Barcas encalhadas na Barra: entraves ameaçam plano de transporte de passageiros
O plano da prefeitura do Rio, por meio de uma concessão pública, de criar linhas de barcas pelas lagoas da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, como mais uma opção de transporte para os moradores da região, enfrenta um impasse. O contrato assinado com o Consórcio Lagunar Marítimo, que ganhou o direito de explorar o serviço por 25 anos, prevê que a empresa aporte R$ 101,6 milhões para adquirir embarcações e construir píeres de atracação e estações. Mas estudo apresentado pela concessionária ao município prevê que serão necessários ao menos mais R$ 300 milhões para remover obstáculos que não foram levados em consideração durante o processo.
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O relatório obtido pelo GLOBO lista uma série de entraves ignorados no edital. O documento da concessionária apresenta o que define como passivos ambientais. O texto relata a existência de pontes na Avenida Ayrton Senna que precisam ser elevadas porque são tão baixas que não permitem a travessia de barcos. Há necessidade, ainda, de realocar uma ciclovia, três casas em Rio das Pedras, outras 20 residências na Gardênia Azul e desapropriar um posto de gasolina no Jardim Oceânico. Só em obras de dragagem, para que os barcos não atolem em bancos de areia, o aporte pode passar de R$ 200 milhões.
O projeto foi concebido para transportar de 85 mil a 90 mil pessoas por dia entre shoppings, condomínios, terminais de ônibus e o metrô (Estação Jardim Oceânico). Os passageiros teriam uma alternativa mais rápida de deslocamento pela Barra e bairros vizinhos, fugindo de congestionamentos. No horário de rush, uma viagem entre Cidade de Deus e Jardim Oceânico, que de carro pode levar mais de uma hora, por barco poderia ser feita em 20 minutos.
O documento foi entregue para análise da Companhia Carioca de Parcerias e Concessões (CCPAR) no início do ano. Em nota, a prefeitura limitou-se a informar que o projeto “encontra-se na fase de estudos iniciais, conforme previsto em contrato”.
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Oito serviços opcionais
A concessão prevê que, até 2028, a empresa implante cinco terminais obrigatórios, seis estações e oito linhas. O edital sugere oito serviços opcionais, incluindo uma operação com balsas para atender à Ilha da Gigoia e serviços expressos, um deles conectando o Condomínio Península ao metrô, no Jardim Oceânico.
A empresa também tem autonomia para definir roteiros. No fim do ano passado, quando ainda elaborava o relatório, chegou a anunciar planos para antecipar o início das operações para agosto deste ano.
A ideia era criar um serviço experimental na Lagoa de Marapendi, que não está tão assoreada, com conexões entre o Condomínio Alfa Barra, shoppings e a Linha 4 do metrô, no Jardim Oceânico. Mas o projeto não foi à frente. O maior obstáculo era a conexão com a Linha 4: o terreno previsto para a implantação do terminal das barcas é ocupado pelo posto.
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Enquanto o impasse financeiro não é definido, a empresa já adiantou outras frentes do contrato. Uma delas foi a escolha do escritório de arquitetura que vai desenvolver as estações.
O presidente do Consórcio Lagunar Marítimo, Nelson Florentino da Silva Filho, reafirmou o interesse de levar o projeto à frente e afirmou que o documento obtido pelo GLOBO é o mesmo que protocolou na CCPAR:
— A necessidade dessas intervenções não era prevista nos estudos de viabilidade. Essa demora da prefeitura para avaliar o que consideramos passivos ambientais já seria motivo de reivindicarmos uma rescisão do contrato. Mas fechamos um compromisso com a população, acreditamos no projeto e queremos implantar o serviço — disse Nelson.
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No documento, a empresa detalhou os custos com base em uma matriz de risco prevista no contrato de concessão. À prefeitura caberia, por exemplo, gastar R$ 45 milhões para elevar duas pontes, uma delas a Plácido de Castro (sentido Alvorada), e alterar o traçado de uma ciclovia, todas na Avenida Ayrton Senna, sentido Barra. A intervenção seria necessária para tirar do papel uma das principais estações, a Linha Amarela, que teria entre os usuários moradores da Gardênia Azul.
Além disso, será necessário um acordo com a concessionária Iguá para remanejar uma adutora vizinha à ponte Plácido de Castro, existente no mesmo trecho. A Iguá não se manifestou.
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Custo de dragagem
No documento, a empresa indica que os maiores aportes extras seriam dela. Apenas o custo de dragar 5,6 milhões de metros cúbicos de sedimentos, necessários para criar canais navegáveis para as embarcações, é estimado em R$ 220 milhões. O custo não pode ser dividido com a Iguá, que tem a concessão do saneamento da Barra e Jacarepaguá, porque, pelo contrato com a Cedae, essa não é uma área prevista para intervenções. A empresa também cita como gastos adicionais a necessidade de fazer um monitoramento permanente da qualidade da água, hoje contaminada por bactérias tóxicas, devido ao despejo irregular de esgoto.
— Sinceramente, estou pessimista, embora ache que seria bom não apenas para moradores, mas para estimular o turismo — diz Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra, entidade que representa os condomínios da região. — Essa é uma promessa antiga que até agora não vingou. Enquanto isso, o trânsito na região vem piorando cada vez mais, e é claro que seria ideal ter opções para se deslocar. Na altura do Freeway (Avenida das Américas), por exemplo, a lâmina d’água não passa de 20 centímetros — acrescentou Delair Dumbrosck.
Na concessão, a prefeitura previu que o sistema será integrado ao Jaé, com as regras do bilhete único. As passagens custariam R$ 5, mesmo valor dos ônibus. Mas, mesmo que todas as dificuldades técnicas sejam superadas, a implantação das linhas não é garantia de que o sistema dará certo, na avaliação do engenheiro especializado em transportes Marcus Quintella, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
— Ligação por barcas é um serviço complementar, que exigirá integrações, por exemplo, com o metrô, que custa R$ 7,90. Se um grupo de pessoas se juntar, sai mais barato pegar um carro de aplicativo, mesmo ficando no trânsito. É preciso ter uma tarifa mais em conta, porque geralmente o usuário vai optar pela alternativa que pesa menos no bolso — disse Quintella.
O plano para o projeto aquaviário da Barra vem enfrentando percalços desde 2023, quando foi anunciado. Em uma primeira tentativa de licitação para operar o serviço por 12 anos, não apareceram interessados. Em 2024, o edital foi republicado, estendendo o prazo para 25 anos. Apenas o Consórcio Lagunar Marítimo se interessou. A prefeitura declarou a empresa vencedora em julho daquele ano. Mas, por problemas burocráticos, o contrato só foi assinado em outubro de 2025.
Outro projeto do município previa a implantação de uma ligação regular de barcos entre os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim. Mas foi arquivado por falta de interessados, depois que ninguém apareceu em uma primeira convocação.
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