Belém investe quase R$ 3 bilhões em macrodrenagem, mas alagamentos persistem e geram protestos
As fortes chuvas que atingiram a Região Metropolitana de Belém no último final de semana voltaram a provocar alagamentos em diversos bairros, deixando casas submersas e moradores ilhados. Diante do cenário recorrente, a população cobra agilidade e eficácia nas obras, apesar dos mais de R$ 2.917.440.360 já investidos e anunciados em projetos de macrodrenagem na capital.
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Parque Linear da Nova Tamandaré. (Foto: Carmem Helena)
Obras bilionárias e problemas persistentes
As intervenções realizadas pelo Governo do Pará abrangem diferentes bacias hidrográficas e incluem serviços como terraplanagem, drenagem, pavimentação e urbanização.
Na Bacia do Tucunduba, além do investimento de quase R$ 1,1 bilhão, as obras contemplaram uma ampla rede de canais, incluindo Tucunduba, Mundurucus, Timbó, Gentil Bittencourt, Cipriano Santos, Vileta, União, José Leal Martins, Sapucajuba, Caraparu e Lago Verde. O projeto envolveu melhorias estruturais em diversos bairros e teve como objetivo reduzir alagamentos históricos na região.
O Parque Linear da Tamandaré, concluído próximo a novembro de 2025, revitalizou cerca de 1,4 km de canal, com intervenções de drenagem, paisagismo, ciclovias e áreas de lazer. A obra foi executada como parte das preparações para a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), com financiamento do Estado e do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).
Aviso no Parque Linear da Nova Tamandaré. (Foto: Carmem Helena)
Nos canais do Bengui e da Marambaia, as obras incluíram drenagem, revestimento em placas de concreto, construção de passarelas, sete pontes, pavimentação asfáltica, esgotamento sanitário e implantação de praças. O investimento aproximado foi de R$ 123 milhões, também com financiamento do BNDES, com foco na redução de alagamentos e melhoria da mobilidade urbana.
Já na Bacia da Estrada Nova, o Promaben II teve orçamento inicialmente previsto em US$ 250 milhões, posteriormente reduzido em 2020 para US$ 143,6 milhões, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e contrapartida da Prefeitura. Em reais, o investimento total chegou a R$ 716.440.356.
As intervenções incluíram macrodrenagem, microdrenagem, estações de tratamento de esgoto e urbanização da área da avenida Bernardo Sayão.
“Aqui não alagava. Agora alaga”, diz morador
Morador em frente ao Parque Linear da Tamandaré desde 2018, o microempresário Marcelo Tavares afirma que a situação piorou após a obra.
“Aqui em frente à minha casa nunca alagou. Agora está alagando. Essa água fica estagnada porque não tem caimento adequado. Só vai sair quando evaporar”, relatou.
Ele também critica a execução dos serviços: “A obra em si foi bonita, melhorou visualmente. Mas eu não vejo drenagem funcionando. Foi muito dinheiro investido, e o resultado não aparece. Piorou.”
(Foto: Carmem Helena)
Marcelo ainda aponta falhas na infraestrutura básica.
“Quebraram toda a minha calçada e fizeram uma ‘gambiarra’. Não entregaram uma calçada decente. Saneamento foi gambiarra também”, declarou.
Marcelo Tavares afirma que pontos onde não alagavam passaram a encher (Foto: Carmem Helena)
Relatos de agravamento após intervenções
A administradora Rita de Cássia Andrade, que trabalha na região da Tamandaré há seis anos, reforça que os alagamentos continuam frequentes. “Após a obra, ainda ocorre alagamento o tempo todo. A questão não foi resolvida”, afirmou.
Rita de Cássia Andrade cobra as autoridades "na rua" (Foto: Carmem Helena)
Segundo ela, há mudanças preocupantes no comportamento da água:
“Tem partes que não alagavam e agora alagam. Está enchendo mais depois da obra. Isso tem sido registrado em vários vídeos recentes.”
Rita também cobra mais atuação do poder público. “As autoridades precisam ir para a rua, identificar os pontos críticos e agir de forma eficiente”, destacou.
(Foto: Carmem Helena)
Governo aponta obras em andamento
Em resposta ao Grupo Liberal, a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) informou que mantém um conjunto de obras em execução na Região Metropolitana de Belém, com foco na redução de alagamentos e melhoria das condições urbanas.
Segundo o órgão, as intervenções incluem canais como Caraparu, Sapucajuba, Lago Verde, Murutucu e Tucunduba, além de ações de urbanização, drenagem, abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Novos projetos e desafios antigos
A Prefeitura de Belém também anunciou novas etapas de obras. A Bacia do Mata Fome, por exemplo, segundo a gestão municipal, será executada em três fases. A primeira etapa, com investimento de R$ 500 milhões, tem início previsto até o final de abril. A segunda contempla a macrodrenagem do canal, enquanto a terceira prevê o remanejamento de famílias que vivem próximas à área.
O projeto abrange bairros como Tapanã, Pratinha, Parque Verde e São Clemente, com financiamento do Governo Federal, Fonplata e recursos municipais.
Outro destaque é o Parque Linear do Igarapé São Joaquim, com investimento estimado em R$ 174 milhões, sendo a maior parte financiada pela Itaipu Binacional.
A obra inclui macrodrenagem, reurbanização e implantação de áreas de lazer, beneficiando bairros como Val-de-Cans, Sacramenta, Barreiro e Telégrafo, além de integrar o sistema hídrico até a Baía do Guajará.
Ainda assim, os recentes alagamentos indicam que os desafios históricos da cidade — agravados por fatores como maré alta, mudanças climáticas e ocupação urbana desordenada — seguem sem solução definitiva.
Especialista aponta falhas no planejamento e cobra atualização do sistema de drenagem
Para o mestre em Engenharia Urbana e doutor em Ciências Ambientais, Paulo Pinho, os alagamentos frequentes na Região Metropolitana de Belém têm origem em problemas estruturais que se arrastam há décadas. Segundo ele, a principal causa está na ocupação desordenada do território ao longo do tempo.
“As principais causas estão relacionadas a um processo de ocupação do nosso território de uma maneira totalmente desordenada. Isso é o passado”, afirma.
Ele destaca, no entanto, que os desafios atuais também passam pela ausência de planejamento atualizado.
“Em relação ao presente, nós não temos hoje um plano atualizado de saneamento básico que inclua a questão da drenagem e os investimentos que seriam definidos por um plano de tal envergadura, que já previsse, por exemplo, comportas, pelo fato de nós sermos também afetados pelas marés”, explica.
Na avaliação do especialista, há medidas práticas que poderiam melhorar o cenário, começando pela revisão do planejamento urbano e investimentos contínuos em manutenção.
“A primeira coisa a ser feita é atualizar o nosso plano de drenagem. A segunda coisa tem a ver com manutenção. Então tem que ter limpeza urbana para que as vias, até mesmo as subterrâneas, estejam livres para suportar um volume maior de água”, diz.
Pinho também alerta que, sem recursos suficientes, os problemas tendem a se repetir todos os anos. “Só que tem que ter investimento. Precisamos urgentemente de investimento, senão vamos sofrer anualmente no inverno”, reforça.
Sobre os quase R$ 3 bilhões já anunciados para obras de macrodrenagem, o especialista avalia que os recursos, isoladamente, não resolvem o problema.
“Se não for nessa linha de planejarmos a nossa ocupação do território, inclusive trabalhando a questão da macrodrenagem de uma maneira mais sustentável, dando mais espaço para que a água durante esse inverno ocupe seus espaços naturais, eles só vão amenizar”, afirma.
Ele cita ainda situações concretas da cidade para ilustrar os desafios. “Eu moro próximo à Doca e fizeram promessas relativas às obras da Doca. Se conciliar uma maré alta, nós sabemos quais são as consequências”, relata.
Por fim, Pinho defende um diagnóstico completo aliado a investimentos em infraestrutura como caminho para reduzir os impactos das chuvas intensas.
“Precisamos de um plano que faça um diagnóstico completo, mas também que invista em infraestrutura para que possamos enfrentar esses volumes de chuva de uma maneira com um pouco menos de risco”, conclui.
Edmilson Rodrigues critica abandono das obras de macrodrenagem e cobra apuração do MP
O ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (Psol), usou as redes sociais para denunciar o o que considera abandono de obras de macrodrenagem iniciadas em sua gestão (2021-2024), mas que não avançaram sob o comando do atual prefeito Igor Normando (MDB).
Segundo Rodrigues, a suspensão das obras está gerando sérios prejuízos à população, especialmente nas áreas afetadas por alagamentos recorrentes. Entre as obras paralisadas estão as macrodrenagens do Igarapé São Joaquim e das Bacias Hidrográficas do Mata Fome e da Estrada Nova, que contavam com recursos já garantidos pela gestão anterior.
“É um crime o abandono dessas obras. Se há dinheiro disponível, por que as obras não foram feitas? Essa é uma irresponsabilidade com o povo de Belém e merece a apuração do Ministério Público Federal e do Ministério Público do Estado do Pará”, declarou Edmilson, ressaltando que a população continua sofrendo com os alagamentos, apesar do grande investimento.
O ex-prefeito também citou o projeto do Parque Urbano São Joaquim, uma das iniciativas que ele afirma ter conseguido recursos federais.
De acordo com Rodrigues, foram obtidos R$ 150 milhões junto à Itaipu Binacional, recursos que já estavam depositados na conta da Prefeitura para o início da construção da primeira etapa.
"Esse projeto, que visa a renaturalização do rio e a melhoria das condições urbanísticas ao redor, foi um avanço que não pode ser deixado de lado", afirmou.
Obras de macrodrenagem do Governo do Pará em Belém
Bacia do Tucunduba
Objetivo: Terraplanagem, drenagem e pavimentação.
Bairros abrangidos: Terra Firme, Guamá, Marco, Canudos, São Brás, Curió-Utinga.
Investimento: R$ 1,1 bilhão.
Beneficiados: Aproximadamente 500 mil pessoas.
Canais incluídos:
Tucunduba
Mundurucus
Timbó
Gentil Bittencourt
Cipriano Santos
Vileta
União
José Leal Martins
Sapucajuba
Caraparu
Lago Verde
Parque Linear da Tamandaré
Investimento principal: R$ 154 milhões.
Objetivo: Revitalização de 1,4 km de canal, drenagem, paisagismo, ciclovias e áreas de lazer.
Prazo de conclusão: Novembro de 2025.
Financiamento: Governo do Estado e BNDES.
Contexto: Parte das obras de preparação para a COP 30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas).
Canais do Bengui e Marambaia
Objetivo: Drenagem e urbanização para prevenir alagamentos e melhorar a mobilidade.
Investimento: Aproximadamente R$ 123 milhões.
Financiamento: BNDES.
Ações realizadas:
Macrodrenagem
Revestimento em placas de concreto
Construção de passarelas e sete pontes
Pavimentação asfáltica
Esgotamento sanitário
Construção de praças
Bacia da Estrada Nova
Orçamento inicial (Promaben II): US$ 250 milhões.
Orçamento reduzido em 2020: US$ 143.604.000.
Financiamento:
BID: US$ 71.802.000
Prefeitura de Belém: US$ 71.802.000.
Investimento total em reais: R$ 716.440.356.
Objetivo: Drenagem, macrodrenagem, microdrenagem, estações de tratamento de esgoto e urbanização da Avenida Bernardo Sayão.
Prefeitura de Belém - Obras de Drenagem Concluídas e em Andamento
Bacia Mata Fome
Etapas:
1ª Etapa: Início até o final de abril, com investimento de R$ 500 milhões.
2ª Etapa: Macrodrenagem do canal.
3ª Etapa: Remanejamento das pessoas que moram próximo ao canal.
Bairros abrangidos: Tapanã, Pratinha, Parque Verde e São Clemente.
Financiadores:
Governo Federal (via Ministério das Cidades): R$ 132 milhões.
Fonplata (Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata): US$ 60 milhões.
Prefeitura de Belém: US$ 15 milhões + R$ 11 milhões.
Parque Linear Igarapé São Joaquim
Objetivo: Macrodrenagem e urbanização que integra o bairro da Marambaia, com desaguamento na Baía do Guajará.
Investimento previsto: Aproximadamente R$ 174 milhões.
Financiamento: Itaipu Binacional (R$ 150 milhões).
Bairros beneficiados: Val-de-Cans, Sacramenta, Barreiro e Telégrafo.
Total Investido nas Obras de Macrodrenagem em Belém
Valor total: R$ 2.917.440.360 (dois bilhões, novecentos e dezessete milhões, quatrocentos e trinta e seis mil reais).
