Bolívia x Iraque e Jamaica x Congo: além do futebol, o que está em jogo na disputa de vagas da repescagem mundial
Mais dois países vão assegurar suas vagas na Copa do Mundo de 2026, a partir de junho, pela repescagem internacional, nesta semana. Jamaica e República Democrática do Congo disputam um lugar no Grupo K, ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão, nesta terça-feira, às 18h, em Guadalajara. Bolívia e Iraque brigam para ocupar o último lugar no Grupo I, que conta com França, Senegal e Noruega, na madrugada desta quarta-feira, a partir da meia-noite, em Monterrey. Cada país entrará em campo no México com o desejo de estar presente no Mundial e contar sua história ao mundo.
Pela união do país
Favorito, o Iraque enfrenta a Bolívia, que eliminou o Suriname na semifinal. Retornar ao México, onde disputou a sua única Copa do Mundo em 1986, representa um sonho coletivo de um país que pode se reconstruir emocionalmente pelo futebol.
Há 40 anos, a seleção conseguiu a classificação durante a Guerra Irã-Iraque, que só terminou em 1988. Comandado pelo brasileiro Evaristo de Macedo, o time não fez um ponto sequer (perdeu para México, Paraguai e Bélgica), mas aquele momento uniu o país e foi histórico pelo contexto da época. Até hoje, Ahmed Radhi, autor do único gol iraquiano em Mundiais, é um dos maiores ídolos do futebol iraquiano.
Hoje, o contexto não é tão diferente. Nas últimas quatro décadas, o país sofreu invasões, conflitos internos e se vê dividido. O futebol continua sendo o motor de uma união às vezes impossível fora das quatro linhas.
— Para os torcedores do Iraque, uma espera de 40 anos, atravessando a conturbada história moderna do país, para voltar à Copa do Mundo pode acabar no último jogo de uma épica campanha de 21 partidas nas Eliminatórias. Se algum país estiver desesperado para se classificar, é este. São 45 milhões de pessoas vivendo no Iraque, e provavelmente mais 10 milhões vivendo fora do país pela guerra. Então há muita emoção envolvida — disse o técnico Graham Arnold após o sorteio da repescagem.
Dos dois postulantes à vaga no Grupo I, a Bolívia é a mais experiente em Copas. Mas isso faz parte de um passado distante em que o futebol se configurava de outra forma. A seleção boliviana esteve presente nos dois primeiros Mundiais na América do Sul (1930 e 1950) como convidada. A última participação foi na Copa de 1994, nos Estados Unidos..
Três décadas depois, os bolivianos tentam voltar aos gramados dos Estados Unidos como sinal de força de um país que sempre esteve em desvantagem em relação aos seus vizinhos sul-americanos econômica e estruturalmente.
O ponto forte boliviano não poderá ser transportado para o confronto desta terça-feira. Acostumada com os benefícios de jogar na altitude de La Paz e localidades vizinhas 3.500 metros acima do nível do mar (foi assim que venceu o Brasil pelas Eliminatórias e confirmou a vaga na repescagem), a Bolívia vai jogar ao nível do mar (Monterrey está acima apenas 540 metros). Mas os bolivianos querem provar que não dependem apenas do ar rarefeito.
ReggaeBoyz x Congo
Os ReggaeBoyz despontam como favoritos, apesar de terem perdido a chance da vaga direta no jogo contra Curaçao pelas eliminatórias da Concacaf. Mas confiam na chance de apresentar novamente seu futebol em um Mundial — a única participação foi em 1998 sob o comando do técnico brasileiro René Simões.
A terceira maior ilha do Caribe conta com os filhos da diáspora ao trazer jogadores nascidos na Inglaterra (foi colônia inglesa até o início dos anos 1960 e ainda mantém laços com a Commonwealth) para a solucionar a crise de identidade da seleção.
— O futebol decepcionou bastante nos últimos anos, não só nas Eliminatórias, com a vaga escapando para Curaçao. O sonho é contar com Mason Greenwood, do Olympique de Marselha, jogador com histórico de acusações de violência doméstica, mas com dupla cidadania e um talento futebolístico bem maior do que a média da seleção jamaicana — explica Carlos Massari, criador da página Copa Além da Copa.
Os jamaicanos superaram os azarões da Nova Caledônia, o pequeno território ultramarino da França localizado na Oceania com apenas 300 mil habitantes, na semifinal da repescagem. Agora, enfrentam a República Democrática do Congo, que busca sonha com sua segunda participação em Copa do Mundo.
Assolado por uma crise humanitária (insegurança alimentar, conflitos armados, surtos de doenças e falta de infraestrutura básica) que perdura décadas e afeta mais da metade da população, o país encontra no futebol a resistência necessária para seguir em frente.
No início do ano, ganhou o mundo a cena do torcedor fantasiado de Patrice Lumumba nas arquibancadas da Copa Africana das Nações no Marrocos. Líder revolucionário, Lumumba esteve à frente da luta pela independência nos anos 1960, e se tornou primeiro-ministro do país. Logo depois, ele foi morto durante o golpe militar.
Nos jogos da RD Congo, Kuka Muladinga aparece vestido com um terno nas cores da bandeira do país e se mantém imóvel durante os 90 minutos, com um braço erguido, recriando a pose icônica do líder. Na eliminação para a Argélia, nas oitavas de final, ele foi carregado nos braços da torcida. “É um poderoso símbolo da independência congolesa e do orgulho nacional”, diz a narração de um vídeo publicado pelo perfil oficial da Confederação Africana de Futebol.
— Ir à Copa do Mundo para a RD do Congo é a possibilidade de gritar para o mundo sobre a sua luta, a gravidade de sua situação humanitária, mas mostrar também que o país tem muito além disso. E também apagar a péssima impressão deixada pela participação na Copa de 1974, ainda como Zaire, quando o ditador Mobutu Sese Seko ameaçou matar todo o elenco na volta ao país — relembra Massari.
