Após o Departamento do Tesouro americano ter surpreendido o mercado ao anunciar ontem um aumento na recompra de títulos de longo prazo, o secretário Scott Bessent veio a público nesta quinta-feira (20) para afirmar que os Estados Unidos anunciarão um foco maior na consolidação fiscal, com a dívida do país próxima de US$ 40 trilhões.
“Queremos mostrar que o mercado de juros não reflete os fundamentos subjacentes”, disse, em entrevista à CNBC americana.
Os juros de longo prazo nos Estados Unidos passaram por uma turbulência ao longo da última semana e o mercado acendeu um sinal de alerta quanto ao nível de endividamento do país.
Os receios fiscais levaram a taxa da T-bond de 30 anos a romper a faixa de 5,3% e ultrapassar o maior nível desde junho de 2007.
O Tesouro americano, dias após o acontecimento, decidiu atuar no mercado de renda fixa.
Em um comunicado surpresa e considerado amplamente “heterodoxo” por participantes do mercado, o Tesouro anunciou que irá aumentar, “em pelo menos duas vezes”, o tamanho das operações de recompra para títulos nos segmentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
Com isso, o atual limite máximo, de US$ 2 bilhões por operação, passará a ser de, no mínimo, US$ 4 bilhões.
Bessent, no entanto, afirmou que o patamar das taxas de longo prazo não teve correlação com a ampliação da política de recompra.
A justificativa do Tesouro, no comunicado, foi a de fornecer liquidez ao mercado, especialmente em títulos que estão fora do cronograma de emissões nos leilões da dívida pública (“off the run”).
O secretário observou que parte da recompra tem um caráter de sinalização e disse que o mercado se precipitou com relação aos acontecimentos na seara fiscal.
“Há uma grande chance de já termos atingido o pico do déficit”, argumentou.
Outras medidas no mercado de juros não foram descartadas.
Bessent disse que observará quais serão as condições no mercado de Treasuries e se novas atuações serão necessárias, além de afirmar que as recompras poderão ser maiores do que o valor de US$ 4 bilhões.
O secretário também pontuou que, caso haja uma mudança no balanço patrimonial, Tesouro e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) precisarão trabalhar em conjunto.
A reação no mercado de juros às falas do secretário não foi positiva.
Os rendimentos dos títulos de 10 e 30 anos ampliaram o movimento de alta visto desde o início da sessão e já devolvem boa parte dos efeitos causados pelo anúncio da recompra ontem.
Os participantes do mercado já salientavam, ontem, que uma política de recompra seria uma solução positiva no curtíssimo prazo, mas que seriam necessárias mudanças mais profundas na política de gastos americana para conter o avanço dos juros longos.
Há um certo grau de desconfiança no mercado quanto à credibilidade das orientações do Tesouro.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent
Buddhika Weerasinghe/Bloomberg
