Bianca Bin detalha guinada em carreira na TV após crise de burnout: 'Estou nadando contra a corrente'

 

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Bianca Bin cumpria quase todos os requisitos para encarnar o modelo ideal de celebridade. Foi isso que a jovem de pele alva e olhos azuis ouviu após ganhar projeção na TV como a mocinha Marina na novela “Malhação”, em 2009. “Você tem que ser uma it-girl. Só falta estar com a roupa certa jantando no Leblon às 20h de uma sexta-feira”, orientou um empresário, à época. Recém-chegada de Itu, no interior paulista, para a capital fluminense, a atriz novata se viu diante de um impasse. Com “personalidade de tatu”, como diz, era incapaz de se reconhecer no retrato de “ícone fashion e baladeiro”. Nos oito anos seguintes, ao enfileirar papéis de protagonismo em folhetins da TV Globo, ela até conquistou fama — ossos do ofício, apenas isso. Nesse período, a artista, de 35 anos, se esquivou, a todo custo, de expor a própria imagem de maneira indiscriminada fora da ficção. Até que cansou.

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Há cerca de cinco anos, Bianca Bin ganha o pão com trabalhos no teatro. Depois de estrelar a novela “O outro lado do paraíso” (2017) como a personagem Clara — a mocinha vingativa que cunhou a frase “Vocês não sabem o prazer que é estar de volta” —, a paulista enfrentou um burnout, viu degringolar a saúde mental e decidiu pisar fundo no freio, a despeito das ressalvas feitas por amigos e familiares. Ela reconhece que estava “no auge”. Mas o posto de heroína ou vilã na TV não trazia mais prazer, como repassa a atriz, que hoje se dedica a uma “luta de vida” pelo fim da escala de trabalho 6 por 1.

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Intérprete de uma das antagonistas da recém-lançada “Dona Beja”, remake de apenas 40 capítulos da HBO (“Projetos mais curtos e pontuais estão fazendo mais sentido para o formato de vida que escolhi”, explica), ela incursionará o país, neste semestre, com a peça “JOB”, em cartaz no Teatro TotalEnergies, no Rio de Janeiro, até domingo. Adaptação de um sucesso recente na Broadway, o thriller dirigido por Fernando Philbert — que também conta com Edson Fieschi no elenco — acompanha as agruras de uma mulher contratada para filtrar conteúdos impróprios na internet. Na ficção, diante de tanta perversidade, a personagem entra em colapso. Está aí um “espelho desconfortável” para a própria atriz, como afirma Bianca na entrevista a seguir.

De 2021 para cá, você mantém uma presença contínua no teatro, algo novo em sua carreira. Planejou-se para isso?

Depois de dez anos no audiovisual, sem folga e sem férias, achei que era hora de me dedicar ao teatro. Lá atrás, escolhi a profissão de atriz com o desejo de estar nos palcos, mas nunca pude viver isso porque a TV me pegou de jeito, muito cedo, e não me largou mais.

Foi muito difícil dar essa guinada na profissão?

Eu estava no auge, né? Era a protagonista de uma novela das 21h e ocupava um lugar de destaque que muita gente almeja. Mas, artisticamente, não me sentia nutrida. Estava me frustrando enquanto atriz. E aí fui abraçada pelo palco de teatro num momento em que repensava minha escolha profissional. Hoje sinto que fiz a decisão certa, alinhada com a vida que quero levar, para ter uma relação de mais leveza e menos dor com o trabalho.

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Em geral, há uma associação entre o ofício do ator a um universo de festas e glamour. Viveu essa romantização?

Tem muito status, né? Mas se for olhar de perto, a ideia de que atores são semideuses cai por terra. Não adianta estar “bombando” com o sucesso, mas se sentir à beira de um colapso. E a gente está na era da performance, da meta... As pessoas estão todas workaholics. Vivi isso até chegar ao meu limite e ter uma crise de burnout, algo que me fez repensar todas as minhas escolhas. Estava infeliz, medicada e diagnosticada, mas dentro de uma zona de conforto, e digo isso não só pelo lado financeiro.

Pois é, imagino que o trabalho na TV traga uma segurança profissional, algo mais difícil no meio teatral. Isso não pesou?

Me vejo como uma grande privilegiada. Tenho muitos amigos talentosos que não têm esse privilégio. Quando o audiovisual me “pegou”, falei para mim mesma: “Não posso dizer ‘não’ para um lugar que todos querem e que vai me dar estabilidade financeira para fazer minhas escolhas no futuro”. Então, de 2009 a 2017, não fiquei um ano sequer sem fazer alguma produção na televisão. Só assim posso dizer os “nãos” que digo hoje. Tudo foi uma construção. No meu caso, há agora um caminho inverso — comecei na TV e depois fui para o teatro, diferentemente da maioria de meus colegas.

Você foi sondada para um papel na próxima novela das 21h, de Walcyr Carrasco. Não chegou a um acordo?

Existiu apenas a manifestação de um desejo mútuo, algo que virou notícia. Mas isso não se confirma. Seria um trabalho para uma novela longa, e esse modelo não atende às minhas necessidades no momento. Não me vejo mais fazendo um projeto de 200 capítulos, com um ano de dedicação integral. Seria uma escolha difícil, de muita renúncia, tendo que deixar de lado a vida pessoal por um bom tempo. O ideal, para mim, é o novo formato pelo fim da escala de trabalho 6 por 1. Esse modelo virou minha luta de vida.

A atriz Bianca Bin caracterizada como a personagem da peça 'JOB'

Robert Schwenck/Divulgação

Já escutou muitas críticas a seu posicionamento sobre o trabalho?

Parte do público me chama de “preguiçosa”, “vagabunda”... Mas, gente, eu não parei de trabalhar! As pessoas não me veem na TV e acham que agora estou dependendo do meu marido (o também ator Sergio Guizé). Continuo independente. E sempre fui muito trabalhadora! Tenho orgulho de todos os trabalhos que já fiz. Não me vejo como uma pessoa preguiçosa. Me vejo, sim, como uma pessoa que faz escolhas diferentes. Estou nadando contra a corrente de ter que sempre performar e emendar uma coisa na outra... Minhas prioridades hoje são saúde mental e qualidade de vida. Sei que virão os julgamentos, até da família. Meu pai e minha mãe se preocupam e me questionam. Mas sigo o que meu coração diz.

Hoje você e Sérgio Guizé vivem numa chácara em Indaiatuba. Essa mudança aconteceu na esteira de seu novo momento de vida?

Prefiro morar na “roça”, onde possa ter espaço para criar meus bichos. E casei com uma cara que é muito parecido comigo. No meu caso, a mudança para Indaiatuba significou um retorno às minhas raízes, porque sou do interior. Ficamos também entre Rio e São Paulo. Mas nossa casa mesmo é em Indaiatuba. As pessoas falam: “Poxa, vocês são super discretos e low profile”. Sim, a gente é tímido e tem personalidade de tatu! Gostamos de nos esconder. E esta não é uma escolha criada ou consciente. É da nossa personalidade. Não somos da badalação. A gente quer mexer no jardim e ficar com nossos bichos... No nosso carro, aliás, já não cabe mais ninguém — os três cachorros e os dois gatos estão sempre com a gente. Se tivermos filhos, o carro precisará mudar.

Filhos estão nos planos agora?

A gente quer, sim, um fruto de nossa relação. A união que tenho com o Guizé me alimenta muito. Foi um grande encontro, e já são nove anos juntos. Mas nunca acho que estou segura para ser mãe. Fico pensando: “Não me sinto pronta para educar uma criança”. E aí todas as mãe me dizem que, na verdade, a gente nunca estará pronta. Num futuro não tão próximo, pretendo ser mãe. Acho que nasci para isso. Não é uma coisa que eu não queira viver, sabe? Sou tão maternal com meus bichos (risos).

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Em 2009, quando você fez “Malhação”, as redes sociais não tinham a força de hoje. Como lida com esse universo?

Quando comecei a fazer TV, tinha o hábito de sempre colocar o meu nome no Twitter para ver o que estavam falando de mim. Junto dos fãs, vinha uma enxurrada de “haters”. Vi o quanto aquilo era prejudicial para mim. É muito ódio ali. E sem filtro. A internet é uma terra de ninguém. Cada vez mais, a gente tem que lutar por uma regulação das redes.

Este tema está abordado em “JOB”, que também trata das relações de trabalho, outro assunto caro a você. O que mais a atraiu nesse texto do americano Max Wolf Friedlich?

A peça fala muito sobre a dessensibilização do mal, e isso é muito pertinente diante da atual onda de cyberbullying, violência sexual... A questão não é o aparelho ou a tecnologia. O problema é quem os opera. Não são assuntos fáceis de abordar. Como um suspense psicológico, “JOB” dá um soco no estômago da gente. Não é um espelho confortável. Mas o assunto é necessário. Esse trabalho agora está me fazendo repensar a minha relação com as redes e a tecnologia.

Bianca Bin com o marido, Sergio Guizé

Reproduçaõ Instagram

Tenta se manter mais distanciada do que falam sobre você hoje?

Se estou um pouco mais vulnerável emocionalmente, preciso me distanciar das redes. Não é uma coisa que me fortalece. Sinto que existe uma pulsão de morte ali, e eu sou muito ansiosa. A velocidade com que as coisas acontecem não é do ritmo biológico. Fico rolando a tela, e nada permanece. Nada. É diferente de um livro, que depois reverbera na gente. Mas para um ator virou obrigação ter Instagram, né?

Já se sentiu como alguém que você mesma não reconhecia?

Já tive um empresário que me disse que eu tinha ser uma it-girl. Não desmerecendo quem seja isso ou tenha esse desejo, mas esta não é a minha natureza. Precisaria fazer uma força extra para estar nesse posto, e, ainda assim, me sentiria mentindo para mim mesma. Lá atrás, alguém viu esse potencial em mim. Mas não fez sentido. Não faz.

O próximo plano profissional, neste ano, é continuar firme e forte nos teatros?

O palco me aceitou de braços abertos, e está chovendo trabalho nessa horta. Sinto que é um chamado de alma. Estou feliz, honrada, abundante, numa relação mais saudável com meu ofício, tentando desconstruir a crença limitante de que trabalho precisa ser exaustão. Neste semestre, vou para Belém, Recife, Fortaleza e Salvador com “JOB”. Depois, no fim de julho, estreio em São Paulo a peça “Meu Deus”, com direção do Elias Andreato, e que vou fazer junto com o Guizé. Trabalhar com o marido é bom demais. A gente já fez novela junto... Formamos uma boa dupla, com muita escuta e parceria.

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