Avião que levou delegação do Irã para negociação com os EUA no Paquistão fez homenagem a crianças mortas em escola

 

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A República Islâmica do Irã enviou uma delegação com cerca de 70 representantes e negociadores ao Paquistão neste sábado para o início das negociações com os EUA sobre um cessar-fogo amplo para o conflito que paralisou o Oriente Médio. Em uma iniciativa marcada por simbologias — algumas mais explícitas do que outras —, os representantes iranianos viajaram em um avião ornamentado com fotos das crianças mortas em uma escola de ensino primário em Minab, atingida por um ataque americano no primeiro dia de conflito — amplamente denunciado por Teerã como um crime de guerra.

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Imagens divulgadas pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã neste sábado mostraram parte dos assentos do voo oficial ocupados por fotos das crianças, posicionadas atrás de mochilas e tênis sujos do que aparenta ser sangue. Flores brancas também foram posicionadas entre os assentos.

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O ataque aéreo contra a escola em Minab, no sul do Irã, no dia 28 de fevereiro, matou pelo menos 170 pessoas, incluindo alunos e professores. Uma investigação preliminar realizada por militares dos EUA reconheceu que o local foi atingido por um míssil Tomahawk, após a análise de dados desatualizados apontar o prédio como alvo militar. Desde então, o caso passou a ser apontado pelas autoridades do Irã como prova de excessos e crimes cometidos pelos adversários na guerra.

Embora a homenagem, tornada pública pelas autoridades iranianas, seja o simbolismo mais explícito da delegação, especialistas apontam que mensagens das principais autoridades iranianas pelo início das negociações e a própria escolha dos representantes — e o número de pessoas enviadas — dão sinais sobre a percepção do processo diplomático por Teerã.

Fotos das crianças mortas em bombardeio a escola atribuído aos EUA foram afixadas em avião oficial

Ministério das Relações Exteriores do Irã/ AFP

— A mensagem mais importante que o Irã está enviando com a composição de sua delegação é que há consenso interno para negociações e um acordo nos níveis mais altos do regime — afirmou Omid Memarian, pesquisador sênior e especialista em Irã no Dawn Institute, organização sem fins lucrativos sediada em Washington.

A equipe iraniana é liderada pelo veterano político e comandante militar general Mohammad Bagher Ghalibaf. Além dele, autoridades de destaque como o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, o membro do Conselho de Segurança Nacional Ali Bagheri Kani e o almirante Ali Akbar Ahmadian, ex-chefe de gabinete da Guarda Revolucionária Islâmica compõem o grupo.

Três altos funcionários iranianos familiarizados com as negociações disseram ao New York Times que a equipe tinha plena autoridade para tomar decisões no Paquistão e não precisava consultar Teerã, dada a natureza crítica das negociações. As autoridades, que pediram para não ser identificadas por estarem discutindo questões sensíveis, disseram que o novo líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, concedeu a Ghalibaf, um amigo próximo e aliado, o poder de fechar um acordo ou desistir.

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O vice-presidente iraniano, Mohammad Reza Aref, disse em uma publicação nas redes sociais na sexta-feira que Ghalibaf estava agora "representando a nação e o nezam", usando a palavra persa para o sistema completo da República Islâmica, que inclui não apenas o governo eleito, mas também o líder supremo.

— O que podemos inferir da delegação iraniana é que eles não vieram para protelar — disse Vali Nasr, professor de estudos do Oriente Médio e especialista em Irã na Universidade Johns Hopkins. — Eles vieram com plena autoridade e seriedade para chegar a um acordo com os Estados Unidos.

Nasr, que também atuou no Departamento de Estado como representante especial dos EUA para o Afeganistão durante o governo Barack Obama, afirmou que, normalmente, uma delegação tão grande de especialistas só seria mobilizada se as negociações estivessem nas fases finais de um acordo, e não para um contato inicial exploratório. (Com NYT e AFP)