Blocos rua de SP 'respiram por aparelhos' e avaliam cancelar desfiles este ano por falta de dinheiro
Alguns dos blocos de carnaval de rua mais tradicionais de São Paulo cancelaram ou avaliam cancelar os desfiles este ano por falta de dinheiro. Eles afirmam que o modelo atual de financiamento do evento adotado pela Prefeitura da capital tem asfixiado os patrocínios privados para os foliões.
Segundo eles, o modelo de financiamento municipal favorece os megablocos ligados a grandes marcas. Este ano, a cervejaria Ambev é a patrocinadora oficial do Carnaval de rua. A empresa fechou contratos com outras companhias, que podem organizar megablocos pela cidade. Na visão dos organizadores dos blocos, isso fez com que boa parte do dinheiro de patrocínio fosse para esses grandes eventos.
Como reflexo, blocos estão reduzindo a festa, avaliando cancelar ou até cancelando de fato a participação no carnaval paulistano.
Foi o que aconteceu com Sargento Pimenta, que celebra os Beatles e sairia em Pinheiros no pré-carnaval, mas cancelou nesta semana por falta de patrocínio.
Mariana Bastos, do bloco feminista Pagu, disse que o grupo ainda avalia a possibilidade de cancelar também.
"O Pagu, por exemplo, é um bloco que tem uma planilha de R$ 250 mil. Para uma marca não é muito, mas para um investimento próprio é muito dinheiro. A gente não consegue colocar. Quando a gente ganha R$ 25 mil da Prefeitura, isso pode me ajudar a pagar alguma coisa, mas isso está longe de me assegurar, por exemplo, uma possibilidade de desfile. Como o Carnaval cresceu muito, hoje a gente tem, por exemplo, megablocos das próprias marcas que colocavam dinheiro no Carnaval e de artistas muito famosos e consagrados. Assim, fica muito difícil para os blocos tradicionais disputarem esse patrocínio", explica.
O edital de fomento da Prefeitura garante um apoio de R$ 25 mil reais para cerca de 100 agremiações.
Organizadores dos blocos acreditam que o esquema atual estrangula os mais tradicionais, e dizem que o valor disponibilizado está distante dos custos reais dos desfiles.
É o caso de Emerson Boy, fundador do Jegue Elétrico, que sai desde 2000. Segundo ele, foi preciso cortar um dia da festa este ano por causa dos custos.
"A gente saía quatro dias no Carnaval, aí já de uns dois anos para cá, a gente tem agendado para sair três dias, mas não consegue pagar porque o custo é muito alto, os preços dos carros de som, dos trios, aumentaram absurdamente, vai desfilar dois dias. Eu cancelei um dia por isso, no mínimo 60 mil para a gente botar o bloco da rua, tá? 60 mil reais para botar o bloco e tem muita coisa de produção, de figurino, bombeiro, tem cordeiro, músicos, a galera de frente, muita gente envolvida", afirma.
Este ano, a gestão Ricardo Nunes arrecadou valor recorde, de mais de R$ 29 milhões, e possibilita que grandes marcas façam megablocos próprios.
Dois exemplos são o bloco com o DJ escocês Calvin Harris e o da cantora Ivete Sangalo. O primeiro é patrocinado pela Skol e vai desfilar pela Rua da Consolação no pré-Carnaval, no mesmo dia do desfile do tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta. Desde 2009, o Baixo Augusta era o único grande bloco na região no domingo que antecede o bloco, mas agora terá que dividir espaço com o megabloco ligado à patrocinadora. Já o trio que carregará Ivete Sangalo pela primeira vez pelas ruas de São Paulo também sairá no pré-Carnaval e será patrocinado por uma grande empresa, a 99.
José Cury, do Fórum de Blocos de Carnaval de Rua de São Paulo, explica que os blocos tem se mobilizado para evitar que haja mais cancelamentos nos próximos dias.
"A gente não pode dizer agora quantos vão cair, porque está uma mobilização gigante de um tentando ajudar o outro para que não caiam. Muito bloco está sem patrocinador quando antes tinha habitualmente patrocinador, porque teve um movimento das marcas aí muito infelizmente ajudado pelo modelo de negócio da prefeitura que concentrou mais capital em grandes atrações e tal. Mas pode ser que não saiam, se não acontecer nenhum milagre, porque a estrutura é grande e o dinheiro está pouco", diz.
Fabio Lopes, presidente do bloco Não Serve Mestre diz que o formato atual é insustentável e defende a criação de políticas públicas para evitar o fim dos blocos de rua.
"Se nada mudar, em cinco anos muitos blocos tradicionais vão desaparecer. A cada ano fica mais difícil conseguir recursos e pagar as contas. A competição é desigual e injusta. Passamos mais de dez anos lutando pra legalizar o Carnaval de rua e, quando ele se consolidou, quem construiu essa história não foi priorizado. Hoje parece que o Carnaval é visto como evento de marketing, não como política cultural", diz.
Procurada, a prefeitura de São Paulo afirmou que oferece infraestrutura completa para o carnaval de rua e que cabe aos blocos se viabilizarem economicamente por meio de patrocínios.
A gestão municipal informou que criou uma política exclusiva de fomento e que, neste ano, 100 blocos vão receber, ao todo, R$ 2,5 milhões de reais, seguindo critérios definidos em edital.
