Em 2024, passeando pela Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a mineira Gabriela Zambiazi disse ao marido que, na próxima edição do evento, gostaria de estar ali como autora.
Na época, ela morava em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, e não tinha nenhum contato no mercado editorial.
Mas já havia concluído a primeira versão de um romance protagonizado por três mulheres da mesma família que descontavam uma na outra as violências que sofriam.
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Intitulado “Durou um momento, não teve fim”, o romance saiu pela Todavia em julho.
E o que dois anos atrás era só um sonho louco vai se realizar: ela apresentará seu romance de estreia na 28ª Bienal, que começa nesta sexta-feira (4) e até o dia 13 promete lotar o Distrito Anhembi, na Zona Norte de São Paulo.
Zambiazi não estará na Arena Cultural ou no Salão de Ideias, palcos da Bienal tradicionalmente ocupados por autores de ficção, mas no Espaço Saúde e Bem-Estar, que estreia este ano com uma agenda intensa — e diversificada — de debates.
Este ano, a Bienal vai ocupar 86 mil metros quadrados no Anhembi (expansão de 28% em relação à edição de 2024) e reunir 269 expositores.
O mote do evento é “Um festival de emoções”.
Com curadoria dos jornalistas Michelle Loreto e Fabrício Battaglini, o Espaço Saúde e Bem-Estar aposta em discussões sobre menopausa, canetas emagrecedoras, epidemia de diagnósticos, vício em bets, autismo e espiritualidade, entre outros temas.
A programação começa amanhã, às 14h, com uma palestra do psicanalista Christian Dunker: “O papel da literatura na nossa saúde mental”.
Sem baboseiras da internet
Na segunda-feira, dia 7, às 10h30, Zambiazi vai dividir a mesa “Isso não é amor” com o psicólogo Rossandro Klinjey, autor de “Antes que você me destrua: sobre se libertar de relacionamentos tóxicos” (BestSeller).
A partir de seus livros, uma ficção e uma obra de psicologia voltada ao público em geral, os dois vão conversar sobre relações abusivas.
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— De início, fiquei um pouco intimidada, porque o Espaço Saúde e Bem-Estar é um pouco fora da minha zona de conforto.
Mas depois que me explicaram a proposta e eu conheci o livro do Rossandro, percebi que fazia muito sentido trazer a literatura para essa discussão — conta Zambiazi, que tem 30 anos e hoje mora em São Paulo.
— “Durou um momento, não teve fim” fala muito sobre violência: de gênero, doméstica, intergeracional.
Recebo muitas mensagens de leitoras que veem no livro suas próprias trajetórias familiares e questões de saúde mental.
No fim, o Espaço Saúde e Bem-Estar é o lugar certo para o meu livro.
Ao GLOBO, os curadores afirmam que o objetivo das 60 mesas do novo espaço é oferecer informação de qualidade ao público e combater as “baboseiras” sobre saúde espalhadas pelas redes sociais.
— Quem passar pelo Espaço Saúde e Bem-Estar vai fazer um check-up de conhecimento — diz Fabrício Battaglini, que é repórter do programa “Mais Você”, de Ana Maria Braga.
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A parte do check-up não é só piada.
Entre sábado e terça-feira, a Sociedade Brasileira de Diabetes estará lá para aferir a pressão arterial e medir a glicose do público nos intervalos da programação.
O Espaço Saúde e Bem-Estar terá 80 lugares, com senhas distribuídas antes de cada mesa.
Michelle Loreto brinca que quer ver “gente disputando senha”.
— Escolhemos os temas das mesas pela relevância e pela abrangência e buscamos nomes que pudessem falar deles com propriedade e embasamento científico.
Para falar de alguns assuntos, como canetas emagrecedoras e vício em bets, chamamos autores de obras acadêmicas — conta Loreto, que apresentava o programa “Bem Estar”, da TV Globo.
Sucesso nas redes conta
Os curadores vasculharam as redes sociais dos autores, muitos dos quais são médicos, para ver se tinham desenvoltura suficiente para segurar uma mesa na Bienal — trata-se, afinal, de um evento pop.
O Espaço Saúde e Bem-Estar também faz parte da estratégia da Bienal de atrair o público adulto (o evento é dominado pelos jovens).
Este ano, está mais barato ir ao Anhembi depois do expediente.
De segunda a quinta-feira, após as 17h, o ingresso sai a R$ 30, a inteira, e R$ 15, a meia, valores que serão integralmente convertidos em crédito para a compra de livros no evento.
De segunda a quinta, as entradas custam R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) e o cashback será de R$ 15 e R$ 7,50, respectivamente.
Inclusive, a programação noturna, de todos os palcos, foi pensada para atrair os mais velhos.
Na terça, às 20h, a mesa “Quem vai ter essa conversa? A educação sexual como ferramenta de saúde e proteção” reúne as sexólogas Laura Müller e Cris Sá no espaço dedicado à saúde.
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2022
Maria Isabel Oliveira
Presidente da CBL, Sevani Matos relaciona o novo palco ao aumento da procura por livros sobre questões de saúde — física e, sobretudo, mental — desde a pandemia.
Segundo levantamento realizado a pedido do GLOBO pela NielsenIQ BookData, as vendas de títulos da categoria Mente, Corpo & Espírito (que inclui subgêneros como Terapias Alternativas & Saúde) cresceram 20,5% entre janeiro e julho deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.
A editora Darkside, célebre por publicar terror e fantasia, acaba de criar o selo Magnética, especializado em títulos sobre saúde e comportamento, mas “sem recorrer às fórmulas tradicionais da autoajuda”, afirma sua nota à imprensa.
A editora Amanda Orlando, head de obras adultas da Globo Livros, observa que, desde a emergência sanitária, mesmo obras sobre temas que tinham pouco apelo comercial no país, como luto e trauma, têm tido bom desempenho.
Títulos sobre ansiedade, depressão e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal também se destacam, assim como aqueles que abordam questões de saúde de uma perspectiva “global”, integrando corpo, mente e, não raro, espiritualidade.
Ela cita, por exemplo, uma safra recente de livros que relaciona a saúde do intestino à da mente.
No sábado, às 18h30, a nutricionista Michelle Lucas e o médico Flávio Quilici, os respectivos autores de “Livre, leve e solto” e “Conheça seu cocô” (Editora OLPB) , dividem a mesa “O intestino fala! Você escuta? O que o seu cocô conta sobre você”, no Espaço Saúde e Bem-Estar.
A editora da Globo Livros também celebra o potencial do novo espaço para apresentar obras e autores que dificilmente dão as caras em eventos de massa.
E elogia a curadoria por ter incluído a literatura na programação.
— Ler uma história que fala sobre o que estamos passando, seja uma relação tóxica, seja uma doença, pode nos ajudar a refletir de maneira mais profunda e até mais agradável.
Não é por acaso que muitos terapeutas e médicos incluem literatura no tratamento — diz Amanda Orlando, lembrando que um dos últimos fenômenos editoriais se chama justamente ficção de cura (romances asiáticos fofinhos, ambientados em cafés e livrarias, nos quais os personagens buscam alívio para as dores da vida).
Uma das mesas literárias mais instigantes do Espaço Saúde e Bem-Estar é “Meditar com Fernando Pessoa” (no sábado, às 10h30), na qual o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo Marcelo Demarzo vai convidar o público a alcançar a atenção plena (mindfulness) com a ajuda do poeta fingidor e seus heterônimos.
Ainda inédito no Brasil, o livro escrito por Dermazo em parceria com o português Paulo Borges relaciona o “pasmo essencial” de Alberto Caeiro diante da existência ao que as práticas de mindfulness chamam de “mente de principiante”, atitude que nos permite manter “uma conexão viva com o mundo”, “abordar cada situação sem preconceitos ou expectativas” e “estar plenamente empenhados e receptivos às surpresas de cada momento”.
— Às vezes, os termos técnicos da medicina são uma barreira, por isso nós temos falado cada vez mais em “letramento em saúde”, em passar informações significativas para as pessoas de um jeito que elas entendam.
E é possível fazer isso por meio da poesia, da literatura, dos clássicos — afirma Dermazo, que explica como os heterônimos de Pessoa oferecem diferentes lições de mindfulness.
— Alberto Caeiro fala sobre maravilhamento diante do simples, do dia a dia; Ricardo Reis é mais estoico, ensina a aceitar a vida como ela é; e Álvaro de Campos, o mais moderno deles, é aberto, curioso, quer experimentar tudo.
A aposta do Espaço da Saúde Bem-Estar (e da Bienal como um todo) é que, assim como a ciência, a literatura também ajude a lidar o que o meditativo Alberto Caeiro chamou de “a espantosa realidade das coisas”.
