Banco Central reduz taxa Selic para 14,50% ao ano, apesar de incertezas sobre guerra no Irã

 

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O Banco Central reduziu, nesta quarta-feira (dia 29), a taxa Selic em 0,25 ponto percentual: de 14,75% para 14,50% ao ano. O corte vem em meio à incerteza com os efeitos da guerra no Oriente Médio. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) repete o movimento realizado em março, quando foi iniciado o ciclo de "calibração" dos juros.

Mesmo com a queda, a Selic permanece em níveis bastante elevados, no maior patamar desde outubro de 2006, em um esforço do Copom para alcançar a meta de 3,0% da inflação.

A decisão já era amplamente esperada pelo mercado financeiro. De 122 instituições financeiras consultadas, 114 esperavam uma redução para 14,50%, enquanto cinco projetavam manutenção em 14,75% e outros dois estimavam corte para 14,25%.

No Copom anterior, em março, o colegiado optou por não dar muitos detalhes sobre os próximos passos de modo a ganhar tempo para acumular novas informações que aumentem a clareza sobre a duração do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o nível de preços no Brasil. Mas indicou que planejava continuar a "calibração" iniciada na Selic.

"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo."

Em declarações posteriores ao Copom, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, destacou que o BC brasileiro estava em uma posição mais privilegiada que outros países em um contexto de forte incerteza gerada pela guerra, principalmente por causa da "gordura" acumulada nos juros.

— No caso do Brasil, o que aconteceu ao longo de 2025, o conservadorismo que a gente adotou reservou uma posição melhor do que se a gente não tivesse sido conservador. Nos permite ter uma gordura para analisar o desdobramento (da guerra) sobre a economia — disse, em referência ao forte ciclo anterior de aperto da taxa básica, que está em um nível bastante contracionista.

O ambiente desde então tem se mantido conturbado. Apesar de alguns acertos de cessar-fogo, os ataques continuam assim como o bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passa grande parte da produção de petróleo mundial. O produto está cotado a cerca de US$ 100 por barril do tipo Brent, contra cerca de US$ 65 antes do conflito.

Com esse cenário, as expectativas de inflação, que já vinham subindo pelo efeito da guerra antes do Copom de março, saltaram no Boletim Focus. Para 2026, a projeção mediana avançou de 4,17% para 4,86%, fora do intervalo de tolerância da meta, que vai até 4,50%.

Para o ano fechado de 2027, que passa a ser o horizonte relevante do BC nesta reunião de abril, a expectativa no Focus subiu de 3,80% para 4,0%. O horizonte relevante é o prazo que o BC trabalha para colocar a inflação na meta.

Os índices de inflação corrente também têm levantado alertas sobre a composição. O IPCA-15 de abril (0,89%), por exemplo, teve aceleração ante março aquém da esperada, mas a abertura mostrou aumentos disseminados em itens que não estão diretamente ligados à guerra, como industriais.

Na atividade econômica brasileira, a desaceleração continua, mas o mercado de trabalho segue bastante forte. Em março, foram criadas 228 mil vagas formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), bem acima do teto das projeções de mercado.

Por outro lado, o câmbio teve comportamento favorável no período, com o dólar se situando nos últimos dias ao redor de R$ 5, contra a média de R$ 5,20 no último Copom. Para analistas, a moeda brasileira pode estar refletindo não só a melhor posição do Brasil em relação ao mundo neste momento, já que é exportador líquido de petróleo quanto um movimento mais estrutural de atração de investimentos.

O mercado também esperava uma continuidade no ciclo de calibração diante da forte restrição monetária. Mesmo ajustando a taxa Selic pela inflação esperada, os juros básicos seguem bastante acima das estimativa da taxa neutra (5%), o que significa um forte vetor de esfriamento da economia.