Israelenses foram às urnas nesta terça-feira para uma votação marcada por participação recorde, na qual decidiram se mantêm o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e sua coalizão de extrema direita no poder ou se traçam um novo rumo para o Estado judeu. Pesquisas de boca de urna divulgadas pelas principais redes de televisão de Israel indicam que a maioria dos eleitores votou contra a coalizão do premier, embora sua sigla, o Likud, tenha emergido como o maior partido, o que significa que nenhum dos blocos obteve uma maioria clara.
De acordo com a Comissão Eleitoral Central, o primeiro lote de resultados oficiais será divulgado por volta da 1h da manhã (20h no horário de Brasília), mas a contagem poderá se estender até sexta-feira, devido ao grande número de votos por correspondência. Protagonista da política em Israel há 30 anos: Netanyahu vê em jogo nas eleições projeto de remodelar Oriente Médio à sua imagem
Líder nas pesquisas: Gadi Eisenkot não poderia ser mais diferente de Netanyahu. Será que ele consegue derrotá-lo?
Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp As principais pesquisas de boca de urna divulgadas pela imprensa israelense indicaram que o bloco pró-Netanyahu conquistou 50 cadeiras, enquanto a aliança de oposição de centro-direita, liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Gadi Eisenkot, do Yashar, obteve entre 52 e 53.
Os partidos árabes, por sua vez, cresceram e somaram entre 17 e 18 assentos, segundo as projeções. Assim sendo, as pesquisas mostram que ambos os blocos podem não ter conseguido atingir a maioria de 61 cadeiras (de um total de 120) necessária no Knesset, o Parlamento de Israel, para formar um governo sem depender de partidos árabes.
Apesar disso, embora Ra'am e a Lista Conjunta, dos grupos árabes, não pertençam ao bloco da oposição, eles expressaram abertura para apoiá-la contra a coalizão de Netanyahu. Boca de urna indica maioria para a oposição em Israel
Editoria de Arte / O Globo Eisenkot, em declaração logo após as pesquisas de boca de urna serem divulgadas, afirmou que os resultados "expressam uma completa perda de confiança em Netanyahu" e em seu governo.
"Se esses forem os resultados finais, representarão uma vitória", escreveu no X, acrescentando que "agirá prontamente para cumprir a determinação do povo de substituir o governo de Netanyahu". Por sua vez, o atual líder da oposição no Parlamento, Yair Lapid, falou de uma "derrota esmagadora" para o bloco do primeiro-ministro.
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional da extrema direita, foi o primeiro líder de um partido da coligação de Netanyahu a discursar após a divulgação das sondagens. Ele não declarou vitória para o seu bloco nem reconheceu a derrota, e afirmou que o bloco liderado por Netanyahu "está perto de formar um governo de direita".
Já o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, afirmou que as comemorações da oposição eram "prematuras", acrescentando em publicação no X que "uma coisa parece bastante clara: o Likud é o maior partido de Israel". Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países
De acordo com as pesquisas, o partido de Netanyahu, o Likud, conquistou o maior número de cadeiras, 24 ou 25, ligeriamente à frente do partido Yashar de Eisenkot, com 23. Nas últimas eleições, a sigla conquistou 32 cadeiras, o que lhe permitiu formar uma coalizão com partidos menores de extrema direita, depois que os aliados tradicionais de Netanyahu se opuseram aos processos de corrupção que o primeiro-ministro enfrentava.
Desta vez, esses partidos tradicionais de direita, em geral, prometeram trabalhar com o Yashar para formar uma coligação de oposição capaz de destituir Netanyahu. Segundo a Comissão Eleitoral Central, 77,7% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas, a maior taxa para desde 1999.
Neste ano, há 7,3 milhões de eleitores elegíveis, cerca de 540 mil a mais do que em 2022, ano das últimas eleições. Pedido de prorrogração
Com a expressiva participação dos eleitores árabes israelenses, Netanyahu levantou temores de que os líderes desse grupo minoritário estivessem tentando "roubar a eleição". — Não podemos deixar esta batalha nas mãos da esquerda e dos partidos árabes que querem acabar com o Estado judeu — disse Netanyahu, visivelmente tenso, aos seus apoiadores.
Eleições em Israel: Guia prático mostra como funciona sistema que definirá o futuro de Netanyahu Em publicações nas redes sociais, Netanyahu fez seguidos apelos para que seus apoiadores saíssem de casa para votar.
Em uma delas, afirmou que "hoje não é dia de ir ao mar nem de fazer churrasco", e que "na balança está o futuro do nosso Estado judeu: um governo de direita forte ou um governo de esquerda apoiado pelos partidos árabes". A sigla chegou a solicitar às autoridades eleitorais que mantivessem as urnas abertas após as 22h (17h em Brasília), mas o pedido não foi atendido.
O requerimento apresentado pelos partidos da coalizão liderada pelo premier apontava que eles tentavam "evitar uma situação em que os cidadãos que aguardam nas filas não consigam votar", apesar do diretor-geral interino da comissão eleitoral, Dean Livne, ter dito anteriormente que os locais de votação permaneceriam abertos se houvesse pessoas na fila até o prazo final.
"Nenhum incidente excepcional ocorreu para justificar a aceitação deste pedido, que tem por objetivo preparar o terreno para alegações desafiando a integridade da eleição, dando seguimento a s mentiras que Netanyahu tem espalhado desde a manhã", manifestou-se o Yashar, sem dar detalhes sobre qual seria a narrativa adotada pela coalizão governista.
Com as acusações e a campanha de medo, Netanyahu repetiu uma velha tática de eleições passadas, quando também apresentou os árabes como uma ameaça existencial ao seu projeto de um Estado judeu. Em 2015, também disse que os árabes estavam "indo em massa às urnas", e que "ONGs de esquerda os estão levando de ônibus aos locais de votação" — e posteriormente precisou pedir desculpas.
Nesta terça-feira, ao menos um vídeo publicado pelo premier no X foi identificado como sendo da eleição de 2022. — Estamos no dia mais crítico desde a fundação de Israel — disse mais cedo Eisenkot.
— Apelo a todos os cidadãos israelenses que saiam para votar e permaneçam comprometidos com a missão. 'É agora ou nunca'
As eleições ocorreram em um momento de crescente isolamento para Israel devido à sua campanha militar em Gaza, à construção de assentamentos e à violência dos colonos na Cisjordânia ocupada, bem como à sua guinada para a extrema direita e o nacionalismo religioso. Quase 7,3 milhões de pessoas estavam aptas a votar, e milhares de israelenses vieram do exterior para participar das eleições.
— O país está indo numa direção muito, muito ruim. Tanto para os judeus e árabes que vivem aqui, quanto para os judeus que vivem no exterior.
É agora ou nunca — disse à AFP Eilana Zisblit, de 55 anos, que retornou a Israel pela primeira vez depois de quase 30 anos no Canadá, e afirmou ter votado no bloco de Eisenkot. Veja vídeo: Premier de Israel anuncia grande operação na Cisjordânia e ordena fechamento de Hebron após ataque a tiros matar dois soldados
Após retornar ao poder no final de 2022, Netanyahu, de 77 anos, lançou diversas guerras que deixaram Gaza em ruínas, ocupou o sul do Líbano e bombardeou seu arquirrival Irã com o apoio dos EUA. Mas sua população também sofreu bombardeios do Irã, do Hamas, do movimento libanês Hezbollah e dos houthis do Iêmen, além de ter sofrido o pior ataque da História do país no 7 de Outubro, pelo qual muitos culpam Netanyahu.
Do outro lado, Eisenkot, de 66 anos, prometeu uma comissão independente para investigar as falhas de segurança que permitiram os ataques do Hamas, algo que o governo Netanyahu tem evitado. O ex-chefe militar se opõe à criação de um Estado palestino e apoia os assentamentos israelenses, mas prometeu conter a violência dos colonos na Cisjordânia.
Com AFP e New York Times.
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