Banco Central decide hoje a taxa básica de juros: veja o que o mercado espera e por quê

 

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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decide hoje o novo patamar da taxa básica de juros, a Selic, no Brasil. No mercado, o consenso de analistas de instituições financeiras é de que a taxa vai cair, seguindo o ciclo de corte dos juros iniciado pela autoridade monetária, apesar das incertezas do cenário econômico atual.

Das 86 instituições ouvidas pelo Valor Data, 81 esperam uma redução de 0,25 ponto porcentual do atual patamar, hoje em 14,75%, para 14,50%. A estimativa se mantém no mercado mesmo com a pressão inflacionária decorrente do conflito do Irã.

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Na última reunião do Copom, no meio do mês de março, o BC optou por não dar sinalização sobre os passos seguintes (forward guidance), justamente para incorporar os impactos do conflito que, naquele momento, entrava em sua terceira semana de duração. Agora, a leitura é outra: a autoridade monetária deve reforçar que está atenta ao prolongamento do conflito.

Ontem, o IPCA-15, prévia da inflação de abril, mostrou forte pressão do aumento do preço dos combustíveis, que acompanhou em parte a alta no petróleo desde o início do conflito no Irã. No acumulado dos últimos 12 meses, o indicador alcançou 4,37%, próximo do teto do intervalo de tolerância da meta do BC, que vai até 4,5%.

Evolução da Selic

Criação O Globo

São justamente os efeitos colaterais do prolongamento da Guerra, que chega hoje no seu segundo mês, que devem implicar numa redução mais suave da Selic até o fim do ano, na visão dos especialistas, como o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da BTG Asset Management, Tiago Berriel.

Em relatório, ele afirma que declarações recentes dos membros do comitê reforçam que o nível restritivo permite seguir com o ciclo de cortes. Ainda assim, ele pondera que “a evolução do cenário desde a reunião de março foi desfavorável, com piora da inflação corrente, das expectativas e manutenção de riscos externos elevados”.

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Ainda assim, avalia Ian Lima, da Inter Asset, as expectativas de inflação mais longas “seguem relativamente estáveis”, num sinal de preservação da credibilidade da política monetária e de confiança na reversão, ao longo do tempo, do atual choque de oferta.

Em janeiro, na primeira reunião do ano, o comitê emitiu uma comunicação cautelosa por conta da desaceleração tímida da atividade e do mercado de trabalho. Na última reunião, que iniciou um ciclo de cortes após nove meses de manutenção da Selic em 15%, no maior patamar em quase 20 anos, o Copom já havia sinalizado preocupação com o conflito:

"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", disse o comitê em março.

Naquele momento, o Copom julgou adequado dar início ao corte diante do longo tempo do patamar no nível de 15%.

Em declarações posteriores, os participantes do comitê chegaram a afirmar que o nível restritivo na Selic criou uma espécie de "gordura" para absorver os impactos do conflito.

O BC tem como meta perseguir o centro da meta de inflação definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. O horizonte relevante do BC é de um ano e meio à frente, já que o efeito do patamar tende a levar algum tempo para surtir efeito na economia.

Em março, a projeção do BC para o terceiro trimestre de 2027 era de uma inflação em 3,3%, enquanto para o fim de 2026, a estimativa era de um IPCA a 3,9%.

Ciclo menor

O último boletim Focus, divulgado na segunda-feira, mostrou que a média de agentes de mercado aponta para uma previsão de que a inflação ultrapasse o teto da meta, a 4,86% para este ano, e 4% no fim do ano que vem.

Para o economista chefe do Itaú Mário Mesquita, o comitê deve enfatizar serenidade e voltar a reforçar que “os passos futuros do processo de calibração seguirão guiados pela evolução dos dados”, além de incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e extensão no tempo dos conflitos no Oriente Médio e seus efeitos diretos e indiretos.

Se antes do conflito algumas casas estimavam a Selic alcançando os 12% no fim de 2026, agora já há quem estime a taxa básica nos 13,5%, uma diminuição grande da previsão inicial por conta do impacto inflacionário decorrente do choque de oferta de petróleo.

A duração, diz Berriel, do BTG, em relatório, é justamente o fator de preocupação, já que a prescrição de política monetária é reagir aos efeitos secundários e não aos impactos primários sobre preços:

“Desde a última reunião, surgiram sinais de deterioração justamente nessa dimensão. A desancoragem (alta na previsão) adicional do Focus, inclusive nos horizontes mais longos, e a piora da inflação corrente reforçam a hipótese de que o choque já começa a contaminar canais mais persistentes”, diz. O banco vê a Selic em 13% no fim do ano.

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