Bolsa de couro de avestruz e doação para Neymar: Vida de luxo de Deolane servia para dissimular origem do dinheiro, diz polícia

Bolsa de couro de avestruz e doação para Neymar: Vida de luxo de Deolane servia para dissimular origem do dinheiro, diz polícia

 

Fonte: Bandeira



Viagens à Grécia. Aeronaves. Carros de milhões. Bolsa com couro de avestruz. Doação para o Instituto Neymar Júnior. A vida de luxo ostentada nas redes sociais pela influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra seria uma forma de dissimular a origem do dinheiro que circulava pelas contas da influenciadora, segundo relatório da Polícia Civil de São Paulo.

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O documento faz referência a postagens nas redes sociais da influenciadora em que ela aparece com artigos de luxos, em viagens e eventos filantrópicos. Em uma delas, de 11 de junho do ano passado, Deolane está em um evento do jogador Neymar Júnior, do Santos Futebol Clube, ocasião em que realizou uma doação de R$ 200 mil para o instituto do jogador, dedicado às causas sociais.

Segundo relatório da Polícia Civil, a ostentação de gastos vultosos nas redes sociais servia para criar uma imagem de sucesso profissional e influência digital. Isso ajudaria a justificar a movimentação de milhões de reais e conferir uma aparência de licitude a recursos que, na verdade, não possuem origem comprovada.

“O conjunto das informações analisadas permite concluir que houve uma evolução atípica no fluxo financeiro da investigada Deolane e de suas empresas, sem lastro contábil ou operacional proporcional, indicando a possível existência de um modus operandi voltado à ocultação, integração e dissimulação de patrimônio. Nesse contexto, torna-se inegável que Deolane, pessoa pública e de destaque nas redes sociais, reverbera a imagem de profissional de sucesso e evidente ostentação financeira o que, em tese, justificaria a movimentação de vultosos valores, criando um fértil cenário para a dissimulação da real origem dos recursos movimentados em seu nome”.

Deolane foi presa na quinta-feira (21) por suspeita de lavar dinheiro para o PCC durante a deflagração da operação Vérnix. Segundo a Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público de São Paulo, a projeção pública e a estrutura empresarial de Deolane funcionariam como “camadas de aparente legalidade” para ocultar recursos ilícitos.

Segundo o inquérito, entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento financeiro. Além disso, cerca de 50 depósitos em empresas ligadas à influenciadora somaram aproximadamente R$ 716 mil. Os investigadores afirmam não ter encontrado contratos ou prestação de serviços advocatícios que justificassem os valores.

A advogada e influenciadora digital teve R$ 27 milhões bloqueados por determinação da Justiça.

A defesa de Deolane afirmou em nota que considera “desproporcionais” as medidas adotadas pela Justiça. Advogados disseram reiterar “a mais absoluta inocência” da sua cliente, presa preventivamente, e afirmaram que os fatos serão esclarecidos “em momento oportuno”.

Os defensores também pontuaram que seguirão “cooperando tecnicamente com a Justiça” para demonstrar a licitude das atividades exercidas pela influenciadora “na condição de advogada”, e pontuaram que confiam “no discernimento, na razoabilidade e na imparcialidade do Poder Judiciário”.

Ligação com PCC

A prisão da influenciadora expôs, segundo o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil, uma sofisticada engrenagem de lavagem de dinheiro ligada ao núcleo familiar de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. A operação revelou como uma transportadora do interior paulista teria sido usada para movimentar recursos do tráfico e inseri-los no sistema financeiro formal por meio de empresas, depósitos fracionados e contas de terceiros.

A Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva: contra Deolane; Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola; o irmão dele, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior; os sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho; além de Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo. Marcola e Alejandro já estão presos em penitenciárias federais. Deolane e Everton foram detidos ontem, enquanto Paloma e Leonardo são considerados foragidos. Segundo as investigações, ela está na Espanha e ele, na Bolívia. Ambos tiveram os nomes incluídos na Lista de Difusão Vermelha da Interpol.

As investigações começaram em 2019, após a apreensão de bilhetes manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista. O material continha ordens internas da facção, referências a movimentações financeiras e menções a ataques contra servidores públicos. A partir daí, os investigadores chegaram à empresa Lopes Lemos Transportes, conhecida como Lado a Lado Transportes.

Segundo o Ministério Público, a transportadora funcionava como braço financeiro da cúpula do PCC. Em três anos, movimentou mais de R$ 20 milhões e apresentou incompatibilidade de R$ 6,9 milhões entre receitas declaradas e movimentações bancárias, indício considerado típico de lavagem de dinheiro.

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