BB prevê piora da inadimplência no cartão no 2º tri com crise no agro atingindo pessoa física, mesmo com Desenrola 2.0
A piora da carteira de crédito do agronegócio passou a afetar também as operações do Banco do Brasil (BB) com pessoas físicas, levando a instituição financeira a reforçar reservas para perdas e prever aumento da inadimplência neste segundo trimestre, principalmente no cartão de crédito, mesmo com o Novo Desenrola Brasil, o novo programa de renegociação de dívidas do governo federal.
Ao comentar os resultados do primeiro trimestre, que levaram a um recuo na lucratividade do banco, executivos do BB afirmaram hoje que produtores rurais com dificuldades financeiras passaram a pressionar também linhas de varejo, como cartão de crédito e empréstimos pessoais. Isso ocorre porque muitos clientes do agro concentram toda a sua vida financeira no Banco do Brasil.
— O efeito é de outras operações que esses clientes do agro têm, uma vez que eles mantêm a principalidade conosco — afirmou Felipe Prince, vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Risco (CRO) do banco.
Cartão de crédito deve puxar alta da inadimplência
Segundo Prince, o banco já identificou operações de pessoas físicas ligadas a clientes do agronegócio com maior risco de atraso nos pagamentos. Embora grande parte dessas dívidas ainda não tenha ultrapassado 90 dias de atraso — indicador usado pelo mercado para medir inadimplência mais grave — o banco decidiu aumentar preventivamente as provisões, dinheiro separado para cobrir possíveis calotes.
— Muito embora elas ainda não tenham impactado o ECR 90 (indicador de operações com atraso no pagamento acima de 90 dias), acreditamos que parte delas vá atrasar e, por isso, reforçamos as provisões nesse portfólio — disse Prince.
Cartão de crédito é o que mais preocupa
O banco afirmou ainda que o comportamento de pagamento piorou principalmente nas operações de cartão de crédito, consideradas mais sensíveis ao cenário econômico atual.
— Observamos uma piora no comportamento, principalmente do nosso cliente de cartão de crédito. O cliente que tem menos resiliência ao cenário econômico. Vai afetar a inadimplência, principalmente cartão de crédito, no segundo trimestre de 2026 — afirmou o executivo.
A expectativa da instituição é de que a inadimplência continue aumentando entre abril e junho, mas comece a desacelerar a partir do terceiro trimestre com os efeitos do programa Desenrola, criado para renegociação de dívidas.
— Esperamos uma piora no próximo trimestre por causa do cartão de crédito, mas prevemos um arrefecimento da inadimplência a partir do terceiro trimestre por causa do Desenrola — disse Prince.
Indicadores de crédito pioram no trimestre
Os números do primeiro trimestre, divulgados ontem, já refletem o aumento da pressão sobre a carteira de crédito. A inadimplência da carteira de pessoa física subiu 0,9 ponto percentual na comparação entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre deste ano. Em relação ao mesmo período do ano passado, a alta foi de 2 pontos percentuais.
Considerando toda a carteira de crédito do banco, o índice de atrasos acima de 90 dias subiu de 3,63% para 5,05% nos três primeiros meses do ano.
O aumento da percepção de risco levou o banco a ampliar fortemente as chamadas Provisões para Devedores Duvidosos (PDD), valor reservado no balanço para cobrir possíveis perdas com clientes inadimplentes. Essas provisões cresceram 85,8% no período, chegando a R$ 18,9 bilhões em março.
Lucro cai mais de 50%
A piora da qualidade do crédito também afetou diretamente a rentabilidade do banco. O Banco do Brasil reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 53,5% em relação ao mesmo período do ano passado.
Outro indicador pressionado foi o retorno sobre patrimônio líquido (ROE), métrica usada para medir a capacidade de uma empresa gerar lucro a partir do capital dos acionistas. O índice caiu para 7,3% no trimestre.
— Ele é muito fruto desse agravamento do risco, principalmente na carteira rural e também um pouco agora, prudencialmente, na carteira de pessoa física — afirmou Geovanne Tobias, vice-presidente do banco.
Banco espera melhora gradual
Apesar da deterioração no curto prazo, os executivos afirmaram esperar melhora gradual da qualidade do crédito nos próximos trimestres, principalmente no agronegócio.
O banco projeta que o custo do risco da carteira rural, indicador que mede quanto a instituição perde com inadimplência, recue para cerca de 4% no segundo semestre de 2026 e para 2% no médio prazo.
Durante teleconferência com analistas, o Banco do Brasil também afirmou que vem adotando uma postura mais seletiva na concessão de crédito, com análises mais rígidas e maior monitoramento do fluxo de caixa dos clientes.
A instituição ainda disse que pretende manter sua política de distribuição mínima de 30% dos lucros em dividendos e descartou, neste momento, uma eventual venda de subsidiárias.
