Barreto: ao contrário de Messi, Cristiano Ronaldo não se sente pronto para deixar de ser protagonista e virar só na memória

Barreto: ao contrário de Messi, Cristiano Ronaldo não se sente pronto para deixar de ser protagonista e virar só na memória - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Sempre imaginei como seria quando eu parasse de jogar bola. Até que um dia parei.

A pandemia foi o golpe de misericórdia, interrompendo duas vezes a pelada no Clube dos Macacos. A turma voltou e ela existe até hoje, mas eu fiquei pelo caminho.

Há um tempo já tinha percebido que a relação custo-benefício estava ruim: as dores com que voltava para casa na terça-feira à noite só iam embora lá pela tarde de sexta — e o esforço que me deixava nessa situação não era para ser o craque da noite, e sim, no máximo, para não passar vergonha.

Hoje, repito a quem me pergunta se pendurei mesmo as chuteiras que foi o futebol que me abandonou. Normalmente, consigo um sorriso e algumas palavras de apoio em troca e me dou por resolvido.

Talvez esteja mesmo. Já nem sonho mais que estou em algum campo do passado, como o do Esporte Clube Biquense ou o da AABB de Bicas, como acontecia com frequência.

Sempre que me imaginava parando de jogar bola, pensava em como seria parar de jogar futebol — o que é outra coisa completamente diferente, aquela que os atletas fazem. E esta semana, do conforto da minha aposentadoria das peladas, vi os dois maiores da nossa época viverem essa perspectiva de forma bem diferente.

Messi aceitou que é hora de ir embora — pelo menos da seleção. Já foi campeão mundial, disputou sua terceira final de Copa como protagonista.

Chegou bem perto daquilo que jogadores de futebol passam a carreira com vontade de dizer (e às vezes dizem, num domingo glorioso, para serem desmentidos na quarta-feira seguinte): não tenho de provar mais nada a ninguém. Mesmo assim, entrou em campo nervoso para a festa de despedida.

Graças à nova realidade das Datas Fifa, o adversário era o mediano e cansado Benin, que viajou 25 horas para viver esse privilégio. Também por isso, fazer um gol parecia uma obrigação.

O homenageado se frustrou quando não acertou um chute de fora da área no começo (se a bola entrasse, a pressão iria logo embora), demonstrou esperar que Nico Paz lhe devolvesse um passe em vez de finalizar e marcar. E foi flagrado com cara de tensão quando se preparava para bater o pênalti que resolveria a situação.

Será que se lembrou dos dois que perdeu na Copa? O fato é que optou por uma cobrança segura, no alto, e comemorou com um misto de alívio e alegria. Já Cristiano Ronaldo foi embora da concentração por não querer ir embora da seleção.

Sem entrar no mérito de quem está certo e errado na disputa entre ele e Jorge Jesus, a partida abrupta em meio aos jogos da Liga das Nações passou o recado de que, ao contrário de Messi, Ronaldo não se sente pronto para deixar de ser protagonista e passar a ídolo só na memória. Talvez seja o gol mil que ainda não saiu e ficaria mais especial se marcado por Portugal.

Pode ser questão de ego, claro. Mas não custa dar o benefício da dúvida: quem sabe seja só a dificuldade humana de dizer adeus?

Daqui a pouco vai ser a vez de Marta. Na última Copa do Mundo, deixada no banco por Pia Sundhage enquanto a seleção se despedia melancolicamente, na primeira fase, sem conseguir fazer um gol na Jamaica, parecia que seria triste.

Mas o mundo gira e outra chance está chegando — no Brasil! Vou torcer para que o adeus da Rainha seja bem resolvido como o de Messi, e não hesitante como o de Cristiano.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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