US$ 500 bilhões viraram pó na quinta-feira, quando as ações da Alphabet, controladora do Google e YouTube, despencaram mais de 13% na bolsa. Foi a maior queda da história da ação em um único dia, desde que a empresa abriu o capital em 2004.
O motivo da queda foram os resultados decepcionantes reportados na quarta-feira. A controladora do Google reportou vendas de US$ 111,2 bilhões no terceiro trimestre, número abaixo da expectativa de mercado.
A receita de publicidade em Buscas e outros canais, a linha de negócio que responde por quase metade do faturamento total, também ficou abaixo das estimativas e cresceu no ritmo mais lento em cinco trimestres. No primeiro trimestre deste ano, o crescimento foi de 19%; no segundo trimestre, 17%; neste, ficou em 12%.
Para piorar, o fluxo de caixa livre da gigante teve um resultado negativo de US$ 9,1 bilhões. Neste ano, o Google prevê gastar entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões no desenvolvimento de infraestrutura de IA, principalmente chips e data centers, então a desaceleração da receita coloca em xeque a capacidade da empresa de concorrer em IA, e até mesmo, de sustentar a aposta,
O diretor de negócios do Google, Philipp Schindler, afirmou na teleconferência de resultados com investidores que a popularidade crescente do Modo IA, nova aba da Busca do Google, pesou nos resultados da empresa. As consultas feitas com IA têm "monetização menor", disse Schindler.
Mas o executivo destacou que a empresa está otimista e planeja levar mais anúncios para o Modo IA, desta forma compensando a queda. Desde 2022, com o lançamento do ChatGPT, da OpenAI, os executivos do Google defendem que a empresa estaria bem posicionada para concorrer no mercado de chatbots e IA.
Mas a desaceleração de linhas relevantes de receita, como Buscas, parece apontar para uma realidade diferente. Neste ano, o ChatGPT começou a vender publicidade e mais de 100 mil anunciantes já aderiram à plataforma.
A OpenAI prevê receita anualizada de US$ 1 bilhão com publicidade. Assim como no Google, os crescentes custos com inteligência artificial preocupam os investidores da Meta.
Na segunda-feira, a empresa lançou uma oferta de US$ 35 bilhões em ações para bancar sua expansão em inteligência artificial (IA). As novas ações dividem os lucros futuros da Meta entre mais donos e encolhem a fatia de cada acionista atual.
A Amazon cai forte nesta sexta-feira após reportar lucro e receita do terceiro trimestre abaixo das expectativas de Wall Street e manter a projeção de gastar US$ 220 bilhões de Capex, majoritariamente em IA, em 2026. Os gastos agressivos consumiram o caixa, e a empresa registrou saída líquida de US$ 42,4 bilhões no trimestre.
No domingo, em seu discurso de vitória, Lula criticou uma possível interferência de plataformas digitais durante as eleições, reafirmando também a promessa da gestão anterior de trabalhar pela regulação das gigantes de tecnologia. “Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais.
E nós vamos ter que regulá-las”, afirmou o presidente em seu discurso. “Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real.
Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral”, acrescentou. “Sobre a influência das plataformas nas eleições, sabemos que teve”, diz Marie Santini, diretora do NetLab, da UFRJ.
“Sabemos que as plataformas não se comportaram adequadamente e não cumpriram o compliance com o TSE. O TSE pediu, por exemplo, que não fossem recomendadas páginas de políticos oficiais cadastrados no TSE para usuários que não seguem essas páginas.
Fizemos testes e publicamos um relatório mostrando que estavam recomendando. Continuaram veiculando anúncios dentro do período de resguardo eleitoral e encontramos anúncios comprados fora do Brasil.
Tivemos vários indícios de assimetria de tratamento entre as campanhas”, acrescenta. Regular as redes sociais é um desejo antigo de Lula.
O problema é que, apesar dos esforços nos últimos anos, particularmente em torno do PL 2630/2020, apelidado de “PL das Fake News”, o governo nunca conseguiu superar a resistência do lobby das empresas de tecnologia, capitaneadas pelo Google e a Meta. Apresentado no Senado por Alessandro Vieira e aprovado pelos senadores em 2020, na Câmara, sob relatoria de Orlando Silva (PCdoB-SP), virou uma proposta ampla de regulação das plataformas digitais, que inclusive regulava conteúdos ilegais, como ataques ao Estado democrático, além de exigir relatórios de transparência e regras para publicidade e impulsionamento.
Em maio de 2023, sob forte campanha contrária do Google e da Meta, alinhados com os políticos de direita na Câmara, que alegavam risco de censura, a votação foi retirada de pauta. Arthur Lira, na época presidente da Câmara, criou um grupo de trabalho para tratar do tema, mas nada avançou.
Como o Congresso não resolveu a questão, em junho de 2025, o STF declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. Com isso, as plataformas passaram a responder pelos conteúdos ilícitos depois de uma notificação extrajudicial, salvo nos crimes contra a honra, que ainda exigem ordem judicial.
O governo trocou o 2630 por projetos fatiados, sendo um de dever de cuidado, sem o tema da desinformação e outro de concorrência nos mercados digitais, sob a supervisão do Cade, que aguarda votação na Câmara. Até dias atrás, em vista das crescentes chances de vitória de Flávio Bolsonaro, ninguém acreditava que a regulação das big techs fosse avançar.
A família Bolsonaro historicamente se opõe à regulação das redes, a exemplo do presidente Donald Trump. Uma barreira ainda maior que o lobby da Meta e Google no Brasil para regular as plataformas é a influência do governo americano.
Não custa lembrar, Trump e as lideranças do Vale do Silício mantêm uma proximidade raramente vista. Mark Zuckerberg, CEO da Meta; e Sundar Pichai, CEO do Google, a exemplo de outros bilionários do setor de tecnologia, são presença constante nos eventos da Casa Branca.
A Meta e o Google também estão na lista de doadores de Trump. Outro doador que resiste a qualquer forma de regulação é Elon Musk.
Ele é o homem mais rico do mundo e maior doador individual do ciclo eleitoral nos Estados Unidos. O fundador da Tesla e SpaceX doou US$ 446 milhões aos republicanos do partido de Trump apenas neste ano, segundo dados da Comissão Eleitoral Federal (FEC).
Além de homem mais rico do mundo, também é o maior doador individual da história. Em 2024, Musk acusou o ministro Alexandre de Moraes de censura e ameaçou descumprir as ordens do STF de derrubar perfis investigados nos inquéritos das milícias digitais e dos atos golpistas.
Musk é dono do X, antigo Twitter. Moraes respondeu incluindo Musk como investigado.
Em agosto, o X fechou o escritório no Brasil e ficou sem representante legal. Como resposta, Moraes então mandou bloquear a rede e congelou as contas da Starlink para garantir o pagamento das multas.
Musk acabou cedendo e nomeou representante, removeu os perfis indicados, como o de Allan dos Santos, e pagou R$ 28,6 milhões em multas. A plataforma voltou ao ar depois de 39 dias fora.
Em 2025, o governo Trump sancionou Moraes pela Lei Magnitsky, e Musk segue atacando o ministro nas redes, inclusive levantando dúvidas (sem provas) sobre o resultado das eleições presidenciais deste ano. Já a Starlink, dias atrás, virou alvo de um debate sobre soberania tecnológica.
Musk mandou cortar a velocidade da versão militar do Starlink na Ucrânia, onde as forças armadas do país usam o serviço para coordenar drones e comunicações, além de enviar alertas para a população contra ataques de mísseis da Rússia. Putin, que nesta semana chamou Musk de gênio, também passou a desenvolver a própria rede de satélites para internet da Rússia.
A Europa também acelerou seus planos de lançar um concorrente do Starlink e reduzir a dependência da empresa de Musk. Ou seja, desenvolver uma IA brasileira e uma infraestrutura tecnológica nacional podem ser ideias menos estapafúrdias do que parece.
Em um mundo no qual a tecnologia tem sido usada para coagir adversários, independência garante soberania. A boa notícia para Lula e sua ambição de regular as plataformas é que as eleições e a ida de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos mostraram que o tema soberania nacional se tornou uma pauta mais relevante para os brasileiros.
A ameaça americana de combate ao Pix desagradou os eleitores. O sistema de pagamentos brasileiro foi um dos argumentos usados pelo governo americano para impor o aumento de tarifas ao Brasil neste ano.
O tema foi amplamente usado na campanha eleitoral. Janones, o Exército do Lula e a nova capacidade de mobilização da esquerda no digital podem se tornar trunfos em uma nova tentativa de regular as gigantes de tecnologia.
O Partido Liberal (PL) terá a maior bancada no Senado e na Câmara, o que pode dificultar a aprovação de qualquer legislação. Mas a derrota de Flávio Bolsonaro, candidato do partido, e sua surpreendente mudança para os Estados Unidos, podem enfraquecer a coordenação de um partido que é bem menos coeso do que pode parecer.
Ou seja, com uma campanha efetiva sensibilizando a população sobre os danos causados pelas redes sociais à sociedade, a exemplo do que aconteceu com a votação da Escala 6x1, o PL e a direita podem ser forçados a votar mesmo desconfortáveis. O fato da própria esquerda poder utilizar artimanhas nas plataformas deveria ser um incentivo.
“Agora há uma mobilização grande da sociedade, porque todo mundo assistiu ao que aconteceu, especialmente com a Meta. Mas foram todas as plataformas: Google, TikTok, nenhuma delas cumpriu o que deveria ter cumprido”, diz Santini.
“É um momento bom. O discurso da transparência ganhou mais peso e ficou mais evidente para as pessoas por que isso é importante e como pode afetar a vida delas.
Não só a vida política, as escolhas, a democracia”. Santini não espera que Lula possa contar com o Congresso Nacional para votar um projeto de lei nesses dois meses e acredita que a próxima leva de congressistas será ainda mais resistente à regulação das redes.
“O Congresso que virá vai ser pior ainda. É um Congresso suscetível ao lobby das plataformas, um Congresso mais à direita.
Acho difícil. Mas acredito que a MP das Bets, por exemplo, mostrou que o governo pode lançar mão de algumas estratégias, como a medida provisória, para pelo menos exigir dessas plataformas transparência de dados, de publicidade e de recomendação algorítmica”, conclui Santini.
Em seu discurso da vitória, Lula também falou sobre a intenção de atrair data centers, mas com contrapartidas para o país e o desenvolvimento de inteligência artificial nacional. E estas podem ser boas contrapartidas para o governo brasileiro.
Para Google, Meta e demais big techs, a IA é a aposta mais importante. Vencer essa corrida se tornou questão de sobrevivência.
Logo, devem estar mais abertos a barganhar concessões em seus negócios atuais para não perderem oportunidades com a IA. Em 2023, tinham mais a perder do que a ganhar aprovando a regulação das redes, que diminuiria a receita com anúncios fraudulentos, por exemplo.
Para o Brasil, instalar um data center ou usar IAs chinesas ou americanas não é praticamente indiferente. O governo brasileiro também não parece disposto a repetir os erros cometidos no passado com as redes sociais.
O equívoco foi imaginar que gigantes de tecnologia colocariam a defesa da democracia, a ética e a proteção de crianças antes dos lucros. Regular as gigantes de tecnologia no Brasil parece improvável.
Mas dias atrás, Lula em um quarto mandato também parecia inimaginável. Subestimar Lula e os brasileiros pode ser um erro.
Valor