Bahia: nova aposta do luxo sustentável em Trancoso tem casas de 'da roça' remontadas a pouco passos do mar
Em meio a seis hectares de Mata Atlântica e a poucos passos da praia de Itapororoca, em Trancoso, no sul da Bahia, estão escondidas três preciosidades que conseguem unir, de forma harmoniosa, o luxo à simplicidade. O Uxua Maré, a 20 minutos de carro do Quadrado, é a novidade do resort que sempre figura na lista dos melhores da América Latina. É um dos poucos lugares onde o visitante consegue ter uma experiência única dos cinco sentidos e se conectar com a floresta e o mar.
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Recém-inauguradas, as casas seguem o modelo de reserva do tradicional Uxua: toda a residência é de uso exclusivo de quem a aluga. A depender da temporada e da casa, as diárias podem variar de R$ 4,6 mil a R$ 19 mil. No Maré, cada uma recebe nomes de cores e pode acomodar de um a três casais. Enquanto no famoso Quadrado os sócios Bob Shevlin e Wilbert Das optaram por restaurar residências históricas, no Maré o retrofit não foi tão simples. No terreno original havia apenas uma pequena construção, que foi transformada na cozinha principal do hotel. O desafio imposto pela dupla era não derrubar árvores para construir no espaço e manter o máximo reaproveitamento de materiais — algo já feito no resort de Trancoso.
A Casa Amarela, com a Praia de Itapororoca ao fundo, é uma das três propriedades inteiras disponíveis para locação no novo Uxua Maré, em Trancoso, no sul da Bahia
Divulgação/Uxua
Foi então que, em meio à pandemia, um amigo avisou que duas casas estavam sendo vendidas em Cubas, no interior de Minas Gerais. Por fotos, eles se apaixonaram pelas construções e trouxeram ambas desmontadas para serem reconstruídas à beira-mar de Itapororoca: a Azul e a Amarela. Já a terceira, a Branca, foi desenhada e erguida a partir de portas e janelas que seriam descartadas de outra construção. Em todas há elementos dos Pataxós, tribo indígena local.
— Quando eu trabalhava com moda, minha parte favorita era garimpar tecidos e roupas antigas. Sempre gostei das coisas que têm vida. Depois, acho que apliquei isso a outras áreas, como casas e móveis. Minha ideia passou a ser criar coisas que perdurem com o tempo. A casa Branca, por exemplo: anunciaram que iriam vender as portas e janelas de uma casa colonial, também em Minas, para trocá-las por alumínio. Elas são feitas de cedro e são lindas. Comprei todas (19 janelas e 15 portas) sem nem saber que iria construí-la. No final, sobraram só duas portas — conta Wilbert, ex-diretor criativo da Diesel.
Um dos quartos da Casa Azul, na Praia de Itapororoca, uma das três propriedades inteiras disponíveis para locação no novo Uxua Maré, em Trancoso, no sul da Bahia
Divulgação/Uxua
As paredes e os cômodos de madeira da casa Azul parecem abraçar o visitante. Repleta de vidros, ela permite apreciar o vai e vem da natureza até mesmo para quem prefere evitar o contato direto com ela. Os móveis, feitos de madeira de árvores da região intensificam a conexão com o local. O banheiro todo branco e outros detalhes, como o teto, provocam um contraste entre o antigo e o novo: tudo o que precisou ser adicionado à construção foi propositalmente pintado.
Do lado de fora, ainda há uma raridade: uma flor de Goethea, de uma muda descoberta no resort e que não era vista há 70 anos. Logo ao lado, a piscina da casa conclui o que ela se propõe: a borda infinita avança em direção à mata, tornando-se mais um espaço de contemplação da natureza. Só não se assuste se receber a visita de uma arara, macaco ou de uma preguiça curiosos em saber quem é o visitante do dia.
Definitivamente, aqui vale a máxima de acordar cedo para aproveitar cada segundo — logo nos primeiros raios de sol que nascem sobre o mar. Se a maré também estiver baixa, formam-se piscinas naturais entre os corais e permitem ao hóspede aproveitar a paisagem ainda mais a fundo. É uma pena que muitos desses corais já estejam esbranquiçados.
Pratos do restaurante comandado pela chef Renata Buim no novo Uxua Maré, em Trancoso, no sul da Bahia
Divulgação/Uxua
O Maré oferece quase os mesmos serviços do resort Uxua no Quadrado, com restaurante e transfer a combinar. A cozinha é comandada pela chef Renata Buim, que opta por usar ingredientes frescos, plantados na horta local e pescados diariamente na região. Ao seguir o aroma dos pratos preparados por ela, no caminho o hóspede encontra árvores perfumadas, como mirra, alfazema e almíscar. Para quem prefere se aventurar nas panelas ou levar os próprios profissionais, todas as casas possuem cozinhas equipadas e prontas para uso.
Longe de automóveis e dos barulhos da cidade grande, é possível até esquecer estar na companhia de outros seres humanos. No Maré, ouvidos mais atentos conseguem perceber a música da natureza variando ao longo do dia: dos primeiros pássaros que despertam ao amanhecer, aos pequenos lagartos passeando pelo jardim, até os grilos cantando à noite.
Se uma caminhada — ou corrida, para os mais fortes — pela manhã não trouxer a dose diária de endorfina suficiente, há uma academia aberta, com pesos livres, cordas e luvas para treino de luta. A trilha sonora fica por conta das ondas do mar, que quebram a poucos metros do local de exercícios. Em um espaço próximo, também há uma quadra de beach tennis, que pode ser adaptada para o vôlei de praia.
Passeio no sítio
O Uxua também já permite, de forma mais restrita por enquanto, passeios em outra propriedade: a Roça. O sítio, que fica a 20 minutos de carro do hotel no Quadrado, é outro projeto de revitalização da dupla de estrangeiros que criaram raízes no Brasil. O local era uma fazenda de produtos hidropônicos, mas, desde que foi adquirida por Bob e Wilbert, passa por uma transformação: os plásticos de suporte à plantação deram lugar à agrofloresta, onde tudo se planta e, o mais importante, se colhe.
O passeio, sobretudo para crianças, pode ser uma experiência ímpar de contato com a natureza e aprendizado sobre agricultura e criação de animais, como porcos, perus, galinhas e gado.
No tradicional Uxua do Quadrado de Trancoso, também há produção autossustentável. No telhado do Lab, colmeias de abelhas uruçu-amarela — nativas e sem ferrão — coletam pólen da região e produzem um mel aromático. Abaixo delas funciona uma espécie de laboratório comandado pela nutricionista Daianichan Nahabedian. Pelo que faz, ela poderia ser chamada de alquimista.
Em meio a provetas e béqueres, ela produz chocolates, kombuchas e própolis usados no hotel. Sua nova missão é encontrar a fragrância Uxua, misturando a flora baiana. Ao longo do dia, ela ainda recebe hóspedes para aulas “mão na massa”, permitindo que até os mais desajeitados consigam produzir o próprio chocolate.
O luxo reconfortante do Uxua permanece em cada uma das casas do hotel, em sintonia com o icônico Quadrado de Trancoso. As televisões, por exemplo, estão presentes em todos os quartos, mas passam quase despercebidas. Na Casa do Lago, onde o hóspede pode nadar com peixes a poucos passos da porta, o celular só é lembrado para tentar registrar a foto perfeita.
Felipe Grinberg viajou a convite do Uxua
