À beira dos 90 anos e em atividade, Tom Zé admite: ‘Não tenho queixa de nada’
O baiano de Irará Tom Zé gosta de contar a história de um jornalista estrangeiro que escreveu acerca do trabalho de um colega, igualmente estrangeiro: “Tom Zé estava dando uma entrevista em que o entrevistador não entendia nada que ele estava falando.”
— Aí foi por causa desse fato que resolvi fazer a fotografia recompensar, uma coisa fotográfica bem escandalosa. Já que eu não podia falar nada com a palavra, tentava falar com uma fotografia — diverte-se o cantor e compositor, que chega aos 90 anos de idade em 11 de outubro e ainda faz caras e bocas para as lentes (embora seja cada vez mais entendido, em todo o mundo, pelo que fala e canta).
Prova disso é que depois de “Tom Zé: o último tropicalista” (2019), do italiano Pietro Scaramuzzo, ele vai ganhar ainda em 2026 a sua segunda biografia, mais uma vez escrita por alguém de fora do país: “Stray dog in the Milky Way”, do americano Christopher Dunn, que já sai também no Brasil, em edição da Editora Alameda, com o título de “Vira lata na Via Láctea” (o mesmo do álbum que o artista lançou em 2014).
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Dunn, que conheceu Tom Zé em 1992, quando fazia sua tese de doutorado sobre a Tropicália, diz que esta será uma bio menos cronológica e mais temática que a do italiano. Ela parte de “Jimmy renda-se” — canção que o baiano lançou em seu segundo LP, de 1970 (e que, ignorada à época, mais tarde foi descoberta pelo pop internacional e acabou parando nas trilhas de filmes como “O agente da U.N.C.L.E.”, de 2015; e, mais recentemente, na do oscarizado “Ainda estou aqui”, de Walter Salles) — para analisar a obra de Tom Zé nos mais variados aspectos.
— “Jimmy renda-se” é interessante porque mostra várias coisas sobre Tom Zé de uma vez só. Primeiro, a experimentação poética, em uma canção que não é em português, nem em inglês, mas num inglês macarrônico muito criativo. Depois, o lado humorístico, de inventar essa língua para acompanhar a juventude brasileira, que consumia muita cultura americana — analisa. — E a faixa é musicalmente interessante, tem um pouco de rock, um pouco de rhythm’n’blues, e talvez por essa razão tenha chamado a atenção tempos depois. Isso tem muito a ver com a trajetória de Tom Zé, que apareceu com o Tropicalismo, foi não compreendido, não apreciado, e agora é super-reconhecido.
A infância interiorana, a formação musical erudita-vanguardística em Salvador, o ativismo cultural com Gilberto Gil e Caetano Veloso, a vida em São Paulo (onde se radicou desde 1968, ano em que venceu o Festival da Record com “São, São Paulo, meu amor”), cidadania, migração, identidade brasileira, gênero e sexualidade são alguns dos pontos da vida e obra de Tom Zé analisados em “Vira lata na Via Láctea”.
O livro ainda terá um capítulo dedicado à experimentação musical, do qual a grande estrela é o LP “Estudando o samba”, que completou meio século este ano — e que mudaria (antes tardiamente do que nunca) a vida do artista.
— Mesmo tendo eu feito tanta coisa depois, esse disco continua sendo nuclear (na minha obra) — diz Tom Zé, que, já distante do sucesso dos tempos do Tropicalismo, fez no LP de 1976 um investimento radical de inventividade, com a proposta de mexer em um dos bastiões da cultura nacional (na capa, toda gráfica, cordas se entrelaçavam com arame farpado) e se viu diante do total insucesso, que se prolongou por anos (a ponto de ele pensar em deixar a música).
O cantor e compositor Tom Zé, em 1972
Anibal Philot
A gloriosa virada da história veio no fim dos anos 1980, quando o líder do grupo americano Talking Heads, David Byrne, estava no Rio para acompanhar a exibição, em um festival, do longa-metragem de ficção que havia dirigido, “True stories”.
— Ele entrou numa loja, aí viu esse disco. Não teve tempo de ouvir, só foi ouvir na casa dele. E ficou encantado — recorda-se Tom Zé, que mais tarde foi procurado por Byrne, com a proposta de lançar faixas daquele disco em uma coletânea por sua gravadora, a Luaka Bop, e enfrentou obstáculos. — Passei um telegrama para o diretor da Continental (gravadora de “Estudando o samba”) dizendo que o rapaz que ele tinha botado para tomar conta de discos estrangeiros estava criando dificuldades com o David Byrne, estava cobrando uma fortuna dele. Aí ele me respondeu muito carinhosamente: “Diga a ele que mande buscar o disco e pague o que quiser, quando quiser.”
Baseado em “Estudando o samba”, “Dói”, “Hein?” e uma recriação de “A felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes), “Brazil Classics 4: The Best of Tom Zé” (1990) se tornaria um dos maiores sucessos da Luaka Bop. E levaria Tom Zé a gravar “The hips of Tradition”, 1992; e “Fabrication defect (Com defeito de fabricação)”, 1998. Foi o empurrão para que ele virasse ícone global da música alternativa, com reflexos no Brasil, onde conquistou nova geração de ouvintes e entrou no cenário da indie MPB e de shows em festivais e casas de porte médio.
— As coisas acontecem porque faço um investimento muito devotado... aliás, devotado é uma palavra ótima para falar do jeito que trabalho — diz Tom Zé, que faz em média um show por mês e não para de compor. — Quem me alimenta são os jovens, as mensagens que recebo dão energia!
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A disciplina ajuda na rotina em casa, ao lado de Neusa, sua mulher há 56 anos: “acordo, trabalho até meio-dia, almoço, descanso um pouco, trabalho até de noite e aí durmo cerca de oito, nove horas.” Viagem longa de avião, ele não tem feito há uns seis anos. Um aparelho auditivo o auxilia nas conversas, ainda mais nos últimos dois anos, depois que ele teve traumatismo craniano por causa de uma queda em casa.
— Hoje, ele está ótimo — garante Neusa. — Os coágulos, que eram grandes, já diminuíram muitíssimo, estão voltando ao normal.
Tom Zé dá a receita.
— Faço ginástica para a cabeça não doer. Quando eu não faço, dói muito — diz.
Massagens, da medicina chinesa, também ajudam muito Tom Zé. O mundo oriental, da medicina, ginástica (tai chi chuan) e alimentação (macrobiótica) foi, por sinal, uma das maravilhas que descobriu quando se mudou para São Paulo, cidade que, hoje, conhece como poucos (“desde que eu vim morar aqui, São Paulo já se transformou em outra cidade umas três vezes”).
Nos últimos meses, Tom Zé vem relendo clássicos da literatura mundial porque, depois da pancada na cabeça, não se lembra de mais nada. Mas a maior parte do tempo é mesmo dedicada ao trabalho. Ele ainda toca violão e tem se dedicado dia e noite a aprontar o disco encomendado pelo Sesc para comemorar os 80 anos da instituição, no dia 13 de setembro.
Pelo Sesc, Tom Zé lançou seu álbum mais recente, “Língua brasileira” (2022, de canções para o espetáculo de mesmo nome, criado com o diretor Felipe Hirsch). Em outubro, sai também a gravação de um show de 1996, na série Relicário. E, mês passado, estreou no SescTV o doc “Todos os olhos”, de Jorge Brennand Junior, com depoimentos de artistas, músicos, intelectuais e familiares e, ao mesmo tempo, acompanhando as diferentes fases da carreira do artista.
Com seu violonista e produtor, Daniel Maia, o artista vem compondo as canções do novo disco, no qual pretende usar o hertzé (um precursor intuitivo do sampler), o enceroscópio e o buzinório, instrumentos pouco usuais que foi criando a partir dos anos 1970, usou no álbum “Jogos de armar” (2000) e depois ficaram anos esquecidos.
— Um dia a Neusa me deu uma enceradeira que estava emperrada, aí peguei uma enceradeira mais velha ainda que estava boa, funcionando bem, e comecei a botar o algodão dentro até ela começar a fazer a mesma coisa que a outra. E com isso fiz um instrumento de enceradeiras — conta Tom Zé, que se mantém animado com os palcos. — Ah, em show eu sinto que alguma coisa me pega e é outro mundo. Quando acaba é que eu vejo que “ah, eu tô aqui!”.
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Além do lançamento da biografia, Dunn é um dos que pensam em fazer uma grande festa para os 90 anos de Tom Zé, em São Paulo, com show e tudo a que ele tem direito — como a presença de amigos do baiano, como Byrne, Scaramuzzo e os compositores José Miguel Wisnik e Luiz Tatit. Já o aniversariante se diz, basicamente, feliz com o que já está por aí:
— Não tenho queixa de nada. Respeito, carinho, cuidado, atenção, isso tudo eu tenho.
