Barão Vermelho: integrantes originais correm o país com a turnê Encontro: ‘Repertório volta muito fácil’, diz Frejat

 

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Olhar para os garotos na capa de “Barão Vermelho” (LP de estreia do grupo, lançado em 1982) tem o efeito de abertura de comportas para as memórias de quatro dos cinco músicos ali retratados, hoje todos com mais de 60 anos de idade.

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— A gente pensava em fazer shows, e aí acabou indo parar nesse lugar aí, com um contrato, gravando músicas próprias e tudo. Foi uma viagem — suspira Roberto Frejat, o guitarrista, que assumiu os vocais do Barão com a saída de Cazuza e que ocupou a dupla função (e a liderança) na banda até 2013 (dois anos depois, ele anunciaria sua saída do Barão, para cuidar em tempo integral de sua carreira solo).

Já o baixista Dé Palmeira (o mais novo da turma, que tinha 15 anos quando gravou o primeiro LP do Barão, e que deixou a banda em 1990) lembra bem de quando o telefone de casa tocou e era Frejat, dizendo que eles iam gravar um disco. E que a comemoração ia ser à noite, com tudo a que se tinha direito, na casa de Cazuza.

— Foi quando a gente conheceu pessoalmente o Ezequiel (Neves, lendário jornalista musical, que se apaixonou pela banda, batalhou sua contratação pela gravadora Som Livre e virou o produtor-guru do Barão) — observa Frejat, sendo contestado pelos companheiros, cujas memórias divergiam da sua.

No meio do falatório, Guto Goffi, o baterista, é categórico:

— Para mim, esse é o melhor disco da carreira do Barão — diz ele, sendo igualmente (e ruidosamente) contestado, mas seguindo impávido, dada a autoridade que tem como o único que nunca deixou a banda. — Não consegui me demitir!

Tecladista, Maurício Barros prefere se recordar da juventude ali expressa na capa do LP.

— O McDonald’s tinha chegado há pouco tempo (ao Rio de Janeiro) e o sonho era tocar... Gravar o negócio comendo um sundae — recorda-se ele, que saiu do Barão em 1988 para formar o grupo Buana 4 e voltou três anos depois, para não sair mais.

Quarenta e quatro anos depois daquele LP, eles voltaram a se reunir em um estúdio de ensaios para preparar a turnê Barão Vermelho Encontro, que estreia esta quinta-feira (30) no Rio, na Farmasi Arena, com participação especial de Ney Matogrosso. No dia 23, também com Ney, o projeto ocupa o Allianz Parque, em São Paulo. Nos meses seguintes, vai para Porto Alegre (27 de junho, no Auditório Araújo Vianna), Florianópolis (8 de agosto, na Arena Opus), Curitiba (29 de agosto, no Igloo Super Hall) e Belo Horizonte (26 de setembro, no BeFly Hall). Mais datas serão anunciadas.

O Barão Vermelho Encontro surgiu de um convite da produtora 30e, que já havia tido bons resultados em 2023 com a reunião dos sete integrantes vivos dos Titãs para a turnê Encontro.

— Aí a gente foi tendo várias conversas até chegar um acordo sobre como é que a coisa ia acontecer — conta Frejat, o contraponto de seriedade para as intervenções mais despachadas de Guto Goffi e Dé Palmeira. — Nada impede, por exemplo, que eles continuem fazendo shows como o Barão Vermelho atual, que está em atividade, e nem eu também, com o meu show solo. Uma coisa não bate com a outra. Não é uma coisa que a gente tenha conversado entre nós, mas a minha ideia é que, tirando Rio e São Paulo, a gente não repita nenhuma cidade. Ou a pessoa viu, ou não viu mais.

A partir da esquerda, Dé Palmeira, Cazuza, Frejat, Maurício Barros e Guto Goffi: o Barão Vermelho em 1982

Divulgação

Maurício Barros vai adiante.

— Em outubro a gente já tem outras coisas com o Barão, (essa turnê) é uma coisa rápida, um shot mesmo — explica. — O Rodrigo Suricato (atual vocalista do Barão Vermelho tocado por Maurício e Guto) foi um dos grandes incentivadores para que a gente fizesse essa reunião, mas isso tudo mexe com a banda. Muita coisa aconteceu até a gente se sentar na sala e tocar. E demorou para colar. A gente estava tocando, mas estava cada um no seu quadrado. Acho que agora, um mês e meio depois (do começo dos ensaios), quando a gente estiver no palco, a gente já estará de novo naquela vibe de um núcleo de pessoas tocando juntas.

Dedicado nos últimos anos à criação de trilhas sonoras para documentários do Globoplay, como “Vale o escrito” e “O testamento: o segredo de Anita Harley”, e gravações como baixista, Dé não sobe num palco há cerca de dez anos.

— Estava com uns amigos pensando em comprar um bar em São Paulo para fazer uma coisa ao vivo toda semana. Foi quando chegou o convite para fazer a turnê. E aí falei: “Bom, economizei!” — brinca ele, que trabalhou com Adriana Calcanhotto, Kid Abelha e Marcos Valle desde que saiu do Barão. — Estou feliz só de estar ensaiando com essa galera, é que nem andar de bicicleta. Os repertórios antigos já estavam na mão. E com as músicas que eu nunca toquei (como “Puro êxtase” ou “Por você”), estou tendo um trabalhinho, mas está uma delícia. Essa formação, quando a gente se junta para tocar, é tiro, porrada e bomba. Quando sai, é explosivo.

‘Pouco uso o teleprompter!’

Mesmo há mais de uma década fora do Barão Vermelho, Frejat (cujo pai, o ex-deputado federal José Frejat, morreu esse sábado, aos 102 anos de idade) nunca se afastou dessas canções (“estou até surpreso, porque lembro da maioria das letras, pouco uso o teleprompter!”).

— Esse repertório do Barão volta muito fácil. Na verdade, no que eu tive que me concentrar mais foi nas músicas do bloco do Ney (Matogrosso), porque elas vão ser tocadas em outros tons. Não que seja difícil de transpor, o problema é a naturalidade de tocar uma música que você tocou num tom durante décadas e, de repente, ela está em outro. É mais difícil do que aprender pela primeira vez! — diz ele, avisando que o bloco terá pérolas como “Poema” (parceria sua, póstuma, com Cazuza, gravada por Ney). — Ney é importantíssimo na nossa história, ele nos avalizou para o mercado que insistia em nos classificar como não comerciais.

Ao todo, Barão Vermelho Encontro terá por volta de 33 músicas. E nada de lados B.

— A gente está tocando em lugares muito grandes, se você põe uma música não tão conhecida, isso dispersa a plateia. A gente está pensando num espetáculo para todo mundo que tá assistindo, não dá para atender a gostos específicos de determinados segmentos — alega Frejat. — Por exemplo, tem um repertório bem rock’n’roll que fez parte dos nossos shows por muito tempo, mas que é muito rock’n’roll para todo o resto dos sucessos que a gente tem.

Nos últimos anos, filmes, série, documentário e exposição cuidaram de manter vivo o legado de Cazuza (1958-1990), que participou dos três primeiros LPs do Barão Vermelho e partiu para uma carreira solo de grande sucesso — e impacto na cultura do país.

— Eu não diria que a pessoa não sabe que o Cazuza foi do Barão Vermelho, isso seria uma barbaridade. Mas tem muita gente que nem sabe qual parte do repertório é de um e qual é de outro — aposta Frejat. — Para a gente é um orgulho ter começado ali, com ele, e ter seguido sem ele, ter conseguido fazer essa sequência. No momento em que a gente tem a formação original no palco, com certeza é uma homenagem ao Cazuza, a gente está aqui considerando que ele poderia estar ali se estivesse vivo.

Elixir da juventude

Segundo Frejat, o padrão a se buscar nos shows da turnê é “o que a gente acha a melhor versão ao vivo que a gente já fez das músicas”, o que normalmente remete à dos discos “Barão ao vivo” (1989) e “MTV ao vivo” (2005).

Alguma invenção foi necessária, no entanto, para canções como “Ideologia” (de Cazuza e Frejat, gravada pelo cantor, e que eles vão tocar pela primeira vez com o Barão), e “Todo amor que houver nessa vida” (do primeiro LP), para a qual, segundo Maurício Barros, “a banda já fez 20 mil arranjos, alguns dos quais nunca viram a luz da dia”.

Haverá momentos em que apenas os quatro estarão no palco, mas em muitas músicas contam com o apoio de Fernando Magalhães (guitarrista do Barão desde 1985), Cezinha (irmão de Peninha, lendário percussionista, que morreu em 2016) e o naipe de metais de Marlon Sette, Diogo Gomes e José Carlos Bigorna, mais Rafael Frejat (filho de Frejat, no violão, guitarra e backing vocals) e Jhusara (backing vocals). Tudo para tentar manter alta a chama da juventude.

— O mercado de shows percebeu que existe essa expectativa, tanto do público mais adulto que sente saudade das coisas de quando era adolescente, quanto dos filhos e sobrinhos desse público, que ficam curiosos porque ouviram falar: “Pô, eu vi, foi legal!” Acho que terá uma soma desses dois públicos — acredita Frejat. — Quando vieram me procurar, eu disse: “Não, não me interessa, porque o Barão continua ativo, não tem por que fazer a volta do Barão.” A volta da formação original foi o que me estimulou, porque é uma homenagem ao nosso começo, ao que os quatro viveram juntos, tanto do de começar, de fazer sucesso, de deixar de fazer sucesso a partir do momento que o Cazuza saiu e de voltar a fazer sucesso.

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Guto Goffi acrescenta:

— É possível que uns 80% desse repertório que a gente vai tocar tenha sido construído por nós quatro mesmo. Porque mesmo no “Na calada da noite” (1990), o disco em que Dé saiu no meio, ele esteve em todos os ensaios e participou dos arranjos de músicas como “Longe demais de tudo” e “O poeta está vivo”.