Um levantamento da BBC News Brasil identificou 33.866 votos para presidente registrados após as 17h de domingo (25/10), com a prorrogação da votação por duas horas. Isso representa 0,026% do total de 128.236.074 votos registrados no segundo turno da eleição, dos quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 64.256.232 e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 59.826.041.A diferença de votos que reelegeu Lula para um quarto mandato, em uma virada inédita em eleições presidenciais desde a redemocratização, foi de 4.401.534 votos em todo o país — a vantagem obtida pelo petista foi, portanto, 130 vezes o número de votos depositados após as 17h.A votação foi prorrogada das 17h, horário previsto para o fechamento das urnas, até às 19h por determinação do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal.Zanin tomou essa decisão a pedido de ambas as campanhas do PT e do PL, em meio a denúncias de que eleitores foram prejudicados pela falta de transporte público e pelas chuvas em diversos Estados.No entanto, a manifestação do ministro veio quando algumas urnas já haviam sido fechadas, e Zanin emitiu uma nova decisão complementar informando que seriam mantidas abertas apenas as urnas que não haviam sido fechadas, sem haver reabertura de urnas.A prorrogação da votação foi, depois do anúncio do resultado, apontada como motivo por Flávio Bolsonaro para contestar a vitória de Lula.
O senador disse que pedirá a anulação da eleição.O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Kássio Nunes Marques, afirmou, no entanto, que o adiamento do fim da votação não provocou nenhuma alteração na eleição.O levantamento da BBC News Brasil dos votos depositados após as 17h aponta neste mesmo sentido.
Nas cidades com mais eleitores de cada uma das cinco regiões, por exemplo, os votos após as 17h não chegaram a 0,11% do total.Em São Paulo, foram 4.446 (0,061%); em Salvador, 1.762 (0,107%); em Brasília, 975 (0,052%); em Manaus, 614 (0,050%); e em Curitiba, 139 (0,012%).Para contar os votos por horário, a BBC News Brasil analisou os arquivos públicos que funcionam como um diário das urnas: eles registram a hora de cada operação, incluindo a confirmação do voto para presidente.A quantidade de votos encontrada nesses registros foi comparada com os boletins de urna, os documentos que mostram o resultado final de cada seção eleitoral.A maior parte dos votos posteriores às 17h se concentrou nos primeiros minutos.Depois das 17h15, foram 3.850 votos; após as 17h30, 3.217; e depois das 17h45, 2.622.
Passadas as 18h, foram 1.993; após as 18h30, 697; e depois das 19h, 11. Os horários são os de Brasília.Análises semelhantes publicadas pela Folha de S.Paulo e pelo portal G1 chegaram a números próximos: 34.330 e 35.521 votos após as 17h, respectivamente, ambos na casa de 0,03% do total.
Os números podem variar, a depender do horário de corte usado na análise (17h ou 17h01, por exemplo).O impacto da prorrogação EPA Flávio Bolsonaro disse que vai pedir anulação da eleição Flávio Bolsonaro argumentou que a extensão teria criado uma desigualdade entre quem encontrou seções ainda abertas e quem chegou a locais onde as urnas já haviam sido encerradas.No entanto, o comando jurídico da campanha de Flávio também havia feito um pedido semelhante, solicitando a prorrogação do horário de votação em função de questões climáticas em algumas cidades.A decisão de Zanin, no entanto, veio após relatos de dificuldades de transporte em São Paulo e na Bahia.
A prorrogação acabou limitada às seções que continuavam abertas: as urnas já encerradas não foram reabertas.No Estado de São Paulo, a orientação chegou aos juízes eleitorais às 17h18. Naquele momento, cerca de 80% das seções do Estado já haviam fechado, informou o tribunal regional.
O TSE suspendeu o recebimento dos boletins e a divulgação dos resultados, retomados após as 19h.Na capital paulista, a Justiça Eleitoral havia determinado que os ônibus circulassem com a frota usada em dias úteis regulares. Aliados de Lula acusaram a Prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) de oferecer transporte insuficiente.
O prefeito negou redução e afirmou que havia mais ônibus do que a demanda.Nas urnas da capital paulista, a BBC News Brasil identificou 4.446 votos para presidente depois das 17h, ou 0,061% dos 7.284.071 registrados ao longo do dia.Em Salvador, o Procon-BA informou ter encontrado 544 ônibus parados em cinco garagens, após denúncias de eleitores que enfrentaram dificuldades para chegar aos locais de votação.O TRE-BA determinou a volta da frota integral às ruas, com frequência equivalente à de dias úteis e gratuidade, além da prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza.A Prefeitura atribuiu os atrasos à retirada de adesivos eleitorais dos veículos e afirmou ter mandado liberar os ônibus, inclusive os que ainda estivessem adesivados.
A ordem de prisão foi revogada nesta segunda-feira (26), após o encerramento da votação. A investigação sobre a redução da oferta de transporte foi mantida.Um estudo de Igor Novaes Lins, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), encontrou uma queda maior na presença de ônibus perto das moradias mais pobres da cidade de São Paulo.Usando registros de GPS da SPTrans, ele comparou os mesmos horários do domingo da eleição e do sábado anterior, até as 14h.
No quinto mais pobre da população, a redução foi de 18,1%, ante 10,6% no quinto mais rico.Ao final do segundo turno, o comparecimento no Brasil, sem o exterior, foi de 127,85 milhões de pessoas — 2,92 milhões a mais do que no primeiro turno. A abstenção caiu de 20,84% para 18,99%, a maior redução desde a redemocratização.Este foi um dos fatores apontados por analistas como cruciais para a vitória de Lula, junto com a reorganização da campanha no segundo turno, a mobilização online e nas ruas e o aumento da rejeição de Flávio, que cometeu erros nesta segunda etapa que também contribuíram para sua derrota.
Correio Braziliense