Bangladesh realiza referendo e primeira eleição após protestos da 'Geração Z' e fuga de ex-premier

 

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Cerca de um ano e meio após a renúncia da primeira-ministra Sheikh Hasina e de sua fuga para a Índia, Bangladesh realiza nesta quinta-feira seu primeiro processo eleitoral desde os protestos liderados pela Geração Z, que mexeram com as bases políticas do país asiático. Mais de 120 milhões pessoas foram habilitadas a votar para escolher os próximos representantes, bem como para participar do referendo que propõe mudanças estruturais na organização do Estado. A contagem manual dos votos começou após o fechamento das urnas, às 16h30 (07h30 em Brasília), com os primeiros resultados parciais previstos para a noite.

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O pequeno país vizinho da Índia, lar de mais de 175 milhões de pessoas, foi palco de uma perturbação social de grandes proporções a partir de julho de 2024, quando protestos estudantis tomaram as ruas, inicialmente contra um sistema de reserva de vagas de emprego para descendentes de combatentes da libertação do país. A frustração pela falta de empregos e pela corrupção endêmica explodiu em indignação depois que Hasina — uma liderança que ficou 15 anos no poder e sufocou a oposição — ordenou uma violenta repressão. Ela foi condenada à morte por crimes contra a Humanidade em 2025, por atos durante a repressão aos protestos.

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Um governo interino foi estabelecido, liderado pelo vencedor do Nobel da Paz Muhammad Yunus, que estabilizou as tensões políticas para o processo eleitoral desta quinta-feira, que correu sem grandes perturbações até o momento — embora o período de campanha tenha registrado ao menos cinco mortes e 600 feridos, segundo registros policiais, e quase 1 milhão de agentes de segurança tenham sido mobilizados para acompanhar a votação.

Mais de 50 partidos lançaram candidatos, mas duas forças despontam como favoritas para chegar à cadeira de primeiro-ministro. De um lado, o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), a maior sigla do país, que por vezes boicotou eleições nos anos de governo Hasina, sob a liderança de Tarique Rahman. Do outro, uma coalizão liderada pelo maior partido muçulmano do país, o Jamaat-e-Islami, que conta com o apoio do Partido Nacional Cidadão (NCP) — nova legenda na vida política do país, fundado por líderes dos protestos estudantis de 2024. O líder da coalizão é Shafiqur Rahman, de 67 anos, um ex-preso político. A Liga Awami, partido da ex-líder Hasina, foi impedido de concorrer.

Analistas afirmam que o Jamaat-e-Islami ganhou influência explorando a indignação popular com a demonização dos muçulmanos, particularmente por movimentos de direita hindu na vizinha Índia, e que muitos estudantes envolvidos nos protestos de 2024 ficaram descontentes com a aliança do NCP com a sigla, uma vez que desejam um país mais secular, moderado e inclusivo.

Funcionário eleitoral abre urna enquanto a contagem de votos começa em Daca

Sajjad Hussain/AFP

Prova para os jovens

O processo eleitoral desta quinta-feira é o primeiro resultado concreto da onda dos protestos liderados por integrantes da geração Z — o que pode oferecer um vislumbre para jovens do Nepal, Peru e outros países, que também estiveram a frente de processos disruptivos recentemente. A chance de participar de uma eleição diretamente foi apontada por otimismo por muitos, em um país com média de idade de 25 anos, em que grande parte não teve oportunidade de votar durante os 15 anos de governo Hasina.

— Este foi meu primeiro voto — disse Shithi Goswami, de 21 anos, estudante da Daca City College. — Espero que, depois de tudo o que passamos nos últimos anos, agora seja a hora de algo positivo.

Manifestantes antigovernamentais exibem a bandeira nacional de Bangladesh enquanto invadem o palácio da primeira-ministra Sheikh Hasina em Daca

K M ASAD / AFP

Khalid Muhammad Khan Abir, um estudante de 23 anos que participou dos protestos em 2024 descreveu as eleições desta quinta como um desdobramento positivo.

— Esta é uma grande oportunidade para eu mostrar meu direito, minha capacidade e minha escolha — disse.

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Por outro lado, muitos dos jovens que participaram das manifestações demonstram descrença de que o processo leve a uma transformação real, apontando um esgarçamento da unidade conquistada nos meses de protesto. Muitas das demandas foram diluídas ao longo do processo liderado pelo governo interino, e alguns duvidam que uma mudança de fato vá ocorrer com um processo guiado por políticos tradicionais.

— O sacrifício deles não pode ser em vão — disse Majedur Rahman, de 25 anos, estudante de matemática aplicada na Universidade de Daca. — [Se esta eleição não entregar um sistema justo] teremos que nos levantar novamente.

Referendo e polêmicas

Quando o governo interino assumiu o controle do país, os estudantes apresentaram suas demandas: eleições para entregar um governo mais inclusivo; limitação de mandatos para o primeiro-ministro e um judiciário mais independente; responsabilização para corrupção e pelas execuções extrajudiciais realizadas durante os protestos; e melhores oportunidades econômicas para a população jovem. Em julho, o governo interino de Bangladesh, juntamente com dezenas de partidos políticos, adotou um documento de consenso chamado Carta de Julho, que continha uma visão coletiva para o futuro do país e propostas específicas sobre como alcançá-la — o que foi a votação nesta quinta.

As propostas incluem medidas para garantir maior participação política das mulheres e a criação de uma legislatura bicameral, onde a Câmara Alta teria assentos baseados na porcentagem de votos obtidos na Câmara Baixa — uma estrutura destinada a servir como freio ao controle parlamentar.

Líder do Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP) e candidato às eleições, Tarique Rahman (C), vota em uma seção eleitoral durante as eleições gerais de Bangladesh

Monzur Morsed Ricky/AFP

Uma das propostas mais importantes aumentaria a participação das mulheres na política. Isso foi especialmente significativo porque as mulheres tiveram grande destaque no movimento de protesto. A Carta de Julho pede que pelo menos 10% dos candidatos indicados para a proposta Câmara Alta sejam mulheres, e estabelece um roteiro para a representação feminina na Câmara Baixa, passando de 5% para 33% ao longo de várias eleições — na votação desta quinta, 300 parlamentares serão eleitos por voto direto, e 50 mulheres escolhidas por meio de listas partidárias.

A participação feminina gerou uma dura repreensão do Jamaat-e-islami, partido parceiro da sigla estudantil. Na semana passada, uma postagem na conta do X do líder do Jamaat comparou o emprego de mulheres à prostituição. Após a postagem viralizar, representantes do partido disseram que a conta de Rahman havia sido hackeada.

Shafiqur Rahman (C), líder do partido Jamaat-e-Islami de Bangladesh, chega para votar em uma seção eleitoral durante as eleições gerais de Bangladesh

Mohd Rasfan/AFP

Taposhi Rabeya, uma ativista estudantil que participou dos protestos, disse estar chocada com os comentários e desanimada com o fato de os partidos políticos terem indicado tão poucas candidatas para a eleição. Ela disse que esperava um novo tipo de política, onde dinheiro, força bruta e intimidação não determinassem os resultados.

— Nossos líderes políticos não foram capazes de deixar essas práticas para trás — disse.

Dos 2.028 candidatos, apenas 81 são mulheres, incluindo independentes. (Com NYT e AFP)