Em 1961, a Guerra Fria vivia o seu auge. Em abril, a invasão americana da Baía dos Porcos, em Cuba, para pôr fim ao recém-nascido regime comunista, fracassou.
No mesmo mês, o soviético Yuri Gagarin se tornou o primeiro humano na órbita terrestre. Em agosto, começava a construção do Muro de Berlim.
Mas Moscou queria dar a prova definitiva de que era uma superpotência: explodir uma bomba nuclear que faria com que o ataque a Hiroshima no fim da Segunda Guerra Mundial parecesse um fato trivial. Há exatos 65 anos, isso aconteceu.
Na manhã de 30 de outubro, a União Soviética explodiu a Bomba do Czar, um artefato 3.300 vezes mais poderosa que o que caíra sobre a cidade japonesa em 1945. A bomba era tão grande e pesada que não havia um avião adequado para levá-la.
Tinha 8 metros de comprimento, um diâmetro de quase 2,6 metros e pesava mais de 27 toneladas. Moscou resolveu o impasse adaptando um bombardeiro Tupolev Tu-95.
Todos os envolvidos na operação sabiam que havia o risco de serem desintegrados com o mais simples erro de cálculo. A engenhoca criada pelo físico Andrei Sakharov foi projetada como uma bomba de fusão de hidrogênio com três estágios: fissão-fusão-fissão.
Contava com um iniciador de fissão que, ao ser detonado, dava início a uma reação de fusão. Uma detonação subsequente de fissão no manto de urânio aumentava o rendimento da bomba, um processo capaz de liberar uma potência total de 50 megatons.
A potência inicialmente imaginada seria o dobro, mas, para evitar uma catástrofe global e uma quantidade absurda de poeira radioativa, os cientistas substituíram o urânio-238 do revestimento mais externo por chumbo. A Bomba do Czar: o maior artefato já detonado na Terra
AFP Às 11h30, a Bomba do Czar foi lançada do Tupolev adaptado.
Ela desceu de paraquedas para dar tempo de o avião se distanciar da explosão sem precedente. A detonação ocorreu três minutos depois, quando o monstro explosivo estava a 4 mil metros de altitude e o avião já havia conseguido se afastar cerca de 80 quilômetros do local da explosão, sobre o arquipélago de Nova Zembla, no Ártico.
Foi a maior explosão que a Terra já viu, superando em 3,3 vezes a maior detonação já realizada pelos EUA: os 15 megatons da bomba de hidrogênio Castle Bravo, detonada no Atol de Bikini, no Pacífico, em 1954. Abaixo e ao redor da detonação, a temperatura subiu imediatamente milhões de graus.
A pressão sob a explosão foi de 211 mil megatoneladas por metro quadrado — mais de dez mil vezes a pressão encontrada no pneu de um automóvel. A energia luminosa liberada foi tão intensa que pôde ser observada a mil quilômetros de distância, mesmo com o céu nublado.
A onda de choque foi potente o suficiente para quebrar vidros grossos a mais de 900 quilômetros de distância, como registrado na Noruega e na Finlândia. A nuvem em formato de cogumelo, gerada pela explosão, elevou-se a uma altitude de 64 quilômetros antes de se estabilizar.
Detonação de bomba atômica no Atol de Bikini pelos EUA em 1º de março de 1954 Reprodução/US Department of Energy
Um cinegrafista soviético que estava a bordo do Tupolev pintou um cenário apocalítico: "As nuvens abaixo da aeronave e ao longe foram iluminadas pelo poderoso flash.
O mar de luz se espalhou sob a escotilha e até as nuvens começaram a brilhar e se tornaram transparentes. Naquele momento, nossa aeronave emergiu entre duas camadas de nuvens e, lá embaixo, no vão, uma enorme bola laranja brilhante estava surgindo.
A bola era poderosa e arrogante como Júpiter. Lenta e silenciosamente ela subiu.
Tendo rompido a espessa camada de nuvens, ela continuou crescendo. Parecia sugar a Terra inteira para dentro dela.
O espetáculo era fantástico, irreal, sobrenatural." Os soviéticos celebraram: o lançamento de uma nova Bomba do Czar seria capaz de destruir ao mesmo tempo Nova York e várias cidades ao redor dela.
A onda de choque da detonação do Ártico deu três voltas completas ao redor do planeta antes de se dissipar totalmente. E o temor de uma guerra nuclear nunca mais se dissiparia.
A Bomba do Czar foi o último expoente de uma corrida armamentista que visava construir armas nucleares cada vez maiores e mais destrutivas. Após a sua explosão, uma nova etapa da Guerra Fria estaria aberta, com outro conceito tático: a produção em série de foguetes com ogivas atômicas, muito menores e muito mais precisos.
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