Bolsonaro criou herdeiros nas redes, Lula não. Janones quer mudar isso

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Fonte da notícia: Metropoles Metropoles

Foi o que Jair Bolsonaro fez desde 2017. No bolsonarismo, quem tem audiência empresta, quem recebe cresce e passa a apadrinhar o próximo.

Lula sempre falou sozinho, e os aliados que hoje têm força nas redes chegaram lá praticamente por conta própria. O ranking dos cem políticos mais influentes do Instagram no primeiro semestre, feito pela Zeeng com 546 mil publicações de 3,1 mil perfis, mostra a distância.

A direita e a centro-direita ocupam 76 posições, e a esquerda e a centro-esquerda, 16. Sem contar quem cresceu sem padrinho, como Cleitinho e Pablo Marçal de um lado e Erika Hilton e Janones do outro, ficam 74 perfis na direita e 13 na esquerda.

Em engajamento médio por post, a rede de aliados da direita é cerca de 15 vezes maior, e só Nikolas Ferreira engaja quase o dobro de toda a esquerda. Entre os vinte primeiros, há três progressistas, e nenhum foi lançado por Lula.

Erika Hilton, em quarto, fez nome enfrentando a direita nas redes e saltou de 256 mil para 1,6 milhão de votos, recorde para uma mulher na Câmara. Janones ficou conhecido no Facebook como porta-voz da greve dos caminhoneiros de 2018, antes de se aproximar do PT.

Lula aparece em 11º, e o aliado seguinte é o deputado estadual paranaense Renato Freitas, está em 25º, com metade do engajamento do presidente. Padilha é o 47º, Boulos o 49º e Haddad o 71º.

Oito bolsonaristas engajam mais que o presidente da República, e Jair Bolsonaro nem entrou na lista, porque passou meses sem postar, respeitando a sentença que cumpre. A engrenagem da direita começou em 2017, na pré-campanha que levou Bolsonaro ao Planalto, e ganhou escala no governo, com as lives semanais servindo de vitrine para auxiliares.

Até fevereiro de 2021, segundo o Metrópoles, Tarcísio de Freitas apareceu 11 vezes ao lado do presidente e Jorge Seif, 21, e uma dissertação da PUCRS registra que Nikolas e Damares Alves também foram apresentados ali. Tarcísio acaba de ser reeleito governador de São Paulo, e Nikolas é hoje o político mais influente do Brasil no Instagram.

A partir daí a rede passou a se reproduzir sozinha. O vídeo de Nikolas sobre o Pix, com mais de 300 milhões de visualizações, foi coordenado pelo marqueteiro do ex-presidente, e Nikolas depois apadrinhou o vereador paulistano Lucas Pavanato.

No dia 4, os dois se tornaram os deputados federais mais votados da história, com 3,1 milhões e 3 milhões de votos. Lula seguiu o caminho oposto.

Avesso ao celular, deixou as redes com a equipe e não usou a própria audiência para lançar ninguém. O Conversa com o Presidente, criado em 2023 à imagem das lives do antecessor, reuniu 117,5 mil espectadores ao vivo em 20 edições, enquanto uma única live de Bolsonaro chegava perto de 1 milhão de visualizações, e saiu do ar em dezembro daquele ano.

O Exército do Lula, criado por Janones em abril, passou meses fora da estratégia oficial. O custo apareceu no primeiro turno.

Na disputa presidencial, Lula tem quarenta anos de estrada e um eleitorado mais velho, mais pobre e menos exposto ao Instagram político. Para deputado, senador e governador, quem tem rede própria leva voto no estado inteiro.

O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada desde 1988, 19 dos 54 senadores e cinco governadores no primeiro turno. O PT ficou com 70 deputados, e fora Erika Hilton e Sâmia Bomfim a esquerda quase não teve puxadores de voto.

As redes anteciparam o Congresso e erraram o Planalto porque, sem Lula na cédula, ninguém ocupa o lugar dele. A rede vem primeiro, o discurso depois.

Para essa segunda etapa, Janones tem duas regras. A primeira é não responder a post de adversário, porque o algoritmo trata qualquer comentário como sinal de relevância e amplia o alcance do conteúdo.

“A orientação é a mesma, não defendam”, repetiu na reta final. A segunda é falar uma língua só, vantagem da direita que o próprio Boulos reconheceu ao lançar a rede Porta-Vozes do Lula.

“Eles têm uma orientação de unidade narrativa”, disse o ministro. Na primeira semana após a vitória, a esquerda descumpriu as duas.

Com a bolsa acionando o circuit breaker no dia 26, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, disse que a responsabilidade fiscal de Lula logo acalmaria o mercado. No dia seguinte, o ministro José Guimarães afirmou que um pacote de ajuste “não foi discutido, e nem está sendo discutido”.

Bruno Moretti, do Planejamento, já tinha dito que o governo fez um ajuste de quase 2% do PIB, e Haddad admitiu que havia no PT quem fosse contra arrumar as contas. No dia em que completou 81 anos, Lula pregou a pacificação e, na mesma fala, chamou de vergonhosa a fuga de Flávio, embora Janones tenha passado a campanha dizendo que expor escândalo do adversário não muda voto.

A oportunidade está do outro lado. Na madrugada do dia 26, horas antes de Alexandre de Moraes mandar recolher seus passaportes, Flávio deixou o país com a mulher e as filhas.

Rogério Marinho, coordenador da campanha, garantiu que ele seguia no Brasil, enquanto Michelle Bolsonaro confirmava a aliados a saída. O deputado Mauricio Marcon comparou a viagem ao exílio de María Corina Machado, e aliados moderados passaram a dizer que o barco ficou sem capitão.

Com Jair preso e Eduardo e Flávio nos Estados Unidos, a direita perdeu ao mesmo tempo o candidato e o discurso, coisa que não acontecia desde 2018. Janones diz que Lula não precisa aprender a usar as redes, e sim continuar sendo o maior líder popular do país e emprestar o palco a quem sabe usá-las.

Isso significa gravar e fazer lives com o maior número possível de aliados, de Ana Elisa e Pedro Rousseff a Guilherme Cortez, e dar a eles a vitrine que Tarcísio, Seif e Nikolas tiveram de Bolsonaro. Um canal que explodiu em três semanas se desorganiza e se perde com facilidade quando ninguém o sustenta, mas, organizado em torno de aliados com audiência própria, leva a comunicação da esquerda a cada cidade sem depender do presidente.

Lula tem quatro anos e um adversário desorganizado. Se repetir o terceiro mandato, a esquerda chega a 2030 sem rede e sem ninguém para pôr na cédula.

Publicação Original Metropoles metropoles.com
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