Beirut volta ao Brasil vai tocar 'O Leãozinho': 'Era difícil entender a letra antes de saber que música foi feita para um homem'

 

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No próximo domingo (24), vai ter “O leãozinho” no Ibirapuera. Foi o que garantiu Zach Condon ao GLOBO. Voz e criador de uma das atrações mais esperadas do Festival C6, que ocupa o parque paulistano a partir de quinta-feira, o artista traz o Beirut ao Brasil após um hiato de 17 anos. E de um amadurecimento musical constatado ano passado no belo e macambúzio “A study of losses” (“Um inventário de perdas”), sétimo álbum da banda. O setlist, não se restringirá ao repertório mais recente do sujeito que sacudiu o universo do indie rock americano há exatas duas década no disco “Gulag Orkestar”, um caldeirão sonoro com mergulhos na música dos Bálcãs, na chanson francesa e na latinoamerica.

Sua versão da canção de Caetano Veloso foi lançada em 2011, no segundo tomo do projeto Red Hot+Rio. Mas a paixão de Condon pela melodia de “O leãozinho”, que Shakira escolheu para Caetano interpretar no show em Copacabana no início do mês, vem de antes. O músico era tão louco pelo universo musical brasileiro que, ao terminar a high school em Santa Fé, no Novo México, foi estudar português na faculdade.

— A portuguesa é a língua com sonoridade mais bela. Minha aspiração era compor e cantar em português. Aí ouvi “O leãozinho”. Pirei. Minhas favoritas do Caetano são as intimistas: ele, o violão, sem muitos outros elementos. A voz é tão rica que não quero mais nada — conta, em entrevista por videochamada.

Condon cantou por anos a melodia no chuveiro sem entender direito do que Caetano falava. Até que um dia um amigo brasileiro o guiou.

— Era ele, sentado na praia, olhando para um outro homem com um cabelo lindo que também era músico (o baixista Dadi), e ainda por cima de uma banda mitológica para mim (os Novos Baianos). Eu me senti parte daquela celebração da vida. Mas só fui entender mesmo a emoção completa de “Leãozinho” após aprender a tocá-la — diz.

Em Berlim, onde vive, Condon está reaprendendo (“apavorado”) a tocar “Leãozinho” para o show de domingo. E diz esperar que, assim como no caso de Shakira, em sua apresentação em Copacabana no começo do mês, embora em Sampa não conte com o criador a seu lado, “o público me ajude e solte o gogó”.

Chico e Nosso Samba

Outra obrigatória, avisa, será “Elephant gun”, da trilha sonora da minissérie “Capitu”, de Luiz Fernando Carvalho, da TV Globo, em 2008. Outras pistas passam no fundo da câmera. Durante a entrevista, zanza para lá e para cá o baixista Griffin Rodriguez, produtor de “The rip tide” (2011). Ele afinava arranjos de canções do disco, favorito dos fãs, para o show de domingo.

— Uma de minhas músicas favoritas na vida é brasileira, mas não teria capacidade de fazer um cover dela: Sou devoto de “Roda Viva”, do Chico Buarque, em tudo oposta a “O Leãozinho”. Épica, teatral, orquestrada, com aqueles backing vocals (do MPB-4). São duas faces de uma mesma moeda que me atraem por igual – diz Condon.

Em São Paulo, Condon estará acompanhado, além de Rodriguez, pelo piano de Aaron Arntz, a bateria de Nicholas Petree, o trompete e o backing vocal de Emanuele Marsico e os sopros de Benjamin Lanz e Kyle Resnick.

A obsessão mais recente de Condon também é brasileira, o Conjunto Nosso Samba. Presença carimbada nas segundas-feiras de samba do Teatro Opinião nos anos 1970 e célebre por acompanhar Clara Nunes, o grupo lançou em 1975 “O ouro e a madeira”, do baiano Ederaldo Gentil. Faixa que não sai do celular de Condon.

— O Beirut é essa loucura de garimpar coisas e inseri-las de algum modo no que amo. Hoje está até mais fácil o trabalho com avanços tecnológicos. Ótimo é poder ouvir o Nosso Samba no streaming e semana que vem ir ao Centro de São Paulo para comprar os vinis deles — celebra.

A presença do Brasil na casa e no estúdio de Condon em Berlim aumenta a curiosidade sobre a ausência prolongada do Beirut no país. Foi, revela, por medo de avião.

— O Brasil é um país tão grande que, para uma turnê decente, precisa-se de um punhado de voos. São Paulo será um único voo longo e aí ainda consigo, mais ou menos, encarar. Mas naqueles aviões de conexão, menores, entro em pânico — conta.

Quando explodiu na cena musical da Nova York de 2006, o Beirut se destacou pelos instrumentos incomuns no universo do indie rock, entre eles o ukulelê, a tuba e as cordas. E pela voz de barítono de Condon, descrita mais de uma vez, à época, como “mais velha do que o rapaz que a contém”.

Vinte anos depois, como os aparentes opostos na MPB que atraem Condon, os temas de “A study of losses”, o disco mais recente do Beirut, substituem a grandiosidade de antes pela introspecção, sem se desviar do aspecto cinematográfico de sua música.

Obstáculos como o álcool

O álbum surgiu de uma encomenda da diretora sueca Viktoria Dalborg, para a trilha sonora do espetáculo mais recente de sua trupe performática e circense, a Kompani Giraff.

— Chegar aos 40 anos após enfrentar obstáculos, entre eles o álcool, tem sido perturbador e incrível. Sentimentos que estão em “A study of losses”, criado a partir do livro homônimo da alemã Judith Schalansky sobre o que vamos deixando para trás ao amadurecer. Já penso em quanto anos mais terei e o que farei com eles. Há uma beleza nisso, encarar o fim é sempre um pouco revolucionário — diz Condon.

O C6 Festival acontece em São Paulo entre a próxima quinta-feira (21) e domingo (24) e, além do Beirut, tem entre suas atrações principais Robert Plant, The xx, Benjamin Clementine, Os Paralamas do Sucesso com Nação Zumbi e o Branford Marsalis Quartet. Ainda há ingressos para a noite de sexta-feira, que tem no cardápio a Hermeto Paschoal Big Band, com homenagem ao gênio da música brasileira que morreu em setembro do ano passado.