‘Big techs’ operam com gargalo de chip, energia e prédio de data center

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Fonte da notícia: Valor Valor

Queima de caixa, diluição de ações e endividamento com infraestrutura para a demanda de inteligência artificial estão sob o olhar atento de analistas e investidores, após a divulgação de balanços trimestrais de Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft, que operam com gargalo de oferta.

“O gargalo hoje é chip, energia e prédio, não cliente”, diz a analista da gestora São Pedro Capital, Gabriela Moraes. “O Google começou a alugar capacidade de terceiros por não conseguir construir [data centers] rápido o suficiente”, ilustra.

Juntas, as cinco “big techs” reportaram gasto de capital (capex) de US$ 209,5 bilhões no terceiro trimestre, um salto anual de 81,1%, segundo o Valor Data. A queda de ações de Alphabet, Amazon e Meta logo após a publicação de seus resultados mostra a preocupação sobre “como” estas empresas estão financiando o capex elevado, observam analistas consultados pelo Valor.

As três ‘big techs’ encerraram o trimestre com fluxo de caixa negativo. Foi a primeira queima de caixa da Meta desde 2012.

“A diferença está sendo coberta com dívida e ações”, diz a analista da São Pedro Capital. O mercado, afirma, passou a cobrar “de onde vem o dinheiro” e quanto isso vai diluir o acionista.

A queda de 7% das ações da Meta, logo após a divulgação do balanço, foi mais impulsionada pelo anúncio de uma nova classe de ações sem voto, criada justamente para financiar o crescimento, do que por um caixa negativo. “O anúncio foi lido pelo mercado como ‘follow-on’ à vista”, diz Moraes.

Ela lembra que o custo de proteção da dívida da Meta - swap de inadimplência de crédito (CDS, na sigla em inglês) - foi à máxima histórica. Desde junho, a Alphabet, controladora do Google, captou US$ 40 bilhões em emissão de ações junto a investidores, incluindo US$ 10 bilhões em papéis para a Berkshire Hathaway.

Já a Microsoft anunciou uma emissão histórica de US$ 25 bilhões em títulos de dívida (bonds) no dia seguinte à divulgação do balanço. As gigantes de computação em nuvem e empresas de centros de dados emitiram quase US$ 368 bilhões em dívidas no acumulado do ano até o dia 28 de outubro, mais de seis vezes a soma de 2025, apontam dados compilados pela Bloomberg.

“O mercado de crédito pode ter dificuldade em absorver esse montante”, diz o analista do Itaú BBA, Stephano Gabriel. Ele cita os exemplos do custo de proteção da dívida da Meta (CDS, na sigla em inglês), alcançado a máxima histórica em 26 de outubro e a derrocada das ações da CoreWeave, empresa de nuvem computacional especializada em IA (“neocloud”, no jargão do setor).

Desde o início de outubro, as ações da empresa recuaram 39% após a disparada do risco de sua dívida de US$ 50 bilhões. O avanço na receita de computação em nuvem das “big techs” sinaliza que a demanda por IA justifica o endividamento para acelerar a infraestrutura computacional de IA.

No terceiro trimestre, as três líderes do mercado global de nuvem geraram crescimentos em linha ou acima do esperado pelo mercado, na comparação com igual período do ano anterior: a receita da Amazon Web Services (AWS), divisão de nuvem da Amazon, cresceu 39,3%; as vendas de Microsoft Azure avançaram 48%; e a divisão Google Cloud teve um salto de 102,6% na receita.

As “big techs”, em especial as que vendem serviço de nuvem computacional, afirmam que há uma demanda reprimida de IA, parada por falta de infraestrutura - há falta de chips, energia e prédios para data centers. Somando a carteira de pedidos (“backlog”) de nuvem, “Amazon, Microsoft e Google somam US$ 1,8 trilhão em receita contratada esperando capacidade para ser entregue; e as três repetiram que a demanda excede a oferta”, completa Moraes.

Na temporada de balanços do quarto trimestre, as “big techs”’ devem manter o ritmo elevado de capex e de queima de caixa, afirma a estrategista global da XP, Maria Irene Jordão. O foco do investidor será a projeção de capex de 2027, que não veio nas conferências desta temporada de balanços.

Necessidade de mais endividamento e emissão de novas ações “dependerá bastante das condições de mercado”, observa Jordão. “As companhias, de modo geral, seguem nessa toada enquanto o mercado estiver receptivo.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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