Bienal do Livro Bahia se firma no calendário nacional e aposta no tempero local para bater recorde de visitantes
A Bienal do Livro Bahia, em Salvador, chega ao primeiro fim de semana da edição 2026 como a maior de sua história. O crescimento do evento, que começou na quarta-feira e vai até a terça, reflete uma produção editorial cada dia mais vibrante na terra de Castro Alves, Jorge Amado e Itamar Vieira Júnior. Com o tema “Bahia — Identidade que ecoa nos quatro cantos do mundo”, a programação está repleta de autores e editoras locais, em sua maior representação na trajetória do evento.
MEC LIVROS | editores elogiam democratização da leitura, mas reclamam de remuneração e temem impacto nas compras do governo
CLÁSSICO | François Ozon leva 'O estrangeiro' para as telas: 'Queria respeitar Camus, mas também dar voz aos árabes'
O resultado é uma programação cultural mais extensa, com 170 personalidades nas mesas de bate-papo. A curadoria equilibra o tempero local com grandes estrelas nacionais e internacionais (como a americana Julia Quinn, criadora da série “Bridgerton”; e as brasileiras Paula Pimenta e Thalita Rebouças).
A nova edição também viu um aumento de 25% na área dos expositores em relação à anterior, de 2024. No total, 112 editoras estarão presentes no Centro de Convenções Salvador. Além de grupos com penetração nacional, o público poderá visitar os estandes das baianas Escariz, Letra A, P55, Caramurê, Paulinas, Arpillera, Paralela, Trem Fantasma, Orama e Studio Palma, entre outras.
Ausência de nove anos
Terceira maior Bienal do Livro do país, ficando atrás somente das de São Paulo e Rio, a da Bahia chegou a ficar nove anos ausente do calendário, entre 2013 e 2022. A edição de 2020 deveria marcar seu retorno, mas acabou adiada por conta da pandemia.
Desde a volta, a feira literária vem se firmando no calendário nacional. A expectativa desta edição é de atingir mais de 120 mil visitantes, superando o recorde alcançado na edição anterior, que foi de cem mil pessoas.
— Lembro que em 2013 havia pouca participação da produção local nos estandes — diz Tatiana Zaccaro, diretora-geral da GL events Exhibitions, empresa que organiza o evento e também é responsável pela Bienal do Livro do Rio. — Houve um aumento gigantesco de selos pequenos e independentes nos últimos dez anos. Isso se reflete na programação. Em praticamente todas as sessões haverá mesa com personalidades da Bahia ou ligadas ao estado.
Evanilton Gonçalves, autor de "Ladeira da Preguiça"
Divulgação
Cena consolidada
É impossível explicar esse fenômeno sem considerar mudanças recentes no mercado editorial, que passou a buscar mais diversidade em seu catálogo, ampliando a presença de autores de fora do eixo Rio-São Paulo. Os eventos literários pelo Brasil também passaram a abrir mais espaço para editoras independentes.
Contudo, segundo a jornalista e escritora Joselia Aguiar, uma das curadoras do evento, a Bahia já contava com uma cena consolidada e diversificada, independente do cenário nacional. No ano passado, o Estado organizou mais de cem festas literárias, de acordo com dados da Fundação Pedro Calmon.
— Essas mudanças no mercado, que aconteceram em todo o país, encontram na Bahia o lugar em que isso tudo isso já estava mais visível — diz Joselia, que foi curadora da Festa Literária Internacional de Paraty em 2017 e 2018. — Na Bienal de 2022, a da retomada, a coisa já se apresentava. Se havia espaço para 150 pessoas em uma mesa, apareciam 400. Então, desde 2022, a bienal entendeu que Salvador era um caso particular.
Além de Joselia, integram a equipe de curadoria o autor best-seller Itamar Vieira Junior; o ator, roteirista e apresentador Aldri Anunciação; o publicitário Deco Lip; a atriz e comediante Maíra Azevedo; e a diretora e roteirista Mira Silva.
Conhecer novos autores
Segundo Itamar, também na programação como autor, a ideia era equilibrar nomes com apelo popular com escritores que o grande público ainda não conhece.
— Nos grandes eventos de hoje, há autores importantes que não encontram espaço por conta das desigualdades que persistem — diz o escritor. — Temos que lembrar que as grandes editoras ainda estão no eixo Rio-São Paulo. Mas o panorama melhorou muito, apesar do caminho ser longo.
Autor de “Ladeira da Preguiça” (Todavia), o baiano Evanilton Gonçalves participa pela primeira vez da festa baiana do livro e considera o foco na literatura de seu estado uma oportunidade para o público.
— Muita gente da Bahia ainda não sabe, por exemplo, que eu publiquei o romance "Ladeira da Preguiça" — diz Evanilton. — Volta e meia recebo retornos nas redes sociais com gente surpresa por descobrir que sou de Salvador e estarei na Bienal com o livro. Na medida em que o evento abre mais espaço para autores e autoras da Bahia, o público pode redescobrir seu próprio território a partir da literatura.
Outros baianos na programação
Bethânia Pires Amaro: Vencedora do Prêmio Sesc de Literatura pelo romance “O ninho”, a pernambucana cresceu na Bahia e se inspira nas vivências familiares no Estaso. “A Bahia é esse espaço que exporta cultura e pensa o mundo a partir de sua própria identidade”.
Elayne Baeta: pré-venda bombada
Reprodução
Elayne Baeta: Nascida em uma família de origem humilde no interior da Bahia, ela chegou a trabalhar em uma funerária antes de se tornar uma das autoras mais vendidas do país. Seu livro de estreia, “O amor não é óbvio”, é o primeiro best-seller juvenil nacional com protagonistas lésbicas.
Luciany Aparecida: A vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance “Mata doce” transita entre a prosa e a poesia (assinada com o pseudônimo Margô Paraíso). Suas narrativas híbridas exploram história, migração e performance
Maíra Azevedo: Conhecida como Tia Má no Youtube, a escritora e comediante é autora de “Como se livrar de um relacionamento ordinário”. Em 2025, lançou seu livro infantil “A Menina que não sabia que era bonita”, que cobre a trajetória de uma jovem negra no processo de formação da sua autoaceitação e autoestima
