comércio norte-americano com Portugal.
O exemplo republicano inspirava, os interesses estabeleciam limites. A diferença entre expectativa e reciprocidade aparecia antes de existir uma relação entre dois Estados.
O reconhecimento da Independência brasileira pelos EUA, em 1824, inaugurou a relação diplomática. Ao longo do século XIX, o café aproximou as economias, enquanto navios, comerciantes e cônsules tornavam o contato cotidiano.
No início do século seguinte, Joaquim Nabuco buscou transformar essa convivência em uma parceria preferencial. Aproximar-se da potência em ascensão era uma escolha brasileira para ampliar seu espaço num mundo ainda dominado pela Europa.
A Segunda Guerra Mundial levou essa aposta ao ponto mais intenso. O Nordeste tornou-se decisivo para as rotas do Atlântico.
A Força Expedicionária Brasileira combateu na Itália. O financiamento norte-americano ajudou a viabilizar Volta Redonda.
A aliança também ganhou expressão no cinema, no rádio e na música, com Carmen Miranda e Zé Carioca. O Brasil de Vargas, ainda sob ditadura, lutava contra o fascismo e procurava converter sua importância estratégica em industrialização.
A paz revelou os limites daquela convergência. O Brasil esperava conservar a condição de aliado especial, mas Washington concentrou recursos e atenção na Europa e no Japão.
O lugar conquistado durante a emergência militar não assegurava a mesma prioridade depois dela. A frustração alimentaria uma pergunta recorrente da diplomacia brasileira: quanto desenvolvimento seria possível obter de uma parceria tão desigual?
Com a Guerra Fria, a busca por autonomia passou a enfrentar a leitura anticomunista de Washington. A Política Externa Independente de Jânio Quadros e João Goulart ampliou interlocutores e provocou desconfianças.
O apoio norte-americano ao golpe de 1964 associou uma nova aproximação à destruição da democracia brasileira. Nem mesmo o alinhamento da ditadura, entretanto, permaneceu intacto.
Nos anos 1970, o acordo nuclear com a Alemanha Ocidental e as críticas do governo Jimmy Carter às violações de direitos humanos agravaram os atritos. Em 1977, Geisel decidiu romper o acordo militar com os EUA.
Pouco mais de uma década depois do golpe, o regime confrontava o parceiro que apoiara sua origem. A afinidade ideológica encontrava os limites dos interesses de cada país.
A redemocratização e o fim da Guerra Fria mudaram a conversa. Dívida, abertura econômica, integração regional e regras comerciais ganharam espaço.
A proximidade entre Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton conviveu com disputas econômicas. Mais tarde, Lula e George W.
Bush discordaram sobre o Iraque e a integração hemisférica, mas lançaram uma parceria em biocombustíveis. A cooperação avançou mesmo com a manutenção da tarifa norte-americana sobre o etanol brasileiro.
Aproximação e divergência faziam parte da mesma negociação. A confiança voltou a sofrer em 2013, quando as revelações de espionagem levaram Dilma Rousseff a suspender uma visita de Estado aos EUA.
Dois anos depois, a agenda ambiental ajudou a reabrir o diálogo. Bolsonaro, por sua vez, apostou na identificação com Trump e enfrentou dificuldades com a chegada de Biden.
Com Lula e Biden, democracia e clima voltaram a favorecer a convergência. Enquanto mudavam os presidentes e suas prioridades, comércio, universidades e cooperação técnica preservavam canais de contato.
O retorno de Trump, em 2025, trouxe tarifas e pressões sobre decisões brasileiras. Ainda assim, a própria política de punição revelou quanto os países permanecem ligados.
Ao definir exceções tarifárias em 2026, Washington reconheceu dificuldades para substituir produtos brasileiros e riscos para sua própria economia. A interdependência apareceu dentro do instrumento criado para pressionar o Brasil.
A negociação também prosseguiu. Em setembro, os dois governos acordaram criar um grupo de trabalho para discutir um possível entendimento comercial.
A busca por respostas às tensões, portanto, já estava em andamento antes da derrota republicana nas urnas. O novo cenário pode ampliar as oportunidades de diálogo com parlamentares, governos estaduais, empresas e universidades.
Interesses em energia, pesquisa e minerais críticos oferecem espaço para acordos que durem além de uma eleição. Para o Brasil, importa transformar essa cooperação em conhecimento, produção e empregos qualificados.
A experiência de Volta Redonda continua útil: uma parceria ganha valor quando deixa no país meios para conduzir seu próprio desenvolvimento. É essa longa trajetória que Boa Vizinhança, livro que será lançado pela Editora Planeta, reconstrói ao percorrer quase dois séculos e meio de aproximações, conflitos e reencontros entre Brasil e EUA.
Conhecê-la ajuda a perceber o alcance das mudanças atuais sem perder de vista aquilo que permanece. Trump sai das urnas enfraquecido; os vínculos entre os dois países continuam oferecendo possibilidades que ultrapassam seu mandato.
Transformá-las em uma relação mais estável e produtiva será trabalho dos dois lados. Quando ele deixar o governo, haverá uma história a continuar — e o próximo capítulo já está sendo construído.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital. Gustavo Pessoa Economista, professor da FGV e autor de 'Boa Vizinhança', da Editora Planeta.
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