Blocos da Zona Norte exaltam a relação com o território e a identidade suburbana
A folia na Zona Norte está garantida: só entre os blocos regulamentados pela Riotur, são 106 desfilando por bairros do subúrbio neste carnaval. E há de tudo: desde grupos que nasceram de uma bebedeira entre amigos e se transformaram em bateria — como o Papo de Cachaça, no Méier — até blocos como o Terreirada, na Quinta da Boa Vista, que desenvolvem enredo, pesquisa e propostas pedagógicas. Em comum, eles reafirmam o carnaval como expressão da cultura suburbana carioca — feita de pertencimento, memória e ocupação da rua como espaço coletivo.
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Ao colocar o território no centro da festa, esses blocos mostram que a Zona Norte não apenas participa, mas molda ativamente o carnaval do Rio, com estética própria, narrativas singulares e papel central na manutenção da diversidade cultural da cidade, como ressalta o presidente da Riotur, Bernardo Fellows:
— Ao todo serão 54 blocos oficiais desfilando na Zona Norte da cidade e 52 na Grande Tijuca, ocupando ruas, praças e bairros que são bases históricas e culturais do carnaval carioca. Essa descentralização é um compromisso da Riotur com o reconhecimento do papel fundamental do subúrbio na construção do samba, da folia e da identidade do Rio. Celebrar o carnaval na Zona Norte é valorizar a raiz, a memória e a força de uma cidade que faz da rua o seu maior palco.
Com desfile marcado para hoje, com concentração a partir do meio-dia, o Terreirada ocupa novamente a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. O bloco surgiu em 2012, mas foi em 2016 que chegou ao endereço atual, onde consolidou sua identidade. Hoje, conta com ala de percussão, dirigida por Thaís Bezerra; e ala de pernalta, dirigida por Raquel Potí. Segundo Raquel, o ponto de virada foi a incorporação de enredos, figurinos e repertórios ancorados na cultura popular, com seus símbolos e ritos.
Já Thaís reforça a importância da territorialidade nesse processo:
— Eu cresci na Zona Norte, na Vila da Penha, e conheço a potência do subúrbio, das tradições e da convivência entre vizinhos. O Terreirada trabalha para manter essa cultura viva, colocando o território no centro da folia. A Quinta da Boa Vista não é apenas um local de apresentação; ela funciona como um terreiro vivo, um espaço de encontro, criação e ancestralidade.
Terreirada homenageia personalidades que se relacionam com a cultura popular
Divulgação/Fernando Maia/Riotur
Pelo segundo ano consecutivo, o bloco aposta em acessibilidade, com área exclusiva para pessoas com deficiência, gestantes e famílias com crianças de colo, além de interpretação em Libras durante o desfile. Também integra o selo Folia Verde, com ações de gestão de resíduos e educação ambiental em tempo real.
“O carnaval é a maior manifestação cultural do país e, por isso, um palco potente para discutir sustentabilidade, justiça ambiental e direito à cidade. É reafirmar a festa como espaço político, de consciência e mobilização coletiva”, destaca em nota a direção do bloco Terreirada.
Na Vila Kosmos, a Charanga Talismã constrói desde 2018 um carnaval a partir da escuta do território. Para as diretoras Raissa Azevedo e Ana Paula Martins, a experiência suburbana molda o jeito de brincar e de ocupar a rua.
Charanga Talismã, na edição de 2025
Divulgação/Shouriço
— É o subúrbio que nos ensina a fazer festa desde o encontro cotidiano, mesmo sem investimento. O carnaval acontece porque existe resistência e o entendimento de que brincar é coisa séria. É uma forma de estar no mundo e organizar a cidade a partir da rua — afirma Raissa.
Este ano, o desfile será realizado amanhã, com concentração a partir das 7h, e se debruça sobre a América Latina, conectando memória, política e cultura popular. O cortejo traz referências como o boi do Maranhão, homenagens a sambistas do repertório do bloco e a valorização de manifestações suburbanas, como os bate-bolas.
— Entendemos o carnaval como festa, mas também como expressão profunda de quem somos enquanto território e comunidade — resume Raissa, apoiada por Ana Paula.
No Méier, o Papo de Cachaça traduz o espírito boêmio e familiar do carnaval suburbano. Criado a partir de uma bebedeira entre amigos, o bloco cresceu e hoje desfila tradicionalmente na segunda-feira de folia, a partir das 16h, com bateria nos moldes das escolas de samba.
Bloco Papo de Cachaça, no Méier, em edições anteriores
Divulgação/Papo de Cachaça
— Nosso público é familiar; vai de criança a idosos, gente que gosta de samba, de carnaval de verdade. A gente toca samba-enredo, samba antigo, mas também mistura ritmos. É o povão na rua — conta Oswaldo Aragão, um dos organizadores.
Para ele, a trajetória do bloco reforça a vocação carnavalesca da região e ajuda a recolocar o Méier no mapa da folia:
— O Méier sempre foi de carnaval. O subúrbio tem isso no DNA, e o Papo de Cachaça é mais um bloco que fortalece essa cultura raiz, feita na rua e para quem vive o bairro.
Em Madureira, o DNA Suburbano desfila hoje, a partir das 15h, com o peso simbólico de um território que é berço do samba e polo histórico da cultura popular carioca. Cercado por referências como Portela, Império Serrano e Tradição, o bloco assume o carnaval como “o maior espetáculo da Terra” — e como espaço de orgulho, disputa e resistência cultural.
— Fazer carnaval em Madureira é, antes de tudo, um sentimento de orgulho. O sobrenome “Suburbano” não é à toa. Aqui nasceram Paulo da Portela e tantos outros poetas do samba — afirma Reinaldo de Paula, da direção, lembrando que o bloco foi apadrinhado pela Portela e mantém diálogo próximo com diversas escolas.
Este ano, o DNA Suburbano leva para a rua o enredo “A crise da educação não é uma crise, é um projeto”, em homenagem ao antropólogo Darcy Ribeiro. O desfile reúne alas, comissão de frente e bateria própria, além de um concurso anual de samba-enredo que abre espaço para novos compositores — muitos deles fora do circuito midiático tradicional.
— O carnaval ajuda a fortalecer outras expressões culturais, sobretudo as culturas negras. Mas é preciso deixar claro que cultura não acontece só depois do túnel. Falta um apoio mais igualitário entre as regiões da cidade — critica De Paula.
Para o bloco, descentralizar o carnaval de rua da Zona Sul e do Centro para a Zona Norte é fundamental para dinamizar a cultura carioca e garantir o direito do subúrbio à produção cultural.
— O suburbano tem direito de fazer cultura e de ser apoiado para isso — reforça.
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