Bancos e fintechs brasileiras como Nubank, Itaú e XP estão realizando um movimento simultâneo de expansão de suas operações no mercado financeiro dos Estados Unidos.
De acordo com especialistas consultados pelo GLOBO, trata-se uma operação de 'siga o dinheiro dos clientes', já que muitos correntistas de alta renda brasileiros estão internacionalizando seu patrimônio.
Segundo os analistas, isso reduz a exposição dos recursos à dependência exclusiva do ciclo econômico, político, cambial e de crédito do mercado brasileiro, além de oferecer uma experiência em moeda forte para clientes que moram nos EUA ou dividem suas despesas, investimentos e vidas entre os dois países.
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Em atraso: Itaú renegociou R$ 1,1 bilhão no Desenrola 2 e atendeu 371 mil clientes
— Ao oferecer serviços nos EUA, os bancos brasileiros evitam que seus clientes de alta renda migrem para bancos globais, como JPMorgan ou Morgan Stanley.
No caso de plataformas como o Nubank, que já possuem enorme penetração no Brasil, o objetivo é evoluir para uma plataforma financeira global — explica o professor de mercado financeiro na Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), George Sales.
Na semana passada, o maior banco privado do país, o Itaú, informou ao mercado, através de comunicado, que vai constituir um banco múltiplo no mercado americano, com o nome Itaú Bank.
A instituição já obteve autorização preliminar do órgão federal do Departamento do Tesouro dos EUA, mas o início da operação depende ainda do cumprimento de condições operacionais e aprovação de outros órgãos reguladores, como o Federal Reserve, o banco central americano.
O Itaú já atua nos Estados Unidos desde 1979, focando em serviços de atacado, private banking e gestão de recursos.
O banco também controla a Avenue, com sede em Miami, uma corretora de valores que permite a brasileiros investir no mercado dos Estados Unidos e ter uma conta internacional em dólar.
O Nubank planeja abrir um banco com modelo digital chamado Nubank NA.
A iniciativa é avaliada no mercado como a transição de uma plataforma financeira regional, que atualmente está direcionada para a América Latina (o Nubank atua no México e na Colômbia) para uma plataforma financeira global.
Em janeiro passado, o Nubank recebeu a aprovação e agora entra na fase de organização, projetando o início das operações para meados de 2027.
Quando obtiver a licença definitiva, a fintech estará autorizada a oferecer contas bancárias, cartões de crédito e empréstimos.
A cofundadora do Nubank, Cristina Junqueira, mudou-se para os Estados Unidos com o objetivo de estruturar de perto a nova operaçãoo.
Entre os clientes-alvo estão brasileiros expatriados e imigrantes latino-americanos, mas o consumidor americano também é um potencial cliente, no médio e longo prazo.
A expansão aproveita uma janela de oportunidade nos EUA facilitada por um ambiente regulatório que se tornou mais favorável a negócios inovadores sob a administração de Donald Trump.
Aumento da demanda no exterior
No caso da XP, o CEO da XP Inc., Thiago Maffra, declarou a um grupo de jornalistas que a criação de um banco nos EUA é uma "evolução natural" para complementar a internacionalização dos investimentos dos clientes.
A empresa, segundo Maffra, vai estudar se solicita uma nova licença bancária ou faz a aquisição de um banco local, embora não haja um prazo definido, disse o CEO.
A XP confirmou que avalia alternativas para ampliar sua atuação nos Estados Unidos como parte de uma estratégia mais ampla de evolução da operaçãoo offshore, para a internacionalização de investimentos, principalmente para clientes de private banking.
Não há uma deciso formal sobre o modelo a ser adotado ou um prazo definido para a conclusão da operação e a XP acompanha as oportunidades daquele mercado.
O analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luis Miguel Santacreu, avalia que o movimento recente de abertura e expansão de bancos brasileiros nos Estados Unidos é impulsionado por fatores como busca de escala e aumento da demanda dos clientes brasileiros por serviços no exterior.
Ele observa que, com exceção do Bradesco, que já possui uma operação de varejo consolidada na Flórida desde 2019, quando comprou o Florida Bank (que agora chama-se Bradesco Bank), diversas instituições brasileiras estão decidindo entrar no varejo americano de forma quase simultânea.
— Há uma forte tendência de internacionalização dos investimentos dos brasileiros, que buscam aplicar parte de seus patrimônios em ativos e fundos negociados nas bolsas americanas devido à enorme variedade de opções.
Para acompanhar esse fluxo, essas instituições buscam agregar mais produtos e serviços financeiros para além das aplicações financeiras offshore.
Ao obter licençaas, esse bancos e fintechs vão oferecer serviços de conta corrente, câmbio e outros produtos bancários de varejo — diz Santacreu, lembrando que um diferencial importante desses bancos ao buscar o nicho de expatriados é a capacidade de realizar o atendimento em português.
Há outras instituições que já estão nos EUA há mais tempo.
O BTG Pactual opera desde 2009, com escritórios em Nova York e Miami, após adquirir o M.Y.
Safra Bank.
O Safra também atua em território americano através do Safra National Bank of New York, que atende clientes globais e latino-americanos, incluindo brasileiros.
O Banco do Brasil também já esta em Nova York e Miami.
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Santacreu afirma que, diferente do Brasil, onde os grandes bancos operam em âmbito nacional, a regulação bancária americana tradicionalmente incentiva uma atuação geográfica mais restrita a estados ou regiões específicas.
E, num país de dimensões continentais como os EUA, seria caro para um banco brasileiro adquirir vários bancos para cobrir todo o território nacional.
— A tendência é que os bancos brasileiros comprem licenças estaduais para atuar em regiões de alta concentração de brasileiros, como fez o Bradesco no estado da Flórida — afirma o especialista, enfatizando, entratanto, que a regionalização não limita o potencial de crescimento das instituições brasileiras, já que o PIB de estados como Flórida, Califórnia e Nova York são gigantescos.
O Bradesco informou que a operação nos Estados Unidos vem crescendo, e entre 2023 e julho de 2026, os ativos sob gestão da carteira vinculada ao Global Private Bank mais que dobraram, enquanto a base de contas registrou expansão de cerca de 120%.
No ano passado, o volume de ativos sob gestão avançou 45%, refletindo a demanda por soluções financeiras internacionais e "o fortalecimento da proposta de valor do Bradesco para clientes com necessidades globais".
Desafios são grandes
Santacreu também lembra que o mercado americano, pelo lado da oferta de ativos (como ações de inúmeras empresas) e de crédito corporativo, é enorme.
O professor da Fipecafi, George Sales, alerta que existem desafios no mercado americano, como a obtenção de licenças e regras de prevenção à lavagem de dinheiro, incluindo cibersegurança, que demandam uma infraestrutura operacional sofisticada e de custo elevado.
— Obter todas as licenças nos EUA é complexo.
A fintech holandesa Bunq, por exemplo, teve sua solicitação de licença bancária nacional rejeitada — lembra o professor.
As autoridades americanas questionaram a expertise da empresa para operar cartões de crédito, produto que estava planejado como a principal oferta nos EUA.
Um analista de bancos, que prefere não se identificar, diz que o mercado mais ao Sul dos EUA é o alvo desses bancos, já que tem uma base de brasileiros e latinos e as marcas são mais conhecidas desse público.
Ele explica que os bancos de porte se adaptaram ao mundo on-line por necessidade de manter seu ROE (indicador de retorno do patrimônio).
E nos EUA será diferente, mas um dos desafios é o elevado investimento em tecnologia, diz o especialista.
Sales, da Fipecafi, cita como outro desafios os modelos de crédito brasileiros, que não são replicáveis nos EUA, já que o comportamento de consumo e a legislação de recuperação de recursos são completamente diferentes.
Ele também diz que competir de frente com instituições americanas como JP Morgan, Bank of America ou grandes fintechs locais é 'duríssimo' — e este nem será o intuito das bancas brasileiras.
— A vantagem dos brasileiros é clara para o segmento de alta renda do Brasil, devido ao relacionamento prévio, mas conquistar o consumidor americano comum é um trabalho "muito difícil", que precisa da construção da marca — diz.
