Bolsas da América Latina viram refúgio em meio à turbulência global

 

Fonte:


Ativos latino-americanos surgiram como um refúgio para investidores de mercados emergentes que tentam navegar um cenário global cada vez mais volátil, impulsionados por um grupo de exportadores de petróleo e maior isolamento em relação às tensões no Oriente Médio.

Dólar vai cair mais? Moeda encosta em R$ 5 e analistas veem espaço para R$ 4,80

197 mil pontos: Bolsa brasileira não para de renovar máximas; entenda o que leva ao movimento

Moedas da região, do real brasileiro ao peso argentino, estão entre as poucas em mercados emergentes que se valorizaram frente ao dólar desde o início da guerra no Irã. Títulos em dólar de países ricos em petróleo, como Equador e Colômbia, estão entre os de melhor desempenho no período, assim como a dívida em moeda local da Colômbia.

O fracasso de Estados Unidos e Irã em fechar um acordo de paz no fim de semana deve pesar sobre o sentimento do mercado e elevar a demanda por ativos de refúgio nesta segunda-feira. Com pouca visibilidade sobre se o cessar-fogo firmado na semana passada vai se sustentar, traders têm apostado que posições na América Latina resistirão sob diferentes cenários.

— Nossas apostas de maior convicção têm se concentrado na América Latina — disse Anthony Kettle, gestor sênior de portfólio de mercados emergentes na RBC BlueBay, em Londres, citando Argentina e Colômbia como exemplos. — Focar em soberanos e empresas que se beneficiam, ou pelo menos são mais resilientes, a preços mais altos de energia continua sendo um de nossos temas preferidos.

Digimais: banco de Edir Macedo deve receber aporte do FGC antes de negócio com BTG

A visão é compartilhada por Jack McIntyre, que ajuda a supervisionar US$ 44 bilhões (cerca de R$ 220 bi) em ativos globais de renda fixa na Brandywine Global Investment Management. Ele tem mantido uma posição overweight em ativos de mercados emergentes, principalmente via América Latina.

— Essa região vai se beneficiar da diversificação das fontes de energia por economias asiáticas, além de um renovado interesse dos Estados Unidos — disse McIntyre, que tem favorecido títulos em moeda local.

Initial plugin text

O alinhamento político de alguns líderes com o governo Donald Trump tem influenciado a forma como gestores de portfólio de mercados emergentes abordam a região, com uma postura mais ativa dos EUA — a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, e a campanha de pressão sobre Cuba — sendo esperada para ter implicações nos mercados de crédito.

Além disso, a América Latina apresenta algumas das maiores taxas de juros reais do mundo, tornando-se um destino atraente para operações de carry trade, nas quais investidores tomam empréstimos em uma moeda com juros baixos e investem em outra com juros mais altos.

Juros altos, bets e vários cartões de crédito: brasileiros contam como as dívidas não param de crescer

O BlackRock Investment Institute tem uma visão positiva sobre títulos de mercados emergentes em moeda forte, observando que um índice-chave “é inclinado para exportadores latino-americanos de commodities e energia”. A instituição também vê com bons olhos ações latino-americanas ligadas a temas como o aumento da demanda por minerais críticos impulsionado pela inteligência artificial, escreveram estrategistas, incluindo Wei Li, em relatório.

Commodities

As ações também têm superado seus pares em mercados emergentes. Um índice MSCI de ações latino-americanas acumula alta de cerca de 3% desde o início da guerra, contrariando perdas de cerca de 4% no indicador amplo de ações de países em desenvolvimento.

— Os fluxos para dívida ficaram negativos em US$ 2,2 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões), mas as ações ainda atraíram US$ 1,4 bilhão (ou R$ 7 bi), sugerindo que o suporte das commodities e o apelo relativo de carry continuaram a sustentar a região —segundo Jonathan Fortun, economista sênior do Institute of International Finance.

As saídas da América Latina representaram menos de US$ 1 bilhão de um total de US$ 70 bilhões retirados de ativos de mercados emergentes em março, de acordo com dados da organização.

João Accioly: Banco Central tenta 'ficar melhor na foto’, diz presidente interino da CVM sobre regulação de fundos de investimento

Ainda assim, permanecem vulnerabilidades. As altas taxas de juros no Brasil continuam a corroer os balanços corporativos, levando cada vez mais empresas a situações de estresse financeiro. Investidores enfrentam eleições presidenciais imprevisíveis, com resultados binários, em vários países. A Colômbia teve recentemente sua nota de crédito rebaixada devido a preocupações fiscais, enquanto o Chile, importador de energia, viu sua moeda e seus títulos ficarem para trás.

— Há vencedores e perdedores na região — disse Katrina Butt, gestora de portfólio de dívida de mercados emergentes na AllianceBernstein.

— Os preços do petróleo provavelmente permanecerão elevados mesmo com a manutenção do cessar-fogo, então os exportadores de petróleo são os maiores vencedores — disse Katrina, que prefere dívida soberana de países como Colômbia, Argentina e Panamá.

No início deste mês, o Fundo Monetário Internacional alertou que os mercados emergentes se tornaram mais vulneráveis a mudanças no sentimento global de risco devido à maior exposição a financiamentos provenientes de instituições não bancárias, como fundos de pensão e hedge funds.

No curto prazo, o desmonte de posições de hedge provocou fortes altas na classe de ativos, mas Kettle, da RBC BlueBay, permanece cauteloso em assumir posições de longo prazo até que haja evidências mais claras de que o cessar-fogo vai se sustentar e levar a uma desescalada mais ampla.

— Uma das principais conclusões das últimas semanas de desempenho é que choques geopolíticos criam uma dispersão real dentro dos mercados emergentes — disse Kettle.

Initial plugin text