BC corta juros a 14,75%. Para analistas, Copom mostra cautela por causa da guerra
Após nove meses da Selic em 15% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) e reduziu a taxa básica de juros. Em meio às incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio, o comitê optou por um movimento cauteloso e aprovou um corte de 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.
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O Copom optou por não dar sinalização direta sobre seus próximos passos. Para especialistas, será preciso aguardar a ata da reunião. A cotação do petróleo tipo Brent, referência global, subiu na quarta-feira mais 3,8%, a US$ 107,38, e chegou a bater a marca de US$ 110 o barril com o agravamento do conflito. Desde o início da guerra, a alta do barril já chega a 50%.
Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, avalia que o Banco Central pode ter passado a mensagem de que a baixa de ontem foi só um ajuste no aperto monetário, não um início de um grande ciclo de queda:
— Talvez não esteja tão confiante na queda da inflação. Há um cenário local, em que a política monetária está fazendo efeito, mas de forma lenta.
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“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, disse o BC em comunicado.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, diz que o comunicado foi confuso diante de um cenário global também bastante confuso.
— O BC deixou em aberto o ritmo dos próximos cortes. Indica que deve continuar. Obviamente, tem incerteza. Deixa aberto se precisar parar, no caso de uma deterioração maior. Mas entendemos que, no atual cenário, deve dar um corte de 0,25 ponto (na próxima reunião). Se o conflito tiver resolução mais rápida, pode acelerar para 0,50 ponto.
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Para Marco Caruso, do Santander, “a ata (do Copom) será crucial, pois se caracterizar o choque como predominantemente transitório, a discussão sobre ritmo volta a ganhar tração”.
Copom considera que taxa a 15% cumpriu seu papel
É o primeiro corte da Selic em quase dois anos, desde maio de 2024. Também é a primeira baixa sob a presidência de Gabriel Galípolo, indicado por Lula para o cargo. Mesmo com a redução, a taxa segue muito elevada e é a maior desde agosto de 2006.
Segundo o comunicado, o BC julgou apropriado fazer o corte agora porque a manutenção da Selic em 15% por quase um ano teria cumprido seu papel.
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“O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta”, afirmou o BC.
Sobre a guerra, o Copom destacou que considera “em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil”.
A projeção oficial do BC para o terceiro trimestre de 2027, prazo com que trabalha atualmente para colocar a inflação na meta de 3%, subiu de 3,2% para 3,3%. Para o fim de 2026, a alta foi mais significativa, de 3,4% para 3,9%. Nesta semana, a projeção para o IPCA de 2026 na pesquisa Focus voltou a subir, passando de 3,91% para 4,10%. Para 2027, por enquanto, a estimativa se mantém em 3,8%.
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No comunicado, o BC ponderou que a incerteza acerca das projeções aumentou consideravelmente: “Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio (...). Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.”
Nova ação do Tesouro
A alta do petróleo ontem pressionou novamente as taxas de juros futuros. O Tesouro Nacional voltou a injetar liquidez no mercado, com a recompra de R$ 5,4 bilhões em títulos públicos. Mesmo assim, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,15% para 14,20%; a de janeiro de 2028 avançou de 13,67% para 13,75%; e a de janeiro de 2029 aumentou de 13,65% a 13,75%.
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O dólar subiu 0,9%, a R$ 5,24, influenciado pela decisão do Federal Reserve (o banco central dos EUA) de manter inalterada a taxa básica no país (leia abaixo). O Ibovespa caiu 0,43%, aos 179.640 pontos.
Para Sidney Lima, da Ouro Preto, a queda reflete “um ambiente externo ainda mais pressionado após o Fed revisar para cima suas projeções de inflação e manter os juros inalterados”:
— O mercado passa a adotar uma postura defensiva diante da sinalização de um Fed mais vigilante, o que fortalece o dólar globalmente.
