Baixela, um bar com feitiço, mumunha e Narciso, o pudim

 

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É curioso como o carioca elege seus lugares preferidos. Perto da minha casa tem o intrigante caso de bares geminados: um vive cheio, o outro às moscas. Já vesti minha versão jornalista investigativa para tentar desvendar o mistério infiltrando-me em ambos para uma cerveja e um rebola queixo despretensioso, tomei algumas notas e nada. Os cardápios são praticamente iguais, preços e temperatura das cervejas exatamente os mesmos. Mas, enquanto um vende uma quentinha aqui, outra ali, o outro ostenta uma clientela fiel, de gestos largos e risadas altas.

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O Baixela, em Copacabana, foi tocado por esse feitiço. Uma mumunha que transforma lugares comuns em botequins do coração. Desde que abriu as portas, pouco mais de dois anos atrás, o bar foi adotado pela vizinhança, pelos bons de copo e de garfo. Ficou pequeno em dias, e a árvore em frente virou mesa extra, a mais disputada nos dias mais quentes.

Cortaram a árvore, o movimento só aumentou e chegou a hora de crescer mais um pouquinho. Nas próximas semanas, o bar do Rodrigo e do João ganha um salão refrigerado no espaço deixado por um mercado de pulgas.

A Gal, uma das primeiras clientes de lá, acompanhou tudo isso. A salsichinha amável leva os tutores lá para tomar umas quase todos os dias em troca de água fresca e informações da vida alheia.

Cheguei lá mais tarde. Tinha ido encontrar uns amigos de fora da cidade num bar de bacana com vista para o mar. Foi um fiasco. O jeito foi jogar a carta do jeitinho carioca da originalidade e partir para o botequim que não conhecia, mas ficava perto dali.

As mesas eram desencontradas; a carta de bebidas riscada num quadro de giz meio torto; e uma vitrine fria guardava uma sorte preciosa de conservas. Ali se servia felicidade, fato.

Alguns petiscos, até um pouco mais. É o caso do pau carnudo. Um híbrido entre quibe e cafta espetado num palito, servido com maionese verde da casa. Sexy sem ser vulgar.

Tão sedutor quanto são os picles fritos. Os caras pegaram as conservas que já são ótimas e fritaram. Passei alguns meses trazendo uma quentinha para casa com medo de entrar em abstinência.

Por essas e outras, rapidamente o Baixela virou ponto de encontro natural na cidade e até mesmo escritório informal para muita gente. Daqueles lugares que você pode ir sem marcar com ninguém e vai brindar em três mesas diferentes. Tipo casa de amigos, só que com a geladeira maior.

Mesmo quando o plano inicial não é tomar uma meia dúzia, ele segue no páreo. É meu PF favorito da cidade, com batata frita de verdade. Pode ser com saladinha de repolhos também, uma coleslaw bem simpática que fica ótima com o frango frito. Mas a regra é clara: tem batata de verdade, peça. A iguaria anda cada vez mais rara por aqui.

Vencido esse percurso, o trunfo de lá está na sobremesa. O pudim é perfeito. Chamo de Narciso porque é um espelho. Nem ouse perguntar se tem furinho. A fatia é generosa e regada com calda na medida certa. Nem a mais, nem a menos. Para dias mais aventureiros, a dica é o manjar, servido no copo americano (ou russo, como preferir). Sim, com ameixa. Divino.

E, para quem ainda tem dúvidas, vamos esclarecer uma questão sobre os donos de uma vez por todas: o João é o de óculos. O Rodrigo é que está sempre de preto. E, não, eles não são irmãos!