Barbárie em Copacabana: vizinhos lembram infância feliz e talento para desenhar e cantar raps de vítima de linchamento - QTU Questões do Universo

Barbárie em Copacabana: vizinhos lembram infância feliz e talento para desenhar e cantar raps de vítima de linchamento

Fonte: Bandeira da fonte

Subir e descer correndo a escadaria da vila onde morava, em Botafogo, na Zona Sul, era uma das brincadeiras preferidas de Cláudio Rafael Landeiro Moreira quando tinha sete anos.
Apaixonado pelo Bart, de "Os Simpsons", e loirinho como o personagem na época, acabou herdando o apelido.
Extrovertido, era presença garantida nas festas infantis da vizinhança, sempre ao lado das irmãs — Fabiana, a caçula, e Nathália, a mais velha.
Cláudio Rafael foi linchado após ser confundido com um ladrão de bicicleta.
Ele morreu na madrugada do último dia 12.
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A vizinha Genuína da Silva, de 52 anos, abre uma caixa e retira, com cuidado, fotos coloridas em papel, envoltas em plástico, guardadas como um tesouro daquele passado.
— É essa a lembrança que vou guardar dele.
Ele e a Fabiana vinham para cá e ficavam brincando com o meu filho.
Jogavam videogame, viam TV juntos.
O Rafael tinha talento para desenhar, era muito bom mesmo.
O que fizeram com ele foi uma covardia — conta Genuína, ao relembrar as cenas do espancamento de Cláudio Rafael, flagradas por câmeras de segurança de um prédio em Copacabana e exibidas pela TV.
A vizinha não esconde a revolta ao lembrar a cena de barbárie:
— Essas pessoas deveriam passar pelo mesmo que fizeram com ele.
Ele não fazia mal a ninguém, e mesmo que tivesse roubado alguma coisa, não merecia isso.
Todo mundo aqui pelas redondezas conhecia o Rafael.
Depois que caiu do telhado na adolescência, ele passou a ter transtornos psicológicos.
Ficou introvertido, parou de falar com as pessoas.
Perdeu a noção das coisas.
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Outro vizinho, o estudante Guilherme, que não quis dar o sobrenome, só cruzou com ele três vezes na vila, mas guarda a lembrança de vê-lo perambulando pelo campus da UFRJ, na Praia Vermelha:
— Era um andarilho — resume.
Um dos seguranças flagrado no linchamento de Cláudio Rafael foi preso na noite desta quinta-feira e levado para 12ª DP (Copacabana)
Alexandre Cassiano
Elizabeth Christina Rojtemberg, amiga de Ana Luíza Landeiro, de 64 anos, mãe de Cláudio Rafael, levou um susto ao saber da morte trágica do rapaz pela própria neta.
— Minha neta me ligou e disse: "Vó, o Bart foi assassinado." Eu perguntei que Bart era esse, pois não sabia que esse era o apelido dele, e ela respondeu: "Rafael." Senti como se fosse meu próprio filho.
Ele era um rapaz tranquilo, fazia música, rap, na verdade.
Saía sempre apressado dizendo que ia produzir o programa dele na internet.
Cantava muito bem, tinha voz de locutor de rádio, forte, potente.
Eu vivia dizendo que ele deveria seguir essa profissão — relembra Elizabeth.
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Segundo a amiga da família, Cláudio Rafael também tinha um amor especial por animais.
— Vivia grudado num cachorro na adolescência.
Sofreu muito quando o bicho morreu — era muito sensível.
Percebi que andava deprimido ultimamente.
Não tive coragem nem de ir ao enterro.
Ele era muito querido por aqui, todo mundo gostava dele — desabafa Elizabeth.
Cláudio Rafael tinha saído para passear com a bicicleta da irmã Fabiana emprestada e parou em frente a um edifício, onde ficou sentado até ser agredido por quatro homens.
Um dos agressores usava um porrete, conforme mostram as imagens das câmeras de segurança do prédio que flagraram o crime.
Foram 57 pauladas em seis minutos de barbárie.
Ele seria segurança da região e se entregou na 53ª DP (Mesquita) e levado preso para a 12ªDP (Copacabana), que investiga o caso.

— Quando o vi ali sentado, ao assistir às imagens pela TV, me lembrei que ele costumava ficar assim mesmo, em frente à sinagoga aqui de Botafogo.
Ele fica com os olhos vidrados.
Estava atônito, dá pra perceber.
Não tinha noção do que estava acontecendo Tanto que tentava se levantar toda hora — comentou outro vizinho, que preferiu não se identificar.