Boa noite e boas ideias: Cientistas conseguem 'plantar ideias' em sonhos para estimular a criatividade
Dormir sobre um problema pode ser mais do que um conselho popular. Um novo estudo conduzido por neurocientistas da Northwestern University mostrou que é possível influenciar o conteúdo dos sonhos e, com isso, aumentar as chances de encontrar soluções criativas ao acordar.
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A pesquisa reforça a hipótese de que o sono REM — estágio caracterado por movimentos rápidos dos olhos e sonhos vívidos, às vezes lúcidos — desempenha papel relevante na resolução criativa de problemas. O trabalho foi publicado em 5 de fevereiro na revista Neuroscience of Consciousness.
Sons para moldar sonhos
Os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada reativação direcionada da memória (TMR, na sigla em inglês). Antes de dormir, os participantes tentaram resolver uma série de quebra-cabeças complexos, cada um associado a uma trilha sonora específica. Devido ao grau de dificuldade, a maioria permaneceu sem solução.
Durante a noite, já no laboratório e com a atividade cerebral monitorada, os cientistas reproduziram — apenas na fase REM — os sons ligados a metade dos problemas não resolvidos. O objetivo era reativar seletivamente essas memórias enquanto os voluntários sonhavam.
O resultado foi expressivo: 75% dos participantes relataram sonhos com elementos ou ideias relacionados aos quebra-cabeças estimulados. Os problemas que apareceram nos sonhos foram solucionados com muito mais frequência do que os demais. Ao todo, 42% dos enigmas associados aos sonhos foram resolvidos, contra 17% daqueles que não surgiram durante o sono.
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Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que os dados não comprovam que sonhar, por si só, cause melhores soluções. Fatores como maior curiosidade por determinados problemas podem ter influenciado tanto o conteúdo dos sonhos quanto o desempenho ao acordar. Mesmo assim, a capacidade de orientar o conteúdo onírico representa um avanço importante na compreensão de como o sono pode favorecer o pensamento criativo.
“Muitos problemas no mundo hoje exigem soluções criativas. Ao aprender mais sobre como nossos cérebros são capazes de pensar criativamente, pensar de novas maneiras e gerar novas ideias criativas, podemos estar mais próximos de resolver os problemas que queremos solucionar, e a engenharia do sono pode ajudar”, afirmou o autor sênior do estudo, Ken Paller, professor de Psicologia e diretor do programa de neurociência cognitiva da universidade.
O experimento no sono REM
O estudo envolveu 20 participantes com experiência prévia em sonhos lúcidos — quando a pessoa percebe que está sonhando enquanto ainda dorme. No laboratório, cada voluntário teve três minutos para tentar resolver cada desafio, todos acompanhados por trilhas sonoras distintas.
Durante a noite, os pesquisadores registraram a atividade cerebral e outros sinais fisiológicos por meio de polissonografia. Na fase REM, as trilhas ligadas a metade dos problemas não resolvidos foram reproduzidas. Alguns participantes utilizaram sinais previamente combinados, como padrões específicos de inspiração e expiração pelo nariz, para indicar que haviam ouvido os sons e estavam trabalhando nos enigmas dentro do sonho.
Na manhã seguinte, relataram o conteúdo dos sonhos. Em 12 dos 20 participantes, os sonhos mencionaram com mais frequência os problemas associados aos estímulos sonoros do que aqueles não estimulados. Esses mesmos voluntários apresentaram melhora significativa no desempenho: a taxa de acerto nos quebra-cabeças reativados subiu de 20% para 40%.
Sonhos influenciados mesmo sem lucidez
Karen Konkoly, autora principal do estudo e pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Paller, destacou que um dos maiores achados foi a força dos estímulos mesmo quando os participantes não estavam em sonho lúcido.
“Mesmo sem lucidez, um sonhador pediu ajuda a um personagem do sonho para resolver o quebra-cabeça que estávamos estimulando. Outro recebeu o estímulo do problema das ‘árvores’ e acordou sonhando que caminhava por uma floresta. Outra participante foi estimulada com um problema sobre selvas e acordou de um sonho em que pescava na selva pensando naquele quebra-cabeça”, afirmou Konkoly.
“Esses foram exemplos fascinantes de observar porque mostraram como os sonhadores podem seguir instruções, e como os sonhos podem ser influenciados por sons durante o sono, mesmo sem lucidez.”
Implicações para criatividade e saúde mental
A equipe agora pretende utilizar a reativação direcionada da memória e métodos de sonho interativo para investigar outras possíveis funções dos sonhos, como regulação emocional e processos mais amplos de aprendizagem.
“Minha esperança é que essas descobertas nos ajudem a avançar para conclusões mais sólidas sobre as funções dos sonhos”, disse Konkoly. “Se os cientistas puderem afirmar de forma definitiva que os sonhos são importantes para a resolução de problemas, a criatividade e a regulação emocional, esperamos que as pessoas passem a levar os sonhos a sério como prioridade para a saúde mental e o bem-estar.”
