Botox terapêutico garante mais autonomia a pacientes no Hospital Bettina Ferro, em Belém

 

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O uso da toxina botulínica como recurso terapêutico tem contribuído para melhorar a qualidade de vida de pacientes com distúrbios motores atendidos no Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS), em Belém. A avaliação é do médico ortopedista Amaury Francês, que atua na unidade e acompanha casos de reabilitação funcional. Segundo o especialista, o chamado “botox terapêutico” (toxina botulínica) tem a finalidade de melhorar distúrbios de movimentos de pacientes que têm alterações musculares.


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Essas alterações musculares podem ter diferentes origens, como sequelas de paralisia cerebral, sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) de outras causas, como meningites, afogamentos, traumatismos cranioencefálicos, ou doenças de cunho genético, que podem evoluir para esses distúrbios funcionais. “A intenção do tratamento com a toxina botulínica é melhorar a função do paciente. E, às vezes, com a sequência do tratamento, conseguimos dar independência para esses pacientes, e, em determinado período da vida, eles podem não precisar mais da toxina botulínica”, explicou o médico.


De acordo com Amaury Francês, os resultados podem ser significativos. Ele cita como exemplo pacientes que antes não conseguiam andar ou dependiam de muletas e andadores e que, após o uso da toxina associado à reabilitação, passaram a ter independência de marcha, sem necessidade de acessórios ou ajuda de terceiros. “Isso acontece muito aqui no hospital”, disse.


O atendimento no hospital envolve uma equipe multidisciplinar que, em conjunto, acompanha cerca de 600 pacientes por mês. Para ter acesso ao serviço, o paciente deve estar cadastrado na unidade. Esse cadastro é feito via Unidade Básica de Saúde - isso se o paciente não for do Hospital Bettina Ferro. Se for do hospital, ele já tem um cadastro e pode pedir um encaminhamento interno. “Se ele não tem cadastro no hospital, ele pode ir em um posto de referência da unidade básica para referenciar para o hospital para poder chegar no hospital Bettina”, explicou.


A aplicação do "botox terapêutico” (toxina botulínica) melhora distúrbios de movimentos de pacientes que têm alterações musculares (Foto: Carmem Helena | O Liberal)


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O médico ortopedista Amaury Francês orientou que, diante de qualquer suspeita de alteração no desenvolvimento motor, as famílias procurem inicialmente um médico da atenção básica. “Esse médico vai ter a propriedade técnica de identificar o que é normal e o que pode ser uma doença. Se ele precisar de uma ajuda especializada, ele encaminha para o ortopedista”, afirmou. Entre os casos acompanhados, o ortopedista destacou o de uma paciente, Rafaely Ferreira e Silva, que é atendida desde o primeiro ano de vida e atualmente tem 19 anos.


“Nós demos independência para ela. Mas como demos independência se ela está de cadeira de rodas? Ela é universitária, escreve, fala no celular, se comunica com os outros. Ela melhorou a postura na cadeira de rodas. Nós prevenimos doenças no quadril, coluna e ombros”, contou. “Ela não tem escaras e não tem nenhum déficit de pele, porque ela faz reabilitação, aplica toxina para ter mobilidade dos membros e uma melhor postura na cadeira”, disse. A aplicação da toxina botulínica, segundo o especialista, é realizada em intervalos médios de três a quatro meses, dependendo do caso e da doença.


Médico Amaury Francês: "E, às vezes, com a sequência do tratamento, conseguimos dar independência para esses pacientes, e, em determinado período da vida, eles podem não precisar mais da toxina botulínica" (Foto: Carmem Helena | O Liberal)


Adolescente faz tratamento desde os 3 anos de idade


A aplicação terapêutica da toxina botulínica tem impactado diretamente a rotina de famílias atendidas no Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS), como relata a Sonaira de Nazaré Costa da Silva, de 41 anos, que trabalha como apoio pedagógico e é mãe de Eliezer, de 13 anos. O adolescente é acompanhado pela unidade desde os 3 anos de idade, somando cerca de uma década de atendimento. Segundo a mãe, o tratamento com a toxina botulínica começou há aproximadamente cinco anos, como alternativa para melhorar a condição motora do filho.


“Eliezer anda na ponta dos pés. O tendão dele encurtou. Então ele precisa dessas aplicações para que o músculo volte a flexibilizar e ele não sinta tanta dor”, explica Sonaira. De acordo com ela, a possibilidade de cirurgia chegou a ser considerada, mas acabou descartada. “O doutor falou que eu poderia fazer a cirurgia, mas, como ele é autista, e automaticamente vem da cabeça dele, ele poderia voltar a andar da mesma forma, na ponta dos pés”, relata.


O tratamento segue um protocolo contínuo. As aplicações são realizadas a cada quatro meses. Após dois meses, o paciente retorna ao hospital para avaliação médica, quando são observados os efeitos da medicação, como ganho de flexibilidade no tendão. Paralelamente, o acompanhamento inclui sessões de fisioterapia.


A mãe afirma que houve melhora significativa desde o início do tratamento. “Ele melhorou bastante. Teve um certo tempo em que ele já não conseguia mais abaixar o pé, o tendão já tinha enrijecido. Com as aplicações, ele voltou a tocar no chão”, conta. Apesar do avanço, ela ressalta que o comportamento de andar na ponta dos pés ainda persiste, exigindo atenção constante.


A rotina de tratamento, no entanto, envolve desafios logísticos. A família mora no município de Magalhães Barata, no nordeste paraense, e precisa se deslocar até Belém para as consultas. “A gente vem no carro do TFD (Tratamento Fora do Domicílio), sai às 3 horas da manhã e chega aqui às 7 horas para fazer esses atendimentos com ele”, relata. Segundo Sonaira, não há permanência na capital após os atendimentos. “Normalmente, a gente volta no mesmo dia”, diz.


"Com o botox, ela tem equilíbrio”, diz dona de casa


A dona de casa Miranilda Costa, de 42 anos, relata a trajetória de tratamento da filha, Rafaely Ferreira e Silva, de 19 anos, que faz uso da toxina botulínica há 18 anos, desde o primeiro ano de vida. Segundo a mãe, o tratamento foi iniciado após um episódio grave de saúde ainda na infância. “Ela teve uma febre de 42 graus com 10 meses. E paralisou a coordenação motora. Ela ficou tipo uma criança vegetativa, jogada, mole”, disse. “E, com o botox, ela tem equilíbrio e anda comigo a levando. A aplicação estimula para não atrofiar”, contou.


O procedimento é realizado, em média, a cada três a quatro meses. A melhora também é percebida após cada aplicação. “Melhora o músculo dela, relaxa bem”, relata Miranilda, destacando a importância da continuidade do acompanhamento. Segundo ela, o início do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foi rápido. “Na época, foi tudo muito ágil. Dei entrada no posto perto de casa e rapidinho encaminharam para cá. Ela começou a fazer terapias e tudo por aqui”, lembra.


A aplicação ocorre em diferentes partes do corpo, como coxas, pernas e mãos, com pequenas quantidades da substância em cada ponto. “Cada agulhada é um pouco. Dói mais do que uma injeção comum, porque a agulha entra no músculo e o médico precisa mexer para achar o local certo e espalhar”, contou.


Apesar do desconforto, Rafaely afirma que hoje consegue lidar melhor com o procedimento. Segundo a mãe, quando era criança, as reações eram mais intensas. “Antigamente ela gritava muito, hoje já tem mais controle e consegue ficar mais calma”, diz Miranilda. “Desde bebê ela é cuidada pelo doutor Amaury”, lembrou a mãe.


Para que serve o botox terapêutico - finalidade


Melhorar distúrbios de movimento causados por alterações musculares


Tratar sequelas de condições como paralisia cerebral, AVC, meningite, afogamento e traumatismo cranioencefálico


Auxiliar em doenças de origem genética que afetam a função motora


Reduzir a rigidez muscular e aumentar a flexibilidade


Melhorar a função motora e a mobilidade do paciente


Proporcionar maior independência (andar sem auxílio, realizar atividades diárias)


Corrigir postura, inclusive em pacientes cadeirantes


Prevenir complicações como deformidades, problemas no quadril, coluna e ombros


Evitar o surgimento de escaras (lesões de pele por pressão)


Reduzir dores associadas à contração muscular


Em alguns casos, possibilitar a suspensão futura do tratamento


Como ter acesso ao tratamento


Procurar uma Unidade Básica de Saúde (posto de saúde)


Ser avaliado por um médico da atenção básica


Caso necessário, receber encaminhamento para um especialista (como ortopedista)


Ser referenciado para o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS)


Realizar cadastro no hospital (caso ainda não tenha)


Pacientes já cadastrados podem solicitar encaminhamento interno


Após entrada no serviço, passar por avaliação da equipe multidisciplinar


Iniciar o tratamento conforme indicação médica


Manter acompanhamento contínuo com consultas e reavaliações periódicas


Realizar aplicações em intervalos médios de 3 a 4 meses, conforme o caso