André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, resolveu enfrentar um dos maiores tabus da economia brasileira: a política de juros do Banco Central. A reação foi imediata.
Bastou apresentar uma proposta de redução gradual da Selic para que gestores de grandes bancos e economistas ligados ao mercado financeiro começassem a apontar riscos de fuga de capitais, desvalorização cambial e inflação. A comparação com a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan apareceu rapidamente.
Mas será que estamos falando da mesma coisa? Na Turquia, Erdoğan pressionou o Banco Central a reduzir os juros em meio a uma inflação elevada, sustentando que juros altos eram responsáveis pela própria inflação.
O resultado foi desastroso: desvalorização da lira, perda de confiança e uma escalada inflacionária. André Lara Resende apresenta outro diagnóstico.
Para ele, os juros brasileiros atingiram um patamar tão elevado que passaram a alimentar o próprio desequilíbrio fiscal que supostamente deveriam combater. É uma discussão que o Brasil não pode continuar evitando.
Segundo os números apresentados na reportagem da Folha de S.Paulo, o custo médio da dívida pública chegou a 12,68% ao ano. Sobre uma dívida bruta de aproximadamente R$ 10,9 trilhões, isso representa uma conta teórica de quase R$ 1,4 trilhão em juros anuais.
Não se trata de uma despesa qualquer. Estamos falando de recursos equivalentes a várias vezes o orçamento federal da educação.
Enquanto isso, economistas defendem cortes de despesas, contenção de investimentos e novos sacrifícios fiscais. Mas quem propõe enfrentar o custo financeiro da dívida imediatamente encontra resistência.
Lara Resende sugere uma nova coordenação entre as políticas fiscal e monetária, com redução gradual da Selic até 7,5% em doze meses. A proposta merece exame rigoroso.
É evidente que não se pode simplesmente determinar juros baixos por decreto, ignorando inflação, câmbio e expectativas. A experiência turca está aí para demonstrar os riscos.
Mas também não podemos aceitar que qualquer tentativa de discutir a política monetária seja tratada como uma ameaça à estabilidade econômica. O Brasil precisa responder a uma pergunta fundamental:
Os juros são tão elevados porque a dívida pública é excessiva ou a dívida cresce também porque os juros são excessivos? Provavelmente, os dois fenômenos se alimentam.
O desafio é romper esse círculo sem comprometer a estabilidade da moeda. André Lara Resende não é um aventureiro.
Participou da construção do Plano Real e conhece profundamente os mecanismos da política monetária. Suas propostas podem ser contestadas, mas precisam ser enfrentadas com argumentos, não com alarmismo.
A independência do Banco Central não pode significar que suas decisões estejam acima do debate público. Afinal, a conta dos juros não é paga apenas pelo Tesouro Nacional.
É paga por toda a sociedade brasileira. O verdadeiro risco é transformar uma política monetária excepcionalmente restritiva em uma condição permanente, sem discutir seus custos econômicos e sociais.
O Brasil não precisa repetir a experiência da Turquia. Mas também não pode continuar acreditando que juros elevados são a única resposta possível para todos os seus problemas.
Brasil 247