A moda é cíclica, mas nenhuma tendência retorna exatamente ao mesmo contexto em que surgiu. A cintura baixa que marcou os anos 2000 volta às passarelas e às ruas em um momento em que as chamadas canetas emagrecedoras transformaram o debate sobre peso e corpo. As transparências colocam seios e lingerie novamente em evidência, enquanto minissaias e microshorts deixam pernas e glúteos mais expostos. Ao mesmo tempo, o balletcore ajudou a popularizar o chamado "ballerina body", associado a uma silhueta mais longilínea e menos volumosa. Sinker ou sagger? Por que cada rosto muda de um jeito com o tempo Vestir 38 significa ser magra? Entenda a discussão que viralizou nas redes O encontro entre essas referências levanta uma questão que vai além do vestir: até que ponto as roupas apenas acompanham as transformações dos padrões de beleza e quando passam a influenciar a maneira como mulheres enxergam o próprio corpo? A relação não é direta nem igual para todas, mas a repetição de determinadas imagens pode mudar a atenção que damos a regiões antes menos observadas e, consequentemente, os desejos em relação à própria aparência. Cintura baixa e a atenção ao contorno corporal Calças, saias e shorts de cintura baixa voltaram a expor uma parte do abdômen que havia perdido espaço durante o período de predominância da cintura alta. Com a região novamente no centro do look, questões relacionadas ao contorno corporal podem ganhar mais visibilidade. Para o cirurgião plástico Jorge Seba, a roupa pode influenciar a percepção que uma pessoa tem de determinada área do corpo. "A cintura baixa evidencia exatamente a região abdominal e os flancos. Quando uma tendência coloca determinada área do corpo em destaque, é natural que algumas pessoas passem a observá-la mais. No consultório, isso pode aparecer como desejo de melhorar contorno, definição da cintura ou tratar depósitos de gordura localizada", explica. A lipoaspiração está entre os procedimentos estéticos mais realizados no mundo, mas o especialista ressalta que a cirurgia não deve ser confundida com tratamento para emagrecimento. "O objetivo é trabalhar contorno corporal em pacientes adequadamente selecionados. Moda pode despertar um desejo, mas nunca deve determinar uma indicação cirúrgica", afirma. 'Ballerina body' e a valorização de uma silhueta mais discreta Se durante alguns anos referências de beleza associadas a curvas acentuadas ganharam força, outras imagens passaram a ocupar espaço nas redes e na cultura pop. O "ballerina body", impulsionado pelo balletcore, recupera uma estética ligada a braços e pernas mais finos, cintura delicada e menor volume corporal. A mudança também aparece nas discussões sobre cirurgias mamárias. Segundo dados do RealSelf, as buscas por revisão de implantes cresceram 89% no primeiro trimestre de 2026, em um momento de maior interesse por resultados menores e considerados mais naturais. Para o cirurgião plástico Marco Cassol, a oscilação mostra como as referências de beleza podem mudar em pouco tempo. "Já tivemos um período de procura muito forte por volumes maiores. Agora vemos uma estética que valoriza proporções mais discretas. Isso pode levar pacientes que colocaram próteses grandes anos atrás a procurar redução, troca ou retirada dos implantes. O cuidado é não realizar uma nova cirurgia apenas para acompanhar outro padrão que também poderá mudar", observa. Do corpo curvilíneo ao 'ballerina body': por que o padrão de beleza oscila Magnific Transparências e a exposição das mamas A volta das transparências acrescenta outra camada à discussão. Seios, lingerie e o próprio contorno das mamas passam a fazer parte da composição dos looks, aumentando a atenção sobre formato, posição e proporção. "Quando a roupa deixa determinada região mais visível, a percepção sobre ela muda. Hoje existe uma busca maior por resultados que pareçam proporcionais e naturais, inclusive em cirurgias mamárias. Mas naturalidade não é uma medida universal. Uma mama adequada para uma paciente pode não ser para outra", destaca Cassol. Nesse caso, a tendência não necessariamente produz um único modelo de corpo desejável. O que muda é a maneira como determinada parte dele passa a ser enquadrada, fotografada e observada. Microshorts, minissaias e o retorno das pernas à cena Na parte inferior do corpo, minissaias e microshorts recuperam o protagonismo e deixam pernas e glúteos mais expostos. A referência cria uma situação curiosa: enquanto o "ballerina body" sugere menos volume, outras tendências continuam valorizando músculos definidos e curvas. Para Seba, a convivência entre propostas tão diferentes reforça a dificuldade de falar em um único padrão contemporâneo. "Uma tendência pede menos volume, outra valoriza curvas. Por isso, tentar construir o corpo seguindo a tendência da temporada é uma armadilha. Cirurgia plástica precisa considerar anatomia, proporção e desejo individual, não aquilo que está viralizando naquele mês", diz. Mais do que uma substituição de um ideal por outro, o momento parece reunir referências distintas, que podem ser incorporadas de maneiras diferentes. O corpo que aparece sob uma minissaia não precisa corresponder necessariamente à mesma silhueta sugerida pelo balletcore. Canetas emagrecedoras e a busca por uma silhueta menor Outro elemento dessa equação está fora do guarda-roupa. A popularização das medicações para tratamento da obesidade trouxe novas conversas sobre perda de peso e composição corporal, ao mesmo tempo em que as referências visuais das redes continuam mudando. O nutrólogo Patrick Ferreira ressalta que os medicamentos têm indicação específica e não devem ser usados para reproduzir um padrão estético. "As canetas representam um avanço importante no tratamento da obesidade quando existe indicação médica, mas não podem virar instrumento para perseguir o corpo que está na moda. O problema começa quando uma pessoa saudável olha uma tendência estética e entende que precisa emagrecer para caber nela", alerta. A perda de peso também não corresponde necessariamente à transformação corporal exibida nas redes. "Emagrecimento envolve gordura, mas pode envolver também perda de massa muscular quando não existe acompanhamento adequado. Se o objetivo passa a ser simplesmente ficar cada vez menor, podemos entrar em uma lógica que não tem relação com saúde. Preservar massa muscular, garantir aporte nutricional e avaliar composição corporal são fundamentais", acrescenta Patrick. Quando o corpo passa a acompanhar a moda Cintura baixa, transparências, microshorts e balletcore podem parecer tendências sem relação entre si. Juntas, porém, revelam como diferentes ideias sobre o corpo podem circular ao mesmo tempo. Em vez de um padrão único, há uma sucessão de imagens que coloca ora a cintura, ora as pernas, ora os seios ou os glúteos no centro da atenção. O problema aparece quando essa exposição constante transforma uma preferência estética em sensação de inadequação. "Uma roupa pode sair de moda no próximo verão. Uma cirurgia deixa consequências muito mais duradouras. Antes de modificar o corpo, a pergunta deveria ser: eu realmente desejo isso ou comecei a desejar depois que passei a ver esse padrão repetidamente?", provoca Cassol. A mesma reflexão vale para o emagrecimento, segundo Patrick. "O tratamento precisa partir da saúde e das necessidades individuais. Quando o objetivo passa a ser perseguir o padrão corporal da vez, corremos o risco de transformar uma ferramenta médica em resposta a uma pressão estética."
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'Ballerina body', cintura baixa e transparências: o que está por trás da tendência
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