Belchior 80 anos: a visão de um Brasil para todos

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Em 1987, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, a equipe do programa Gente , da Rede Minas de Televisão, acompanhou a passagem de Belchior por Belo Horizonte. Questionado sobre a nova Constituição por um fã, o artista cearense respondeu com rara precisão política:

É um momento importante na história do Brasil, quando foram escolhidas pessoas importantes para decidirem sobre a nova carta. Eu espero que a carta nova que vai reger os destinos do Brasil seja uma carta nova, uma carta moderna que coloque definitivamente o Brasil entre as nações civilizadas do mundo.

Uma carta onde haja lugar para a festa, para o trabalho, para o pão, para a mulher, para o negro, para o índio, para todas as pessoas que fazem a grande nação brasileira e que precisam ter os seus direitos e o seu espaço perfeitamente identificado e respeitado. Neste domingo, 25 de outubro de 2026 — data do segundo turno das eleições presidenciais e véspera dos 80 anos de nascimento de Belchior, falecido em 2017 —, a entrevista de 1987 adquire um significado renovado.

Celebrar os 80 anos do “rapaz latino-americano” coincide com uma conjuntura em que a defesa da democracia e dos direitos fundamentais volta ao centro do debate público.  Uma análise atenta do cancioneiro de Belchior — objeto de minhas pesquisas há mais de duas décadas — revela que a declaração de 1987 não foi um improviso, mas a síntese de um projeto poético em diálogo com os direitos consagrados pela Constituição de 1988.

Da Constituinte de 1987 ao contradiscurso na MPB A promulgação da Constituição de 1988 marcou uma etapa decisiva da redemocratização brasileira, após 21 anos de ditadura, marcados pela repressão, pela tortura e pela censura.

Enquanto a transição democrática era conduzida pelas negociações políticas em Brasília, Belchior erguia na MPB uma voz abertamente contestadora. O compositor sobralense recusava as conciliações fáceis e o otimismo eufórico da época: em sua obra, a cidadania e os direitos sociais não eram abstrações, mas questões diretamente ligadas às condições materiais de existência e à experiência cotidiana do povo.

Essa postura crítica ganha vida no modo como suas canções dão forma e voz aos seis pilares que ele defendeu naquela entrevista: o trabalho, o pão, a mulher, o negro, os povos originários e a festa. Trabalho e pão: a ética e a dignidade do cidadão comum – Mesmo antes de a Constituição de 1988 consagrar a dignidade da pessoa humana (art.

1º, III) e os valores sociais do trabalho (art. 1º, IV), a poética de Belchior já expunha a dura realidade dos trabalhadores e a luta cotidiana pelo pão, símbolo das necessidades materiais básicas e da própria subsistência.

Em “Fotografia 3×4” (1976), a migração surge marcada pela fome no asfalto metropolitano (“no meio da rua, com fome, o sol não é tão bonito pra quem vem do Norte”). A crítica à estrutura do capital ganha dimensão coletiva em “Apenas um rapaz latino-americano” (1976), na autoidentificação “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes”.

Nesse percurso, Belchior transforma em matéria poética questões centrais do mundo do trabalho e das desigualdades sociais. Em “Ter ou não ter” (1978), o monólogo de Hamlet é traduzido para a crueza do capitalismo: “TO BE OR NOT TO BE quer dizer TER OU NÃO TER”.

Essa reflexão é retomada ainda em “Pequeno perfil de um cidadão comum” (parceria com Toquinho de 1979), que retrata a rotina do trabalhador submetido à lógica da sobrevivência: “Era feito aquela gente honesta, boa e comovida que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida”.

A luta pela subsistência também se manifesta na violência social retratada em “Populus” (1977) e na denúncia de “S.A.” (1993), que expõe a condição dos “miseráveis sempre sem pão e, daqui a pouco, sem circo”. Autonomia da mulher: corpo, igualdade de direitos e recusa da passividade – A igualdade de direitos entre homens e mulheres, assegurada pelo art.

5º, I, da Constituição, permite estabelecer um diálogo com diferentes aspectos da obra de Belchior. Em diversas canções, a figura feminina ultrapassa o lugar convencional da musa idealizada e é representada em sua pluralidade de papéis, experiências e formas de expressão.

Em “Alucinação” (1976), a mulher enfrenta a noite metropolitana ao lado dos marginalizados: “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”. Na balada “Bela” (1982), a musa é comparada a um “poema concreto” e assume papéis múltiplos (“mãe, irmã, mulher e criança”).

Já em “De primeira grandeza” (1987), Belchior explora a multiplicidade de representações do feminino (“Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina!”). Canções como “Coração selvagem” (1977), “Sensual” (1978), com sua valorização da experiência sensorial — “a língua, o beijo, a palavra” —, e “Até à manhã” (1978) permitem uma leitura que destaca o corpo, o desejo e a experiência afetiva como dimensões da subjetividade feminina.

Negros e povos originários: antirracismo e memória de luta – O compromisso constitucional de promover o bem de todos sem preconceitos de raça ou outras formas de discriminação (art. 3º, IV), assim como o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas (art.

231), encontra ressonância na obra de Belchior. Em “Baihuno” (1993), a denúncia do extermínio da juventude negra evidencia a violência da segregação urbana: “Ah! metrópole violenta que exterminas miseráveis, negros párias – teus meninos!”.

Em “Velha roupa colorida” (1976), a aproximação entre “Blackbird” (1968), de John Lennon e Paul McCartney, e “Assum preto” (1950), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, conecta a luta pelos direitos civis à libertação do povo negro. Já “Bucaneira” (1987), ao evocar o combate ao apartheid, amplia essa reflexão para além das fronteiras brasileiras.

Em relação aos povos indígenas, a perspectiva latino-americana de Belchior aprofunda a discussão sobre o encontro — nem sempre pacífico — entre diferentes povos e culturas. Em “Bucaneira”, essa aproximação aparece nos versos “Mi corazón guarani / Peri beija Ceci / Índios, blancos, criollos”.

Por sua vez, “Os derradeiros moicanos” denuncia a violência colonial. Essa crítica atinge o ápice na balada “Quinhentos anos de quê?” (1993), que questiona a narrativa oficial da “descoberta” da América: “Eram só três caravelas… Quanto aos índios que mataram… Ah ninguém pôde contar […] há motivos para a festa? / Quinhentos anos de quê?”.

O direito à festa: celebração da vida e resistência popular – Ao defender o direito à festa, Belchior antecipou uma concepção de cidadania cultural que encontra correspondência no art. 215, § 1º, da Constituição, que determina a proteção de manifestações culturais de diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Para o compositor, a festa não era entretenimento alienante, mas ritual do corpo, afirmação da vida e resistência comunitária. Em “Sujeito de sorte” (1976), a canção expressa uma vitória sobre a adversidade: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Em outras canções, essa dimensão aparece menos como acontecimento coletivo do que como valorização dos pequenos prazeres e da experiência corporal. Em “Coração selvagem” (1977), o afeto cotidiano ganha expressão em imagens simples, como o refrigerante e o cachorro-quente.

Já em “Seixo rolado” (1980), o corpo torna-se lugar de descoberta e prazer: “Gosta, cheira, toca, ouve e vê”, seguido de uma sequência de ritmos que culmina em “Roquerolando em você”. Em “Dandy” (1987), o repertório incorpora a irreverência do rock e do blues: “Quanto rock dando toque, tanto blues / E eu de óculos escuros vendo a vida e mundo azul”.

Em diferentes registros, o prazer, o afeto e o ritmo afirmam a vida como experiência que merece ser celebrada. Censura e terror de Estado: a denúncia visceral em “Populus” – A defesa do trabalho, da igualdade, da diversidade e do direito à festa pressupõe o enfrentamento das estruturas de poder que negam esses direitos.

Na obra de Belchior, a crítica social não se limita à denúncia das desigualdades: alcança também o autoritarismo, a repressão e o silenciamento das vozes dissidentes. Essa dimensão de seu cancioneiro dialoga com as garantias constitucionais de proteção à integridade humana e à liberdade de expressão.

A proibição da tortura (art. 5º, III) e a vedação à censura de natureza política, ideológica ou artística (art.

220, § 2º) encontram correspondência nas canções que enfrentaram o aparelho repressivo. Em “Pequeno mapa do tempo” (1977), a repetição de “Eu tenho medo” e a imagem do medo que “anda por dentro do coração” traduzem o clima de insegurança e a dimensão coletiva do temor vivido durante a ditadura.

Uma das críticas mais contundentes à violência estatal surge em “Populus” (1977), na qual a metáfora de um cão brutalizado expõe a tragédia do povo (populus) sob o arbítrio do poder. A autonomia ética diante da submissão cega é afirmada em “Como o diabo gosta” (1976): “A única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter; é nunca fazer nada que o mestre mandar.

Sempre desobedecer”. A recusa da obediência cega conecta a crítica ao autoritarismo ao questionamento de outras formas de opressão, entre elas as desigualdades regionais.

Em “Ploft” (1984), a imagem do “Nordeste sentado na esquina do mapa” denuncia a exclusão regional, em sintonia com o objetivo fundamental da República de erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (art. 3º, III).

Nas urnas e nas ruas: a atualidade política da obra de Belchior – Enquanto o País vai às urnas neste segundo turno das eleições presidenciais, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva se apresenta como o único projeto viável para a preservação da democracia, a defesa dos direitos fundamentais e a efetivação da Constituição Cidadã.

Em oposição, Flávio Bolsonaro representa um projeto político de caráter autoritário, que ameaça esses compromissos e aprofunda os riscos de retrocesso democrático. A escolha em jogo ultrapassa a alternância de poder: diz respeito ao Brasil que queremos construir e aos direitos que estamos dispostos a defender.

É nesse contexto histórico que comemoramos os 80 anos de nascimento do eterno rapaz latino-americano. A poética belchioriana, antecipada na entrevista de 1987, ganha urgência máxima neste momento de definição histórica.

Em um tempo atravessado pela aceleração dos algoritmos, pela proliferação de realidades sintéticas e pela ameaça constante do obscurantismo, o verso-manifesto de Alucinação cobra presença viva: “amar e mudar as coisas interessa mais”. Ao lado da convocação para o “delírio com coisas reais” e do “canto torto feito faca”, o pensamento do compositor traduz com precisão os ideais de justiça, igualdade e soberania que estruturam o pacto constitucional de 1988.

Belchior nos ensinou que a democracia não é uma conquista passiva nem um texto estático impresso no papel: é uma construção pulsante no chão da realidade social. Os princípios fundamentais da nossa Constituição só se realizam plenamente quando o povo ocupa os espaços públicos, exerce conscientemente o voto e exige a concretização dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, da população negra e dos povos originários, bem como o reconhecimento da cultura popular.

É justamente essa articulação entre a práxis cidadã e a sensibilidade poética que consolida a visão de um Brasil para todos — um país soberano onde o pão, o trabalho, a igualdade e a festa sejam garantias inalienáveis. Neste marco dos seus 80 anos, em uma conjuntura crucial para a democracia brasileira, o legado de Belchior reafirma seu vigor e nos convoca ao compromisso inarredável com a vida, com a cultura engajada e com os valores humanistas.

Belchior permanece vivo — e incendeia nossa consciência — em cada gesto de resistência, de justiça e de fé no futuro.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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