Balanços mostram Botafogo em perigoso caminho contrário a resultados positivos de Fla, Flu e Vasco
Menos R$ 290 milhões. Esse foi o resultado financeiro do Botafogo em 2025, o único clube entre os quatro grandes do Rio de Janeiro que fechou suas contas do ano passado em déficit. A informação é do próprio balanço financeiro do clube, publicado na noite de quinta-feira, bem como os de Fluminense e Vasco. O Flamengo já havia liberado o material dia 31 de março.
Primeiro a se tornar SAF entre os quatro, o alvinegro vive uma profunda crise institucional que passa, diretamente, pela parte financeira. Hoje administrado interinamente por Durcesio Mello, o clube aguarda decisão de tribunal arbitral sobre uma possível volta de John Textor ao comando. O empresário americano tem a sua própria disputa com a Eagle Bidco, que comanda os clubes de sua rede e da qual foi afastado. No Botafogo, ele liderava por força de liminar judicial. Enquanto isso, a SAF vive indefinição sobre a entrada de novos recursos.
Os dados dos balanços de 2025 dos clubes cariocas
Editoria de Arte
Mesmo antes da crise, o rombo alvinegro já vinha crescendo. O prejuízo de R$ 290 milhões no exercício de 2025 acontece em um contexto de alto faturamento para o clube, que contabiliza, em seu balanço, R$ 574 milhões em receita operacional líquida (premiações, patrocínio, bilheteria, marketing e outros aspectos) e mais R$ 733 milhões em venda de atletas. Por outro lado, o passivo acumulado, dívida total do clube, segue crescendo em ritmo acelerado: foi de R$ 1,5 bilhão em 2024 a R$ 2 bilhões no fim de 2025. Passivo que já foi de R$ 401 milhões em 2022, no início da SAF alvinegra.
Um dos principais problemas dessa dívida é a característica: pouco mais de R$ 1,34 bilhão dela, 67%, é de passivo circulante, ou seja, de obrigação de pagamento em curto prazo, até 12 meses.
Auditoria não comenta
A situação fica ainda mais complexa com o parecer da BDO, empresa de auditoria que avaliou de forma independente o balanço alvinegro. A empresa informou que não conseguiu validar números divulgados pelo clube e se absteve de comentar. Esse tipo de posicionamento é um dos mais severos dentro da auditoria.
Entre os principais problemas apontados está a impossibilidade de verificar valores básicos, como o dinheiro em caixa e o total de dívidas. A auditoria também não conseguiu confirmar saldos com bancos e nem com fornecedores. Só nesse último caso, há mais de R$ 1 bilhão em obrigações sem validação completa. Além disso, não foi possível checar adequadamente se ativos importantes, como direitos de jogadores, estão registrados por valores corretos ou inflados.
Outro ponto sensível envolve negociações com empresas ligadas ao mesmo grupo controlador, como o Eagle Football e o Lyon. A auditoria afirma não ter conseguido validar operações bilionárias entre essas partes, incluindo transferências de jogadores, empréstimos internos e outras movimentações financeiras. Há cerca de R$ 1,28 bilhão a receber e R$ 732 milhões a pagar nessas transações sem confirmação adequada.
Flamengo decola
O relatório também aponta possíveis distorções no balanço. Em um caso específico, de cerca de R$ 110 milhões, a auditoria entende que o valor deveria ter impactado diretamente o resultado do clube, o que não ocorreu. Se isso for confirmado, o patrimônio pode estar superestimado, e o prejuízo, subestimado.
Na última quarta-feira, o Botafogo anunciou Carlos Martins como novo diretor financeiro da SAF.
Flamengo, Fluminense e Vasco, por sua vez, registraram superávit em seus balanços. O rubro-negro, que viu suas finanças decolarem na última década, registrou uma impressionante receita operacional de R$ 1,4 bilhão e um resultado positivo de R$ 343 milhões.
O Flamengo tem um passivo acumulado alto, de R$ 1,2 bilhão, mas assombrosa capacidade de geração de receitas recorrentes — impulsionada, em 2025, por premiações e participação no Mundial de Clubes, pelos jogos no Maracanã e pelo acordos comerciais— mantém a saúde financeira do clube totalmente controlada e com poucos riscos, no atual cenário.
Torcida do Flamengo no Maracanã
Adriano Fontes/Flamengo
Outro participante do Mundial, o Fluminense fechou o ano com alta receita operacional: foram R$ 758,5 milhões, compostos, principalmente, por premiação, direitos de transmissão e questões comerciais. O tricolor, que há meses debate uma possível transformação em SAF, fechou o ano com R$ 51, 5 milhões de “lucro” e um passivo acumulado de pouco mais de R$ 1 bilhão.
O mesmo nível de passivo tem o Vasco, que terminou com resultado positivo pela primeira vez desde que se transformou em SAF. O cruz-maltino fechou com R$ 413,8 milhões em receitas operacionais líquidas e um superávit de R$ 81,2 milhões. O clube, que busca um novo investidor e um aumento ainda maior de receitas, teve crescimento importante em direitos de transmissão e premiação em ano em que foi finalista da Copa do Brasil. Também colhe frutos de seu processo de recuperação judicial, que aliviou o imediatismo de parte de sua dívida.
