Brasil abaixo de zero: Lucas Pinheiro e Nicole Silveira são as esperanças do país nos Jogos de Inverno
E os Jogos começaram! São os de inverno, que muita gente enxerga ainda como uma curiosidade neste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, em que 95% das pessoas nunca viram a neve de perto. E ainda por cima vão bater com o carnaval, que já começou em muitas cidades e estará no auge nos dias em que o Brasil pode atingir um feito inédito: conquistar medalhas. Lucas Pinheiro entra como um dos favoritos em duas provas do esqui alpino, a primeira delas no próximo sábado. Nicole Silveira, do skeleton, precisará surpreender para chegar ao pódio na terça-feira e, mesmo se não conseguir, tem tudo para superar o nono lugar de Isabel Clark, o melhor resultado brasileiro, que já completou 20 anos.
Desde a primeira edição, em Chamonix-Mont Blanc 1924, apenas dois países do hemisfério Sul conquistaram medalhas: Austrália (a primeira com um patinador de velocidade que não estava entre os favoritos na final e viu quatro adversários trombarem numa curva para assumir a liderança) e Nova Zelândia. Em ambos, neva com muito mais frequência do que no Brasil e há estações de esqui. Mas ter montanhas nevadas não é o único caminho para o pódio nos Jogos Olímpicos de Inverno. A Coreia do Sul se tornou a maior potência asiática do evento, à frente de Japão e China, com o sucesso de seus atletas na patinação, a principal modalidade de gelo.
O Brasil só chegou a esse universo em 1992, quando enviou sete esquiadores a Albertville, a convite da federação internacional da modalidade. Nas edições seguintes, Lillehammer 1994 e Nagano 1998, as equipes tiveram total de um representante. E a estreia no gelo só veio em Salt Lake City 2022. A equipe de bobsled ganhou da imprensa internacional o apelido de Frozen Banana (Banana Congelada), na esteira do sucesso do filme “Jamaica abaixo de zero”. E talvez o grande mérito da gestão de esportes de inverno no país tenha sido não aceitar esse tratamento folclórico. Hoje, o quarteto brasileiro — com Edson Bindilatti, um pioneiro vindo do atletismo, completando sua sexta participação olímpica — está entre os 15 melhores do mundo, um desempenho que muitos esportes de verão não conseguem atingir.
Desenvolver a prática de modalidades de neve e gelo no Brasil não é, como se pode imaginar olhando em volta, uma tarefa simples. Os campeonatos nacionais de esqui e snowboard são disputados no Chile e na Argentina, onde estão as estações mais próximas. E a principal estratégia para captar atletas continua sendo encontrá-los no exterior. Lucas Pinheiro é filho de brasileira com norueguês, tornou-se um dos grandes nomes do esqui alpino competindo pela Noruega e decidiu adotar sua outra nacionalidade depois de brigar com a federação local. Nicole Silveira nasceu no Rio Grande do Sul e emigrou com a família para o Canadá, onde conheceu primeiro o bobsled, num encontro com a equipe olímpica de seu país natal, e depois migrou para o skeleton, que consiste em se atirar montanha abaixo deitada num trenó.
Ambos levaram a bandeira do Brasil na cerimônia de abertura com orgulho, sorrisos e até dancinhas. São brasileiros como você e eu, mas vivem em outros países, outra realidade, outro clima. Como tantos atletas — no futebol, por exemplo — que vão para longe, mas continuam nos representando. Entre um bloco e outro, vamos torcer por eles?
