Bacellar foi procurado por Brazão, réu no Caso Marielle, na mesma semana da prisão do conselheiro do TCE

 

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Na noite de 23 de abril do ano passado, um sábado, o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, à época no comando da Casa, combinou, por telefone, um almoço no dia seguinte com um velho amigo. O encontro, no entanto, não aconteceu, porque o anfitrião foi preso pela Polícia Federal, às primeiras horas da manhã do dia 24. O mandado de prisão era contra o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Domingos Brazão, que, junto com o irmão, o então deputado federal Chiquinho Brazão, foram detidos na Operação Murder Inc., deflagrada pela PF. Ambos foram apontados como mandantes do homicídio da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. Os dois serão julgados na terça-feira pelo Supremo Tribunal Federal.

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Bacellar foi preso em 3 de dezembro, pela Polícia Federal, acusado de obstrução à investigação, pela suspeita de vazar dados sobre a operação dos agentes contra o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Jóias. Segundo relatório da PF, Bacellar teria avisado o colega parlamentar sobre a prisão, com instruções para se livrar de evidências, como apagar dados do celular. Bacellar foi libertado e cumpre medidas cautelares, como uso de tornozeleira. TH Jóias responde a processos por tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, além de ser suspeito de intermediar negociações de armas com o Comando Vermelho (CV).

Reunião de Kaio Brazão com Rodrigo Bacellar

Na mesma semana em que os irmãos Domingos e Chiquinho foram presos, Bacellar se encontrou numa padaria no Flamengo, na Zona Sul do Rio, com outro integrante do clã Brazão: Kaio Brazão, enteado de Domingos, a quem chama de filho. A Polícia Federal tomou conhecimento do encontro ao monitorar uma terceira pessoa presente à mesa: Robson Calixto Fonseca, o Peixe, preso em 9 de maio — duas semanas após os irmãos Brazão —, acusado de entregar a arma utilizada na execução da parlamentar. Peixe já havia trabalhado como assessor de Domingos, à época em que ele era deputado estadual. Ele também será julgado na terça-feira, pela acusação de ter fornecido a arma do crime.

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Investigadores decidiram, então, ouvir Bacellar para saber o motivo do encontro marcado com Domingos primeiro e, posteriormente, com o filho dele, filmado por câmeras de segurança da padaria e por uma testemunha.

Bacellar confirmou que ele e o conselheiro combinaram o encontro na véspera da prisão de Domingos. Também admitiu que Kaio o procurou no dia 26 de março, dois dias depois da prisão do pai e do tio, por meio de mensagem por escrito.

Em seu depoimento à PF, Bacellar detalhou o que havia na mensagem: “Bom dia, presidente. Tudo bem? Seria possível encontrar com o senhor nessa semana? (SIC)”.

Bacellar contou que respondeu: “Claro, irmão. Bom dia”.

Kaio, por sua vez, teria lhe dito que iria ao seu encontro no dia seguinte, ou na quinta (28/03/2025). Ambos marcaram às 9h do outro dia.

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Segundo o depoimento de Bacellar aos agentes, a presença de Peixe teria lhe causado “incômodo”, e que ele veio acompanhando Kaio. No encontro, disse Bacellar, Kaio teria lhe pedido “conselhos políticos”. Bacellar afirmou que Domingos, antes de ser preso, havia lhe pedido que o filho concorresse a vereador no pleito de 2024 pelo MDB. O representante da Alerj assegurou aos investigadores que o assunto era “eminentemente político”.

No entanto, durante a conversa, Bacellar disse que Peixe lhe pleiteou um segurança para Kaio, o que ele teria respondido que não tinha condições de atendê-lo. Bacellar disse ainda que o pedido deveria ser direcionado ao tio de Kaio, Pedro Brazão, que também é deputado estadual.

Ao ser perguntado pelos investigadores da PF o seu grau de relação com o clã Brazão, Bacellar afirmou ser amigo de Domingos e de sua esposa Alice Kroff Brazão há, pelo menos, 20 anos. Segundo ele, a amizade iniciou-se durante sua trajetória política em Campos dos Goytacazes, quando seu pai, Marcos Vieira Bacellar, ainda era vereador na cidade do Norte Fluminense.

Além de Kaio, Bacellar disse que chegou a ser procurado também por Pedro Brazão, então 1º vice-presidente da Alerj, que foi acompanhado da irmã. Ambos pediram que ele ajudasse a interceder no processo de expulsão de Chiquinho do União Brasil. Bacellar disse que, por deferência a Pedro, entrou em contato com o presidente da executiva nacional do partido, Antonio de Rueda, que lhe informou que a “situação não tinha mais volta”.

LIGAÇÕES ENTRE DOMINGOS, BACELLAR E OUTROS POLÍTICOS

A aproximação com Bacellar foi apenas uma das tentativas de Domingos Brazão de mobilizar sua influência e angariar apoio junto a expoentes da política nacional. Entre os acionados para ajudar o clã estavam o ex-deputado federal Eduardo Cunha; o ex-prefeito de Belford Roxo, Waguinho (Republicanos) — aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —; e o prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), entre outros. Cunha e Quaquá, por exemplo, foram arrolados como testemunhas de Domingos na ação penal 2.434, que apura o crime.

Em seu testemunho, Cunha — do Republicanos, partido de Kaio — disse que o aliado político não tinha qualquer relação com grilagem de terra, motivo apontado pela Polícia Federal como razão para a execução de Marielle.

Segundo Cunha, o amigo compra postos de gasolina e adquire bens em leilões. No entanto, Cunha parece não ter acompanhando a vida de Domingos antes de ser preso. O próprio conselheiro contou ao GLOBO em entrevista exclusiva que se desfizera de seus postos de gasolina. Ele e seu filho Kaio vinham adquirindo galpões, principalmente na área da Baixada Fluminense, para alugar para grandes empresas.

Cunha destacou ainda que, em "dobradinhas" políticas com Domingos, especialmente em campanhas eleitorais em áreas como Rio das Pedras, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, nunca presenciou qualquer ligação do réu com milicianos.

Em seu depoimento, Quaquá também prestou apoio a Domingos e foi além. Ele afirmou que o conselheiro é inocente e que estava sujeito ao desgaste político, por ser um político de esquerda — Marielle era vereadora do PSOL. Segundo Quaquá, Domingos é inteligente, portanto, não mataria a parlamentar: “Matar a vereadora é burrice. Brazão é estrategista político, não faria isso”.

Cadeia Velha

Em novembro de 2017, Domingos foi um dos alvos da Operação Cadeia Velha, desdobramento da Lava Jato que revelou um esquema milionário de propinas pagas por empresários do setor de transportes a parlamentares da Alerj. A ação levou à prisão de três das figuras mais poderosas do Legislativo à época — Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi —, e expôs também o papel de Domingos nas engrenagens de corrupção que sustentavam a política fluminense. Embora tenha sido solto posteriormente, o episódio deixou claro o tamanho de sua influência e sua capacidade de sobrevivência mesmo diante de crises que derrubaram outros caciques.

Mesmo após a Cadeia Velha, Domingos conseguiu preservar a cadeira de conselheiro, cargo vitalício e estratégico, responsável por fiscalizar as contas públicas e influenciar diretamente a gestão dos recursos estaduais. Ele seguiu exercendo funções no tribunal, blindado por apoios e por uma rede de alianças construída ao longo de décadas.

A influência de Domingos Brazão na política fluminense é antiga e atravessa diferentes esferas de poder. Ex-deputado estadual por cinco mandatos consecutivos, ele construiu uma sólida base eleitoral na Zona Sudoeste do Rio, região marcada por disputas territoriais e pelo avanço de grupos de milícia. Sua chegada ao TCE-RJ, em 2015, foi resultado de um acordo político que envolveu diversas forças partidárias, consolidando sua posição como um dos atores mais influentes do tabuleiro estadual.

Esse poder institucional, somado ao trânsito com lideranças locais, empresários e parlamentares de diferentes partidos, explica por que Domingos continuou a ser visto como peça central no xadrez político fluminense.

Os irmãos sempre negaram envolvimento no caso Marielle. Enquanto Domingos afirma que não a conheceu, Chiquinho ressalta que tinha um tratamento amistoso com a colega — ambos eram vereadores em 14 de março de 2018, quando houve o duplo homicídio). O ex-policial militar e ex-assessor do TCE Robson Calixto também nega a acusação.

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