247 – O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP), criticou a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promover um ajuste fiscal baseado em cortes de políticas sociais após sua reeleição. A manifestação ocorre em meio às discussões sobre a política econômica do próximo mandato, intensificadas pela reação negativa do mercado financeiro ao resultado das urnas e pelas sinalizações do Ministério da Fazenda sobre medidas para controlar as contas públicas.
Em publicação na rede social X, Boulos afirmou que a vitória de Lula representa também a rejeição ao programa de austeridade defendido pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. “Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição.
O Tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular. O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA.
A agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu!”, escreveu o parlamentar. A declaração ocorre três dias depois da confirmação da reeleição de Lula, que recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O presidente conquistou 64,2 milhões de votos, aproximadamente 4,4 milhões a mais que o adversário. Fazenda prepara medidas fiscais após reação do mercado
O posicionamento de Boulos coincide com as primeiras discussões sobre a condução da economia no quarto mandato de Lula. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após a eleição, a Bolsa brasileira registrou queda de 13,88%, enquanto o dólar apresentou forte valorização.
A turbulência refletiu, entre outros fatores, a preocupação de investidores com a trajetória das contas públicas. Diante desse cenário, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou na terça-feira (27) que o governo estuda medidas para reforçar o cumprimento das metas fiscais.
Segundo a Agência Brasil, uma das possibilidades envolve ampliar a parcela do Orçamento que pode ser contingenciada, mecanismo que permite bloquear temporariamente despesas para adequar a execução orçamentária às metas estabelecidas. “Nosso compromisso é com a responsabilidade fiscal, com a estabilidade fiscal e isso vai ser buscado com diálogo”, declarou Durigan.
O ministro informou que entrou em contato com representantes do setor financeiro após a eleição e que propostas já estão em elaboração, mas dependem de autorização de Lula e de discussões com o Congresso Nacional. As sinalizações da Fazenda, entretanto, não representam uma decisão do presidente de reduzir investimentos sociais.
Até o momento, não foi anunciado um pacote de cortes com esse objetivo. A discussão também expôs diferenças de prioridade dentro do governo.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), afirmou na terça-feira que um pacote de ajuste fiscal não está entre as prioridades imediatas do Executivo. “Esse assunto não foi discutido, e nem está sendo discutido, e muito menos aqui na bancada”, declarou Guimarães.
Segundo o ministro, o governo pretende concentrar esforços na aprovação da PEC da Segurança Pública, da medida provisória que trata do fim das apostas online e da proposta de tarifa zero no transporte público. “Tesouraço” de Flávio previa cortes de até R$ 200 bilhões
A referência de Boulos ao “Tesouraço” remete à proposta econômica que marcou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Integrantes da equipe do senador discutiram um ajuste que poderia alcançar entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões anuais em despesas públicas, com medidas previstas a partir de 2027.
Durante a disputa eleitoral, a possibilidade de mudanças nas regras de reajuste de benefícios previdenciários e sociais provocou críticas da campanha de Lula. Flávio, por sua vez, negou que pretendesse prejudicar os beneficiários e assumiu compromissos de preservação dos programas sociais.
A viabilidade do plano também foi questionada por especialistas. Em estudo publicado em 23 de outubro, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) concluíram que mesmo um cenário de forte restrição das despesas primárias não seria suficiente para atingir a economia de R$ 200 bilhões anunciada pela equipe do candidato do PL.
Na simulação mais rigorosa, classificada como draconiana, os pesquisadores identificaram uma economia potencial de R$ 97,7 bilhões, ainda distante do valor pretendido. O estudo ressaltou que tanto a candidatura de Flávio quanto a de Lula apresentavam limitações no detalhamento de suas propostas para enfrentar os desafios fiscais do país.
Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição. O Tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular.
O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA. A agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu!— Guilherme Boulos (@GuilhermeBoulos) October 29, 2026
Brasil 247