'Bolha assassina’: entenda o fenômeno que aquece o mar na Califórnia e provoca morte de corvos e pelicanos

 

Fonte:


Uma intensa onda de calor marinha no Oceano Pacífico vem elevando a temperatura das águas ao longo da costa oeste dos Estados Unidos e já provoca impactos ambientais na Califórnia. Segundo pesquisadores, o fenômeno fez o oceano registrar temperaturas até 7 graus acima da média histórica entre o estado de Washington e a península da Baja California, no México, com recordes sucessivos desde o início do ano.

Cientistas registram pela primeira vez abertura de placa tectônica na costa do Canadá; entenda

'Portão do Inferno' está se fechando, e isso pode não ser uma boa notícia

O ponto mais crítico foi identificado entre a região da Baía de San Francisco e San Diego. Pesquisadores da Instituição Scripps de Oceanografia, ligada à Universidade da Califórnia em San Diego, contabilizaram 38 dias de temperaturas recordes na superfície do mar desde janeiro na área do píer de La Jolla. Em 20 de março, a água atingiu cerca de 21,6°C, marca considerada incomum para o período e normalmente observada apenas em agosto. As informações são do “The Mercury News”.

— É extremo. Já tivemos ondas de calor marinhas antes, mas este é um evento recorde em duração e intensidade — afirmou Melissa Carter, oceanógrafa da Scripps.

O aquecimento também foi observado em outras regiões da costa californiana, como Newport Beach, Santa Barbara, Monterey e arredores de San Francisco. Paralelamente, biólogos relatam aumento no número de aves marinhas encontradas mortas ou desnutridas em praias entre Monterey Bay e a fronteira com o México.

Entre as espécies afetadas estão pelicanos-pardos, corvos-marinhos e araus-comuns. Segundo especialistas, os pequenos peixes dos quais essas aves se alimentam, como sardinhas e anchovas, podem estar migrando para águas mais frias e profundas, dificultando o acesso ao alimento.

— Recebemos centenas de relatos de aves mortas ao longo da costa da Califórnia. As pessoas estão vendo esses animais nas praias. É devastador — disse J.D. Bergeron, diretor da organização International Bird Rescue.

A entidade mantém centros de recuperação de animais em Fairfield e San Pedro e já trata aves encontradas em estado severo de desnutrição.

Impactos no clima e temor de nova crise ambiental

Cientistas também alertam para possíveis efeitos climáticos associados ao fenômeno. O aquecimento anormal do oceano pode favorecer temperaturas mais altas e aumento da umidade na Califórnia durante o verão, além de ampliar o risco de tempestades com raios secos, condição que costuma agravar incêndios florestais.

Especialistas ainda monitoram a possibilidade de formação de ciclones tropicais capazes de atingir a costa oeste americana, cenário semelhante ao observado em 2023, quando os remanescentes do furacão Hilary provocaram enchentes no sul da Califórnia.

— A Califórnia será afetada por essa onda de calor marinha recorde durante meses. É provável que ela permaneça ao longo de praticamente todo o ano e influencie significativamente o clima do oeste americano — afirmou Daniel Swain, cientista climático da Universidade da Califórnia.

O episódio atual tem sido comparado ao fenômeno conhecido como “The Blob”, registrado entre 2014 e 2015, quando uma gigantesca massa de água quente alterou o ecossistema marinho no Pacífico. Na época, houve explosões de algas, colapso na pesca de algumas espécies, aparecimento de animais típicos de águas tropicais em regiões mais ao norte e morte em massa de aves e leões-marinhos por falta de alimento.

— O padrão não é exatamente igual, mas as temperaturas da água e o que está acontecendo no oceano lembram muito aquele evento devastador — afirmou Cara Field, veterinária do Marine Mammal Center, organização que tratou milhares de focas e leões-marinhos durante a crise anterior.

Pesquisadores afirmam que as mudanças climáticas não são a causa direta dessas ondas de calor oceânicas, mas aumentam sua intensidade e frequência, já que os oceanos absorveram grande parte do calor acumulado pelo planeta nas últimas décadas.

O climatologista Nick Bond, pesquisador que popularizou o termo “The Blob” em 2014, vê semelhanças entre os dois episódios.

— O oceano está aquecendo. Não é mais necessário um evento tão incomum para que as temperaturas atinjam níveis nunca vistos antes — afirmou.

O cenário também coincide com o fortalecimento das condições para um novo El Niño. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 61% de chance de o fenômeno se consolidar até julho e 90% até novembro. A agência estima ainda 50% de probabilidade de que ele alcance intensidade forte ou muito forte.

Especialistas alertam que, embora ainda seja cedo para prever todos os efeitos da atual onda de calor marinha, eventos desse tipo tendem a se tornar mais frequentes nos próximos anos.

— As pessoas precisam se acostumar. Os oceanos estão aquecendo e esses eventos vão acontecer cada vez mais — disse Bond.