Bandidagem jornalística: CNN passa uma hora tentando vender insinuações contra Lula

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Fonte da notícia: Cafezinho Cafezinho

A CNN Brasil levou ao ar na noite do último sábado (17) uma entrevista de uma hora com a lobista Roberta Luchsinger, gravada no apartamento dela em São Paulo. A produção escalou os jornalistas Iuri Pitta e Débora Bergamasco, montou cenário de acontecimento histórico e reservou o CNN Prime Time inteiro, das 20h às 21h, para o que seria a bomba do fim de semana. O que se viu foi outra coisa: dois repórteres se esforçando para arrancar de uma entrevistada qualquer fato bombástico — e uma entrevistada visivelmente mais competente no papel do que eles. Não houve um documento. Não houve um contrato. Não houve uma data, um valor, um ato administrativo, um áudio, uma mensagem. Ao longo de sessenta minutos, a senhora Luchsinger não apresentou uma única prova do que insinuou, e a própria íntegra publicada pela emissora (leia aqui) mostra uma sequência de frases de efeito no lugar de fatos. O cardápio foi de insulto: Lula é “mentiroso”, “mau-caráter”, “senil”, “canalha”, “covarde”. “Um homem assim não pode continuar na Presidência”, disse. Respondendo à alcunha que o presidente lhe deu — “pilantra”, “Vorcaro feminino” —, devolveu: “Se eu sou pilantra e toda essa turma andava e frequentava a minha casa, eles são pilantras como eu”. É o nível da discussão que a emissora comprou por uma hora de programação. A “revelação” da noite foi de ordem pessoal: ela pretende assinar delação premiada e diz que não poupará “o presidente, o filho do presidente, ninguém”. Também afirmou receber “mais de 50 ameaças de morte por dia” e que as filhas estariam ameaçadas. Sobre a relação com Lulinha, repetiu que o filho do presidente levava ministros à casa dela “incontáveis vezes” — sem apresentar registro, testemunha ou documento, e remetendo o esclarecimento à Polícia Federal. Do ponto de vista jornalístico, é pouca coisa para quem prometia desmontar um governo. A entrevista, aliás, foi gravada a oito dias do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, marcado para 25 de outubro. A coincidência não passou despercebida. Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que Lula “desconhece os fatos relatados”, que nunca teve “interlocução” com a entrevistada e que “não há contrato federal com Roberta”. O Planalto registrou “estranheza” com o fato de as acusações surgirem justamente na reta final da campanha, como tentativa de “tumultuar o processo democrático”. O esforço da produção, aliás, merece um capítulo à parte. Os repórteres tentaram de tudo: perguntas sobre contratos, sobre órgãos do governo, sobre a Operação Sem Desconto. Qualquer que fosse o caminho, a resposta desembocava no mesmo lugar: um ataque ao presidente. Não é difícil perceber o método — é o mesmo receituário de media training que Flávio Bolsonaro exibe em sabatinas: não se responde ao fato, ataca-se a pessoa. A senhora Luchsinger não chegou à entrevista despreparada. Chegou treinada para não dizer nada e, de fato, não disse. E a grande imprensa embarcou. O Globo deu uma nota curta. A Folha dedicou uma página e registrou, em seu próprio texto, que a entrevistada não apresentou novas provas. O Estadão fez o mesmo e ainda levou o episódio para a manchete, transformando em acontecimento o que não passou de uma hora de insinuações. O senador Flávio Bolsonaro comemorou nas redes — “Bomba na família Lula. Mentiroso e mau-caráter. Fala tudo, Roberta” —, e deputados da oposição correram a pedir proteção para a entrevistada. No campo governista, o silêncio foi a resposta mais eloquente: o PT orientou apoiadores a ignorar o programa. Fica a impressão de que a CNN aderiu aos padrões Vorcaro de jornalismo: transformar suspeita em espetáculo, insinuação em notícia e uma hora de programação em serviço prestado. A entrevistada saiu maior do que entrou — não porque tinha o que dizer, mas porque os entrevistadores não tinham o que perguntar. O fiasco não foi dela.

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