Brasil busca novos capitais em logística e infraestrutura
A ampliação dos investimentos chineses no Brasil, sobretudo em portos e ferrovias, pode ser uma oportunidade de combinar ganhos de competitividade com avanços na agenda ambiental. Em meio ao interesse crescente de empresas chinesas por oportunidades no país, o governo brasileiro afirma ter colocado o tema como prioridade e diz avançar em medidas para reforçar a segurança jurídica e viabilizar investimentos privados no setor. Esse foi o panorama apresentado no painel “Logística e Infraestrutura: Linhas que Conectam Portos, Trilhos e o Investimento Chinês no Brasil”, realizado recentemente durante o Summit Valor Econômico Brazil-China 2026 em Xangai.
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Na visão de Leonardo Ribeiro, secretário de Transporte Ferroviário do Ministério dos Transportes, além do potencial de transformar a economia brasileira e a relação comercial com a China, as ferrovias são corredores verdes.
— Nós exportamos minério, nós exportamos produtos agrícolas e não faz sentido a esses produtos serem transportados para os portos por meio de caminhões.
Pré-requisito ambiental
Do lado chinês, os participantes reforçaram que a agenda ambiental já se tornou um pré-requisito dos investimentos em infraestrutura, inclusive no exterior. O vice-presidente da Power China, Li Sisheng, afirmou que a atuação da companhia no Brasil tende a incorporar novas tecnologias e modelos de execução, combinando projetos de transporte com soluções energéticas e de menor impacto ambiental.
— Tudo dentro de uma direção mais verde, de desenvolvimento mais verde.
A orientação é reforçada por mudanças regulatórias que entraram em vigor na China. De acordo com Zhang Jianyu, secretário-geral-adjunto e diretor-chefe de Desenvolvimento da Aliança Internacional para o Desenvolvimento Verde do Cinturão e Rota, a chamada “Nova Rota da Seda”, empresas chinesas passaram a ser obrigadas a cumprir metas mais rígidas de emissões e de divulgação de informações ambientais. Para empresas com ações em bolsa, as regras também se aplicam à atuação no exterior.
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— Se uma empresa chinesa não tiver bons resultados [em sustentabilidade] no mercado brasileiro, por exemplo, ela vai ter dificuldades de captação de capital aqui dentro da China.
Segundo Zhang Jianyu, porém, as obrigações não devem ser vistas como uma barreira, e sim como uma oportunidade de investimento.
No setor portuário, a avaliação de Ding Songbing, gerente-geral e chefe do departamento de estratégia e pesquisa do Shanghai International Port, é que eficiência operacional e sustentabilidade devem caminhar juntas.
— A operação dos portos também precisa se adaptar a uma agenda mais verde, combinando automação, digitalização e adaptação a combustíveis mais limpos — argumentou. — Com automação e digitalização, aumentamos a eficiência do porto de Xangai em 30%, e esse conhecimento pode ser aplicado no Brasil.
Ribeiro também salientou a importância do setor ferroviário para a cooperação econômica entre os dois países e disse que o governo quer expandir a participação das ferrovias de 20% para 35% na matriz de transportes do país. Segundo Ribeiro, o ministério apresentou oito projetos na área aos chineses e o governo federal pretende lançar três editais no primeiro semestre:
— Os projetos de ferrovias estão maduros, com estudos técnicos robustos concluídos.
O secretário afirmou que, com o Marco Legal das Ferrovias, hoje há leis, normas e padronizações de contratos que garantem a segurança jurídica dos investimentos no setor. Ele também acenou com a possibilidade de mais garantias do governo. De todo modo, acrescentou que há conversas sendo realizadas com o Tribunal de Contas da União para garantir o êxito dos certames.
Impostos preocupam
A segurança jurídica e o ambiente de negócios é uma preocupação dos chineses. Na opinião de Li Sisheng, o cenário tributário brasileiro poderia ser aperfeiçoado.
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— A maior barreira no Brasil é o ambiente jurídico de impostos, que são muito diversificados — disse.
Na avaliação do executivo, essa é uma das explicações para o fracasso de alguns investimentos de empresas estrangeiras no país.
Li Sisheng lembrou, porém, que a empresa tem projetos de investimento de US$ 4 bilhões no país, nas áreas de rodovias, ferrovias e energia. Atualmente, a empresa participa de consórcios responsáveis por obras da expansão do metrô de São Paulo e da construção de uma usina fotovoltaica no Ceará.
