Berrettini aposta no Rio Open como ponto de virada e valoriza nova fase após enfrentar depressão: 'Me sinto sortudo'
O sangue brasileiro do italiano Matteo Berrettini explica por que ele se sente tão à vontade no Rio Open, onde estreará contra o chileno Tomás Barrios Vera em data e horário a definir. E o ex-número 6 do mundo acredita que os ares cariocas podem dar a ele a energia necessária para uma temporada de sucesso. Acossado por lesões nos últimos anos — a mais recente o tirou do Australian Open, em janeiro —, o tenista não conquista um torneio de simples da ATP desde julho de 2024, no 250 de Kitzbühel (Áustria).
— Às vezes acontece algo na sua mente que não tem a ver com resultado, não é vencer ou perder, é simplesmente sentir algo. E acho que a torcida do Rio pode me dar isso, pode me dar o motivo pelo qual eu jogo tênis, que é me sentir vivo. Eu quero sentir isso no Rio e espero levar essa sensação para os próximos torneios também — reflete Berrettini em entrevista ao GLOBO.
O Brasil está presente na memória afetiva do italiano pelos sabores da água de coco, do queijo coalho e do pão de queijo, e, claro, através da avó materna Lucia Fogaça, de 85 anos, que é brasileira e a quem ele considera uma segunda mãe. É para ela que Berrettini costuma ligar assim que retorna para sua casa em Monte Carlo, Mônaco, após os torneios.
Leitora assídua de jornais impressos, a avó nascida no Rio de Janeiro, no entanto, não recebeu qualquer ligação do neto revelando a publicação desta reportagem. Ele preferiu fazer surpresa.
— Jornal? O Globo? Meu Deus. Ela vai... Eu não vou contar para ela antes — divertiu-se o tenista. — Ela lê jornal impresso todos os dias, do início ao fim.
Saúde mental em foco
Nas próximas linhas, Dona Lucia terá certeza de que tem muito a se orgulhar do neto — o italiano tem um irmão caçula, também tenista, chamado Jacobo. Prestes a completar 30 anos e já tendo vivido todos os altos e baixos comuns à carreira de atleta de alto rendimento, Berrettini alcançou a maturidade forjada pela idade e pelos percalços da vida.
E a família foi fundamental nesse processo. São as pessoas mais próximas que mantêm o equilíbrio necessário para o italiano não ruir na, muitas vezes, solitária carreira de tenista:
— É importante manter as pessoas que você ama por perto, porque a gente passa muito tempo longe de casa. E, mesmo quando se está longe, é importante sentir que elas estão próximas, te apoiando, te ajudando nos momentos difíceis. Além disso, muitas coisas acontecem e você não está lá. Então, é importante estar em contato para que sintam que você está presente também.
Apesar de ter figurado no top 10 — o auge foi o sexto lugar no ranking, no início de 2022, quando disputou o Rio Open pela primeira vez —, Berrettini transparece mais leveza hoje na 57ª posição. Não significa que ele não vislumbre mais os grandes feitos no tênis. Mas sim que aprendeu com o próprio esporte que as derrotas são inerentes a ele e que “é impossível nunca perder”.
É a consequência natural para quem superou períodos recentes de depressão e hoje coloca a saúde mental em primeiro lugar, depois de ter se abatido com as constantes lesões que o tiraram dos eixos nos últimos anos. A principal foi a ruptura do ligamento do tornozelo direito durante uma partida do US Open em agosto de 2023. Berrettini ficou até março do ano seguinte distante das quadras.
— Quando eu estava lesionado e não podia jogar, não sabia o que fazer da vida. Achei que minha vida estava ruim porque não estava jogando — recorda. — Mas tenho uma vida, tenho muitos amigos, família, pessoas que me amam. Essa foi uma das partes mais difíceis.
Com ajuda profissional, o tenista compreendeu que sua carreira não o define:
— Me sinto sortudo. Ao mesmo tempo, quando você praticamente nasce jogando tênis e, em certo momento, para, você sente que é apenas um jogador de tênis, que as pessoas te veem apenas como isso. E é importante se desprender disso e pensar sobre quem você é, lembrar por que começou a jogar tênis. É o seu trabalho, é sua paixão, mas não é quem você realmente é — conclui.
Fonseca e outros brasileiros estreiam
O italiano mezzo carioca espera agora retribuir o carinho da torcida local. Mas ele sabe que o xodó dos brasileiros é mesmo João Fonseca, que pode ser seu adversário nas quartas de final. Dono de um potente forehand, assim como o brasileiro, Berrettini derrotou Fonseca na Copa Davis de 2024.
— Não sei se devo dar conselhos a ele, pois já é um jogador incrível, muito forte, um grande talento e tem ótimos treinadores — esquiva-se. — Ele está fazendo tudo certo. Eu joguei contra ele há alguns anos. Ele era muito jovem, e eu me lembro de pensar: “Esse garoto vai ser realmente muito bom”.
A estreia de João Fonseca no Rio Open será hoje mesmo, às 16h30. Ele disputará a chave de duplas ao lado do veterano Marcelo Melo e terá pela frente o francês Alexandre Müller e o bósnio Damir Dzumhur na quadra central do Jockey. No mesmo palco, não antes das 19h, Gustavo Heide enfrenta o tcheco Vit Kopriva. Depois, João Lucas Reis encara o alemão Yannick Hanfmann. Já Igor Marcondes, que furou o quali, pega o peruano Ignacio Buse na última partida da noite na quadra 2.
